quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Síndrome da infiltrada

Nos últimos anos, muito tem se falado sobre a síndrome da impostora, algo que acomete muitas mulheres, senão a maioria de nós, fazendo com que tenhamos a sensação eterna de sermos insuficientes, insatisfatórias em tudo. 
Sei que pode parecer a mesma coisa, mas eu usaria um outro termo, pelo menos mais adequado para mim - síndrome de infiltrada. É como me sinto muitas vezes, e estar infiltrada também remete à farsa, como a impostura. 
Essa foi minha sensação quando fui fazer curso de ilustração com Odilon e Fernando, em meio a vários desenhistas talentosos. O mesmo quando fiz escola técnica, e no fundo sempre soube que não seguiria aquele caminho depois, mas terminei o curso. O que dizer do flamenco, que insisto em fazer, mesmo não decorando a sequência de passos? Quando, no curso de panificação, diziam que eu tinha "cara de especialista", eu queria mesmo era ser um avestruz. Que bom seria, pelo menos, ser uma fingidora poética, não uma farsante infiltrada.
Tudo isso é um pouco de exagero, claro, parte da minha herança mediterrânea. A parte oriental é que fica inconformada, mas eu tenho que explicar que nada disso é proposital. Como uma mariposa, vou atrás da luz, iludida e suicida. Às vezes, uma vidraça me impede de me queimar. Às vezes, sinto que encontrei minha turma, e a alegria é imensa. Mas tem sempre um "mas" que me faz questionar o que estou fazendo ali. Talvez a questão seja justamente não me fixar num grupo, por mais gregária que seja minha alma. Nem formiga, nem cigarra. Visitar mil jardins. Borboletear não pode ser tão mal assim, afinal.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Eros e Tânatos

Tem uma música linda do Paulinho Moska, "A seta e o alvo", que fala de duas pessoas, um casal, que têm visões opostas da vida - "eu falo de amor à vida/ você, de medo da morte/ te chamo pra festa/ mas você só quer atingir sua meta". Não poderia mesmo dar certo, alguém pode dizer - e eu acrescentaria que não pelo que cada um representa, mas pelo que faz com o que traz para o relacionamento. 
Na música mencionada, um é Eros, o outro é Tânatos, desejo de vida e pulsão de morte. Segundo a psicanálise, é preciso equilibrar essas duas forças que habitam em nós. Tem gente que é mais Eros, tem quem seja mais Tânatos. Tendo a crer que o excesso de um ou outro não é bom, mas certamente a pulsão de morte demasiada quando se está vivo é um sintoma de depressão, ou raiva represada. Outro dia, falei do desejo de morte de Alain Delon, e nem tinha feito essa associação com o conceito freudiano. 
Assim como precisamos equilibrar essas forças dentro de nós, também não podemos deixar que nosso desejo de vida seja apequenado pela pulsão de morte alheia. Imagino que seja a regra em relacionamentos tóxicos, abusivos em qualquer grau, a alegria dar lugar ao medo. No mundo patriarcal, aliás, é o Eros feminino que está sempre sob vigilância. 
Fazendo uma conversa entre Freud e Jung, acredito que haja pontos em comum entre Eros e Puer, Tânatos e Senex. Em ambas as abordagens, equilíbrio é tudo - no caso junguiano, é a afirmação do Self que vai permitir equilibrar as forças, ou todas as vozes, que habitam em nós. Na nossa vidinha comum, é nos lembrar de quem somos, do que é importante para nós, para nos afastarmos da morte em vida, da tristeza sem sentido. Principalmente, lembrar que o caminho para longe das trevas é individual, e que passar pelo pântano é inevitável, mas nele permanecer é uma escolha - consciente ou não, mas uma escolha. Não há amor que salve quem não deseja ser salvo (no final, é a vontade de se salvar que salva, não o amor de outrem). Como na música, o alvo não nos espera. Como no poema, o caminho se faz ao andar. A alegria e o amor, se praticam. 

segunda-feira, 3 de abril de 2023

O domínio da dor ou a morte anunciada de Alain Delon

Esse título é propositalmente ambíguo. Você domina sua dor ou ela te domina? 
Quando pensei em escrever sobre isso, Alain Delon nem tinha anunciado seu suicídio assistido porque não via mais sentido na vida. Ele admitiu que não conseguia lidar com as dores da velhice, o que não deve ter sido fácil para um homem tão assumidamente vaidoso como ele sempre foi. Foi no início do ano passado que ele fez o anúncio, que causou espécie no mundo todo. Ainda não levou a cabo a promessa, mas com certeza fez muita gente refletir sobre diversas questões. 
É importante eu dizer, antes de mais nada, que acho que cada um tem direito de fazer o que quiser de sua vida, desde que não prejudique a dos demais. Mas, além da não aceitação da velhice em si, me chamou a atenção a dor imensa que essa provoca em Delon, física, psíquica e espiritualmente. Realmente, envelhecer não é bolinho. Causa dores mesmo, tudo range, tudo cai, tudo afina. Poderia dizer que a velhice é das poucas coisas justas, porque acomete a todos, mas não é, porque não acomete a todos do mesmo jeito. Alain Delon tem mais condições de envelhecer com dignidade que a maior parte da população mundial. Eu sei, estou cada vez mais chata (provável sinal da velhice, a rabugice), mas não deixo de pensar na injustiça all the time, sorry.
Mas o fato, para além da injustiça, da dor física provocada pelo envelhecimento, da dor na alma provocada pelo etarismo (que atinge, sim, as pessoas mais vaidosas, presas a uma ideia de juventude eterna, à não aceitação da passagem do tempo), da minha rabugice, é que muitas pessoas, talvez a maioria, se deixem dominar pela dor. Dominar a dor, pelo contrário, é um aprendizado longo, talvez um verdadeiro aprendizado zen.
Nunca me esqueço de uma passagem do documentário belíssimo Eu maior, de Fernando Schultz e Paulo Schultz, em que a monja Cohen fala que a dor é um sentimento passageiro, nós é que nos agarramos à lembrança dela, e que é preciso deixar passar essa lembrança, esse pensamento, como se faz na prática da meditação. É fácil falar porque meditar de fato exige um treino imenso, talvez pouco atraente porque não tem resultados tão visíveis para os outros como um treino em academia, o treinamento de um idioma, a prática culinária etc. Meditar é só com a gente mesmo, e por isso deveria ser tão importante. 
Dominar a dor é diferente, claro, de suportar a dor, como tantas mulheres suportam todos os dias, físicas e psicológicas. Nem sei se é completamente possível para nós, meros mortais. Porém, não se deixar dominar por ela já é um grande avanço - e nisso incluo paranoias, ciúmes, manias, o hábito de reclamar, o deixar-se enredar em pensamentos que não nos deixam avançar. Não sei se seria o suficiente para Alain Delon sofrer menos, talvez não. Mas acho que encarar a própria dor sem sucumbir cria o delicado limite entre a morte da alma e a poesia da vida - na forma, inclusive, de arte. 

terça-feira, 3 de maio de 2022

No me compares

Daí que, nas aulas de espanhol, volta e meia Raquel traz umas canciones, e outro dia foi "Corazón partió", de Alejandro Sanz. Fui buscá-la pra praticar a cantoria e achei uma outra, em dueto com Veveta, "Não me compares" (a versão é do Filipe Catto). Tem a versão de Sanz só em espanhol, claro, mas a ideia é a mesma: a mania que algumas pessoas têm de comparar seus diferentes parceiros. Alguém pode dizer que comparações são inevitáveis, mas acho que há muita diferença entre comparar coisas (que, para serem comparadas, devem ser equivalentes) e comparar pessoas (que são sempre únicas). Relacionamentos também são incomparáveis, tão diferente é sua natureza. Comparações entre pessoas de diversos relacionamentos, então, são conversas inúteis, quase sempre uma forma de mostrar insatisfação e que acaba por machucar o outro, que não pode (nem deve, e talvez nem queira) se transformar em outra pessoa. Até posso querer que o outro aja de forma diferente, mas não que ele se torne outro alguém. 
Como mostra a música de Alejandro Sanz, a insistência em comparar só pode trazer frustração. De ambos os lados. 

Ahora que crujen las patas de la mecedora
Y hay nieve en el televisor
Ahora que llueve en la sala y se apagan
Las velas de un cielo que me iluminó
Ahora que corren los lentos derramando trova
Y el mundo; "ring, ring", despertó
Ahora que truena un silencio feroz
Ahora nos entra la tos
Ahora que hallamos el tiempo podemos mirarnos detrás del rencor
Ahora te enseño de dónde vengo
Y las piezas rotas del motor
Ahora que encuentro mi puerto, ahora me encuentro tu duda feroz
Ahora te enseño de dónde vengo
Y de qué tengo hecho el corazón
Vengo del aire
Que te secaba a ti la piel, mi amor
Yo soy la calle
Donde te lo encontraste a él
No me compares
Bajé a la tierra en un pincel por ti
Imperdonable
Que yo no me parezco a él
Ni a él, ni a nadie
Ahora que saltan los gatos buscando las sobras
Maúllas la triste canción
Ahora que tú te has queda'o sin palabras
Comparas, comparas, con tanta pasión
Ahora podemos mirarnos sin miedo al reflejo en el retrovisor
Ahora te enseño de dónde vengo
Y las heridas que me dejó el amor
Ahora no quiero aspavientos tan sólo una charla tranquila entre nos
Si quieres te cuento porqué te quiero
Y si quieres cuento porqué no
Vengo del aire
Que te secaba a ti la piel, mi amor
Soy de la calle
Donde te lo encontraste a él
No me compares
Bajé a la tierra en un pincel por ti
Imperdonable
Que yo no me parezco a él
Ni a él, ni a nadie

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

No pasarán

Outro dia, assisti ao lindíssimo Madres paralelas, de Pedrito Almodóvar - ou AMORdóvar, como bem o chamou uma antiga amiga de faculdade. Foi aquele gatilho do bem pra eu me lembrar como o tema da Guerra Civil Espanhola - e, na sua esteira, a luta por justiça e por direitos humanos - sempre me foi caro. Aliás, essa mesma amiga da faculdade se recordou de minhas pesquisas sobre Guerra Civil quando frequentávamos as aulas do professor Sebe, especialista no assunto. Tudo havia começado no colégio, assistindo aos filmes de Saura, lendo García Lorca, conhecendo Guernica; depois tive contato com Hemingway e, já na faculdade, com os volumes de Hugh Thomas sobre a guerra na Espanha. As Brigadas Internacionais. La Pasionaria Dolores Ibárruri. No pasarán, conclamava a revolucionária basca. 
Infelizmente, eles passaram e mantiveram uma ditadura de quarenta anos na Espanha. Como também em Portugal, sob Salazar. No Brasil, foram quase trinta anos (sem contar a de Vargas). Quase vinte no Chile. Tantos anos em tantos países, incontáveis anos roubados à liberdade do cidadão comum. Quase nunca das elites econômicas, que sempre ganham com o desastre e o horror. Como acontece hoje, no governo bolsonarista, em que, mesmo com a intensificação da iniquidade social, os ricos repetem sua ladainha desprovida de sentido de temor ao comunismo que nunca houve no país, seguida sempre do irritantemente imbecil "mas e o PT?". Porque, para eles, pouco importam os milhões voltando à miséria, os desempregados, a população de rua, os feminicídios, o massacre da população pobre e negra. 
Eu tive certeza desse completo descaso pelo outro quando me vi cercada de simpatizantes do Bozo, pró-fascistas que clamavam contra uma possível eleição de Lula - porque, no governo do PT, "nosso dinheiro era todo mandado pra fora". Pra fora onde, meu pai? Pra Venezuela? Dali a pouco, teve um que quis colocar um áudio de WhatsApp recebido sabe exu de onde pra gente "ver que". Ai, senhor Jesus, apaga a luz. Por sorte, até os outros simpatizantes do Evil protestaram porque preferiam ouvir música ao áudio de origens controversas. Só sei que, ao fim da sessão de disparates, me sobrou uma sensação ruim e um pensamento: sou obrigada a conviver com gente assim? Pessoas que se informam pelo WhatsApp? Que estão cagando pro próximo, que só se importam com seus ganhos, seu conforto? Que acreditam que há orgias nas universidades públicas, que agora há uma semvergonhice das populações antes esmagadas? É um samaritanismo que não possuo.
Só para aumentar ainda mais o tamanho do disparate, assisti no YouTube a uma récita de um casal de moradores de rua - não consegui descobrir quem são, de onde são, quem produziu o vídeo. Só sei que foi a declamação mais pungente e bela que já vi de Drummond. E eles perguntam, no máximo direito de perguntar: você marcha, José? José, para onde? A mim só resta desejar que, como José, eles sejam duros, que não morram, que não deixem que seus opressores passem mais uma vez. Quero estar junto, cerrando fileiras.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Sororidade e nossas lutas diárias

Quando fui trabalhar na TV Cultura, tive de cara um impasse: a pessoa que exercia a mesma função que eu, com quem deveria dividir algumas informações e partilhar o mesmo modus operandi, antipatizou comigo. Bastante, eu diria. Ou, pelo menos, assim pareceu. Depois percebi que duas senhoras, ex-professoras, que lá trabalhavam como consultoras e a tratavam como mascote, falavam mal de mim para ela - e não parecia que falavam: eu as ouvia falar, na minha cara. Ouvi-as comentando, por exemplo, que eu nem bem havia entrado para a equipe e já ia viajar - algo que tinha combinado com meu chefe assim que fui selecionada, porque tinha um compromisso em outro estado, com passagens compradas e tudo. As duas me tratavam com desdém, uma era irônica, a outra sequer respondia ao meu cumprimento. Nunca soube o porquê. 
A minha relação com minha colega, porém, mudou quando, no dia do seu aniversário, eu organizei uma festa surpresa, com vaquinha para o bolo e que tais. Ela foi de fato surpreendida, ficou roxa e emocionada, e daí para adiante nos tornamos muito amigas, e o somos até hoje, apesar da distância. As duas professoras não gostaram nada. Às vezes, havia tentativas de colocar a ex-mascote contra mim em questões comezinhas, mas não deu certo. 
Por que conto essa história aparentemente bobinha? Porque sempre me incomoda que as mulheres sejam desunidas por ninharias, por competições pífias, por juízos apriorísticos. Hoje, apesar do peso do termo sororidade, há tantas questões menores pululando no cotidiano que tudo é motivo para desentendimento. Não falo das questões políticas e visões de mundo, mas de questiúnculas mesmo. Outro dia, assisti a um debate acalorado nas redes sobre ser mãe de crianças e mãe de pets porque uma outra amiga disse que não tinha paciência com comparações entre o sofrimento de umas e outras. Acho que se fosse ao vivo as mães todas teriam saído no tapa. 
Enquanto brigamos entre nós, enquanto chamamos outras de "vagabundas", achamos ridículo que se vistam assim ou assado, que façam procedimentos estéticos ou que continuem gordas e "desleixadas", que queiram ou não ser mães, num julgamento sem fim das vidas alheias, milhares de mulheres diariamente são estupradas, espancadas, mortas, desrespeitadas em seu trabalho e em sua intimidade, por sua cor, por sua orientação sexual, muitas vezes só por serem mulheres. Enquanto brigamos, a sociedade classista, patriarcal, colonial se mantém soberana, sustentada por nosso trabalho e fazendo uso de nossos corpos em todos os sentidos. Enquanto brigamos, não somos sujeito, somente objeto; não formamos um corpo sólido que possa resistir e lutar, mas apenas milhões de partículas à deriva. O julgamento das duas professoras não agregou nada à nossa luta diária, não passou de fuxico desnecessário, pura futilidade. 
Por outro lado, e apesar de tudo, a forma de as mulheres verem a si mesmas tem mudado, que bom. E o modo retrógrado de olhar a si e a outras pode ficar para trás, ou muito reduzido. Assim, podemos nos solidarizar com a luta de alguém que nem conhecemos, perceber a importância de cada luta individual para as conquistas de todas. Quando soube, por exemplo, que uma querida da ECDE, de quem já comprei peças lindas e que é tão atuante na defesa dos direitos das mulheres, está enfrentando um câncer de mama, senti como se fosse uma irmã a enfrentar o problema - tenho acompanhado sua luta e sempre envio meus melhores pensamentos para ela, mesmo de tão longe e sem conhecê-la pessoalmente. Também tive a surpresa de saber que uma amiga amada teve de tirar a mama pelo mesmo motivo - foi um susto pra mim, mas ela me contou com aquela serenidade que a caracteriza tão bem, e ainda me estimulou a fazer logo meus exames. E eu fui, um ano e meio depois, refazer exames médicos, conferir nódulos aqui e ali. Eles continuam lá, mas sob controle. 
Cada vez mais me espanto com a falta de apoio de uma mulher a outra. Eu, que tive, sim, meus momentos de julgamento, mas tive o privilégio de me ligar do absurdo disso mais rapidamente que as duas senhoras de que falei. Não as vejo há muito tempo - quem sabe terão conseguido sair dessa também? Tomara que sim, porque em nossa época só cabem as questões fundamentais, se quisermos evitar a hecatombe completa. 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Oikos

Já faz um tempo que temos procurado ser mais ecológicos, evitando o desperdício de água e comida e o consumo excessivo.
Não é fácil. Tento criar um cardápio semanal para aproveitar ao máximo legumes e verduras e preparo em maior quantidade, para congelar, coisas básicas como arroz e leguminosas. Fiz cursos de aproveitamento e de congelamento de alimentos. Comprei a lava-louças que promete gastar menos água e a geladeira que consome menos energia. Consegui um desodorante em pedra que deve durar uns três anos, além de não ter aqueles químicos todos que podem ou não provocar câncer de mama. Tentei (mas não consegui) usar coletor menstrual para evitar os absorventes que demoram décadas para se desintegrar. Vamos, ou íamos, à praia de bike.
O que me frustra nessa tentativa de ser ecológico é como é algo ainda caro para a maioria, a menos que você consiga produzir muitas coisas em casa. Roupas, móveis, utensílios, alimentos. Além disso, mesmo buscando, por exemplo, uma alimentação com menos produtos processados, ingerimos muito veneno e hormônios. Continuamos à mercê dos grandes conglomerados, que ditam as regras do mercado e nos empurram uma comida pouco saudável, pouco ecológica e pouco democrática, já que muitas vezes está associada à exploração de trabalhadores no campo e na indústria, além da destruição dos espaços naturais. 
Pagamos cada vez mais caro pela energia elétrica, e o uso de painéis solares, num país tropical como o nosso, ainda é um grande luxo. A maioria dos produtos de higiene e beleza ainda está ligada a experimentos com animais, substâncias tóxicas e práticas pouco sustentáveis - embora já venhamos assistindo a uma pequena revolução nesse sentido.
Há também, por trás do discurso que estimula cada um a fazer sua parte, o interesse de governos e empresas de tirarem sua responsabilidade da reta. E é o que nos lança no desespero de ainda fazermos tão pouco para conter a catástrofe climática que se desenha diante dos nossos olhos a cada dia. Claro que há também os que afirmem que a natureza sobreviverá a nós, e se recuperará de alguma forma quando não estivermos mais aqui, mortos talvez pelo calor ou pelo frio ou por falta de comida ou de água. Também há cientistas alertando para o fato de que nem tudo que é vendido como natural é bom e que não basta o selo do produto orgânico para que algo seja sustentável.
De qualquer modo, me sinto bem de produzir menos lixo, de os restos de verduras e frutas virarem composto para as árvores do quintal, de resistir a liquidações das lojas favoritas, de ser capaz e ter condições financeiras de produzir nossas refeições. Talvez deixe de comer carne em algum momento. Ainda acredito que a ética - antes de tudo, e cada vez mais, um valor pessoal - é a melhor guia a reger nossa relação com essa grande casa que é o planeta. 

sábado, 9 de janeiro de 2021

Consumir/comer x apreciar/respeitar

Hoje li um texto ótimo da Djamila Ribeiro na Folha, sobre homens que consomem mulheres, mas não as apreciam. Embora não curta as tretas da Djamila com outras importantes figuras dos movimentos anti-racistas, achei seu texto de uma precisão ímpar. 
Coincidência ou não, tem circulado uma postagem que fala de homens que comem mulheres, mas não respeitam, não leem (e Djamila também menciona isso), não admiram mulheres, porque só amam outros homens. Parece um sinal dos tempos, essa consciência feminina da misoginia "controlada", pragmática. Talvez sempre tenha sido assim, os gregos e romanos que o digam. 
Se unirmos o texto de Djamila e o post pop, podemos concluir que quem come sem apreciar só engole. Não pode ser de outro jeito se a companhia que interessa mesmo é outra, não a que ali está. Isso fica tão evidente quando observamos grupos de homens e mulheres conversando - há os homens que se interessam por tudo que é dito por todas as pessoas presentes, há aqueles que só conversam com outros homens, que só ouvem o que os homens dizem, que só veem os homens. 
Estou tão acostumada a conversar de igual pra igual nos grupos dos quais faço parte que sempre me surpreendo com as posturas medievais de silenciamento, negação e invisibilização. Cheguei a testemunhar, não faz muito tempo, um amigo não tão próximo servindo água aos homens presentes, mas não a mim. Aliás, ele nem me olhou, como se eu não estivesse ali, sentada diante dele. "Brotherhood!", eu disse apenas, e ele ficou momentaneamente sem graça. Trata-se de uma falta de educação mais abrangente - cívica, cultural, sexual, humanista. Triste, sempre, como toda falta de educação. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Colorismo apaga ou acende a luta?

Outro dia foi que aprendi o termo "colorismo", usado por ativistas negros para salientar os graus de racismo sofridos por pessoas negras de acordo com ser mais ou menos negro. 
Acho que a esse respeito, não há dúvida: quanto mais negro for o indivíduo, mais preconceito ele sofre. Isso não quer dizer que os ditos "pardos", segundo as classificações estapafúrdias que aparecem no IBGE, não sofram também, ainda que de forma um pouco mais velada. O preconceito aí está, ferindo a todos. Por isso, do meu humilde ponto de vista de mulher não negra, fico pensando se é saudável para a luta anti-racista a divisão entre pessoas negras de qualquer matiz. Tudo isso depois de ter sabido de uma polêmica, no final do ano passado, entre a filósofa Djamila Ribeiro (que inclusive recebeu a última edição do Jabuti por seu Pequeno Manual Antirrascista) e a ativista Letícia Parks, a quem Djamila teria se referido no programa Roda Viva como "negra de pele clara" para evidenciar suas discordâncias. Antes, em maio de 2019, tinha havido outra discussão com Andreza Delgado, ativista negra de grande importância periférica, nos mesmos termos. 
O site Notícia Preta publicou, no ano passado, um artigo sobre Djamila x Andreza que expressa o meu sentimento com relação ao tema. Eu, do lado de fora dessa discussão, me incomodo com o esvaziamento de qualquer tema pelo uso de argumentos tão alheios ao debate que até lembram o que tanto criticamos nas falas machistas, homofóbicas, classistas e racistas. Só posso me entristecer ao ver como coisas menores podem minar a união tão fundamental para o fortalecimento dos movimentos sociais, sobretudo negros e feministas. 
O apego aos rótulos, e hoje talvez uma certa disputa pelos holofotes, não pode ser mais importante, me parece, que as longas lutas por direitos e igualdade na diferença. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Princesas

Ivan Martins, que adoro, publicou outro dia um texto em que dizia que não queria que sua filha fosse princesa, porque não há nada mais besta do que ser princesa, esse ser passivo que vive à espera do príncipe enquanto todos tomam decisões por ela. 
Só repostei o texto, e pronto. Já teve gente defendendo as princesas e atacando as feministas. Até quem dissesse que prefere ficar em casa cuidando do Macho Alfa e tendo direito a um cartão de crédito ilimitado. Já imaginei o Macho Alfa abandonando a princesa amadurecida por uma mais nova e levando junto o cartão, claro, talvez não sem antes dar uns sopapos na ex, lamuriante da perda de seus privilégios. 
Achei tudo muito louco, porque a distorção de ideias é gritante, a pós-verdade impera mesmo. A galera não entende que a luta feminista é por todas, pela igualdade de direitos, e não para sermos iguais aos homens. Que os direitos conquistados contemplam inclusive as que acham que não precisarão deles, mas certamente deles usufruem quando estudam, votam, circulam, escolhem seus parceiros. Que as mulheres podem inclusive, pela ótica feminista, serem princesas, se quiserem, mas não só isso. 
Até mesmo a maior fabricante de princesas do imaginário ocidental, a Disney, reviu seu conceito e passou a criar princesas bastante autônomas e fora da curva, como Moana, Valente, Tiana, Mulan. Bela, de A bela e a fera, já trazia a ideia de que a mulher podia ser inteligente além de bela para ter êxito na vida, mas suas sucessoras vieram botar fogo no parquinho. 
Talvez tenhamos que esperar passar essa onda de ultraconservadorismo para que as pessoas possam ver com clareza o que significa para uma mulher ser livre. Espero que essa liberdade chegue para todas. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Se viver, não case

Ou, pelo menos, não se case para ingressar em uma vida doméstica, de puro trabalho reprodutivo. A menos que seja exatamente isso que você queira, e sim, estou me dirigindo às mulheres.
Quando pensei em juntar meus trapinhos pela primeira vez, ouvi do companheiro que ele tinha medo de que a rotina destruísse o relacionamento. Normalmente, é ela a culpada, a rotina, sempre foi o que ouvi dizer. Não nós, não o que fazemos do relacionamento, mas ELA.
Um dos efeitos da pandemia tem sido o número de brigas e separações provocadas pelo exacerbamento do convívio e de uma intimidade sem nenhum sex appeal. Em princípio, a rotina cinzenta vem retirar o glamour da paixão dos primeiros tempos. Eu até me inclinei a acreditar em parte disso, mas sempre pensei: não pode ser só isso. Por que há casais que conseguem sobreviver ao casamento? Eles sabem driblar a rotina melhor que os outros? A pandemia tornou ainda mais cinzenta a rotina? Quem resiste aos pijamas 24 horas? A não ter tempo de sentir falta do outro?
O que algumas pesquisas têm mostrado, porém, é que as separações durante a pandemia estão quase sempre relacionadas ao desacordo quanto ao trabalho doméstico, com quem faz o quê, uma discussão que muitas vezes não tinha tanta importância, pois as camadas médias, ao menos no Brasil, se valem da terceirização do trabalho reprodutivo e também, com o trabalho fora de casa, mal tinham tempo de pensar no peso que esse trabalho doméstico de fato tem. 
Não faz muito tempo que se popularizou o conceito de sobrecarga mental feminina - junto com a jornada dupla de tantas mulheres, ainda há a ocupação mental com os afazeres domésticos, com os cuidados com a família, o que só aumenta o desgaste. De repente temos nos dado conta de que os homens não se ocupam disso porque sempre há uma mulher que o faça por eles. 
Também temos nos dado conta de que, no final das contas, a culpa pela falência dos casamentos, de ontem e de hoje, não é da rotina. A pandemia iluminadora mostrou que o problema é o papel a que a mulher sempre tem sido relegada, trabalhe ela fora ou não. A rotina doméstica sempre sobra para ela, com exceção de alguns parceiros iluminados, machistas em desconstrução, como dizemos hoje. Ou seja, a pandemia veio como uma cereja de chumbo sobre o bolo dos relacionamentos a dois, um shot concentrado de desigualdades na vida cotidiana de homens e mulheres. E muitas de repente tomaram consciência de qual era o problema - não, não era a rotina pura e simples, mas uma rotina desigual e massacrante para elas, para nós. Eu mesma, quando tive essa epifania, me senti tão liberta por saber que não era a união que me incomodava, mas a atribuição de papéis que não me cabem. 
Porque a ideia de se juntar a outra pessoa para compartilhar a vida, agregar, somar forças, multiplicar o que é bom e dividir o que não é aquela cocada toda, é ótima. Por isso tantas pessoas se unem, por isso é estranho que a simples rotina seja capaz de separá-las. Claro que há muitos casos de diferenças inconciliáveis, visões de mundo díspares - para isso não há muito jeito, e também não é culpa da rotina. Mas a exploração de uma pessoa por outra, ainda que inconsciente, isso sim, é capaz de acabar com qualquer amor, qualquer tesão, qualquer casamento.  
Por isso, reafirmo: se casar, case-se para o compartilhamento de afeto, ideias e experiências, mas não para se escravizar a um costume caduco. Case-se pelo que acredita, e não pelo que foi determinado por outrem. Se sequer suspeitar da armadilha, viva, não case. 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O corpo do outro

Tanta loucura nesse mundo de meodeos que é difícil organizar os pensamentos! Além da corrupção desenfreada, da pandemia sem fim, da direita ensandecida, da inflação descarrilada, tem estado em evidência ainda maior um sem fim de abusos do corpo alheio. 
Tamanho o absurdo da distopia que vivemos que, outro dia, ganhou destaque uma briga no Leblon, quando uma mulher, despeitadíssima, atirou garrafas de água contra outra que passava de biquíni num conversível; a de biquíni desceu do carro e desceu a mão na agressora e então foi covardemente atacada, desta vez, pelo namorado da outra, que lhe arrancou a parte de cima do biquíni. A agressora despeitada gravou um vídeo - está na moda agora, vídeos explicativos de agressores - justificando sua ação/agressão como defesa dos bons costumes, porque a outra estaria atentando contra o pudor ao exibir seu corpo malhado no calorão, mesmo noturno, do bairro praieiro carioca. 
Fiquei abismada com a pretensão que tem havido dos recalcados em relação ao corpo alheio. Quem deu o direito a essas pessoas de tocarem de alguma forma o corpo de uma mulher desconhecida? Ou de qualquer outra pessoa? Ou de sequer opinar sobre esse corpo?
A pergunta é retórica, claro, em se tratando de um país machista, sexista e violento, em que as ações contra as mulheres parecem ter sido completamente liberadas neste contexto de horror em que temos vivido, levando ao alarmante aumento do número de feminicídios desde a ascensão bolsonarista e ainda mais durante a pandemia, a denúncias de estupro em toda parte, o que reacende a discussão da legalidade do aborto - e novamente vemos debates absurdos sobre a autonomia que uma menina ou mulher tem sobre o próprio corpo, como no caso da garotinha capixaba que quase não conseguiu abortar após ter engravidado do parente que a estuprava há anos. 
Entre as últimas notícias bizarras sobre o assunto, temos o caso Robinho, jogador de futebol, que participou de um estupro coletivo na Itália e foi condenado pela justiça de lá, mas perigava ser contratado pelo Santos há poucos dias, até que os patrocinadores ameaçaram se retirar caso o contrato não fosse revogado. Além da defesa surreal de Robinho, que alegava não ter feito sexo (só colocado o pau na boca da moça), nem ter feito nada errado além de trair a mulher (só ter se aproveitado de uma moça alcoolizada e fora de si, como os envolvidos reconheceram em conversa grampeada pela justiça italiana), ainda há - embora menos, ainda bem - gente que argumente que há muita maria chuteira por aí querendo se dar bem. Bom, mesmo que fosse o caso, mesmo que a moça fosse prostituta, ninguém tem o direito de sair tocando o corpo dela sem que ela autorize ou esteja consciente. No final das contas, é sempre a mesma história, de como todos têm direito a fazer o que quiserem do corpo feminino, só mudando as circunstâncias. E como, por terem esse direito, os homens, principalmente, saem impunes de tantos abusos. Tudo em nome da normalidade, do costume. No caso de Robinho, praticamente em nome de Deus, que ele evocou diversas vezes nas gravações e em entrevistas, enquanto falava contra o movimento feminista e as mulheres "que nem mulheres são". 
Mas os homens também não querem ser objetificados, apesar da cultura machista do homem que está pronto para todas. Já ouvi de um companheiro que ele não estava sempre a fim, que era preciso criar um clima, e me senti um homem rejeitado naquele momento. Apesar da minha cara de tacho, foi fundamental para ter maior clareza do que é o corpo do outro, que ele não está sempre à disposição do nosso desejo - mesmo que seja um homem! Isso significa que boa parte do que vivenciamos em termos de abuso é resultado de uma cultura, ou seja, algo que pode e deve ser transformado. 

domingo, 27 de setembro de 2020

Bolhas, bolhas, bolhas

Já faz algum tempo que se fala nas bolhas criadas pelas redes sociais, de como só nos relacionamos com nossos iguais, de como só lemos sobre o que nos interessa. Isso só aumentou ao longo do tempo; especialmente com a eleição do Biroliro, mas estava lá desde o golpe contra Dilma Roussef, e desde então temos visto o acirramento das posturas ultraconservadoras cindindo as relações sociais no país (pelo menos, podemos reconhecer claramente os comportamentos fascistas, já não mais ocultos sob o forçoso politicamente correto e a suposta democracia racial).
Embora seja muito mais confortável falar apenas com quem concorda com a gente, até porque é impossível dialogar com um bolsominion, fico pensando o que isso traz para as relações sociais no longo prazo (ou médio, ou até mesmo curto, já que tudo é tão rápido hoje). A possibilidade de troca com o diferente vai se reduzindo mais e mais. Quando os iguais discordam é normalmente por ninharias, como vejo nas redes sociais, nada de fato relevante, nada que valha para melhorar o mundo. 
Imagino que, quanto mais tempo passarmos em nossas bolhas, menos tolerância teremos com as bolhas alheias (algumas merecidamente). Vamos nos evitar cada vez mais, estranhar cada vez mais as diferenças. A vida deve passar a ser um grande condomínio fechado, onde só entram os convidados, e todo o restante passa a ser visto como invasor. 
Num cenário assim, pouco espaço resta para a solidariedade e a alteridade. Difícil imaginar dividir espaços físicos com os divergentes - e parece que até a pandemia veio colaborar com essa demarcação de limites. Só nos "aglomeramos" com poucos, os mais próximos, os mais confiáveis. Como no próprio conceito de "nação", tudo o que está fora disso, desses limites, não merece nossa credibilidade. 
Difícil arriscar muitos prognósticos a partir desse cenário, mas as perspectivas por ora não são das mais animadoras. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Ainda o lugar de fala

Postei esses dias uma matéria ótima sobre o fato de descendentes de orientais não tolerarem mais piadas nem estereótipos associados a eles. Interessante como sempre aparece alguém para dizer que tudo é exagero, que isso acirra o ódio, enseja um debate e um confronto desnecessários, que nunca viu nada disso, que acha tudo tão natural blábláblá. Meu pai celeste, que preguiça! Mal respondi, mas uma amiga, mestiça como eu, resolveu responder, com todos os argumentos de quem não só sabe do que está falando mas também de quem sabe argumentar de fato. Uma hora ela cansou, já que o oponente, obviamente, não dava conta sequer de sustentar a discussão. Aí entrou outra pessoa para dizer que também nunca viu nada disso, blábláblá. Gente!
O mais louco dessa história é que as pessoas que criticavam o artigo e o suposto "preconceito" dos orientais entrevistados não são orientais. Contaram de suas experiências interétnicas superpositivas, como pessoas (quase) brancas, dizendo não entender tanto amargor e ressentimento, inclusive insistindo na inocuidade das piadas racistas quando ditas por "amigos", na melhor linha "se não vejo, não existe; se não é comigo, não tem importância". Logo os comentaristas supostamente brancos, já sozinhos na discussão, terminaram por elogiar um ao outro, por sua compreensão fina do problema alheio, que nem o próprio outro é capaz de entender tão bem. 
Nada disso é novidade - vemos isso o tempo todo em relação a pessoas negras, a mulheres, ao grupo LGBT, aos mais carentes. Sempre tem alguém de fora dizendo o que é certo, como devem se comportar, o que devem sentir. Até aqui em casa o que vejo ou sinto é algumas vezes colocado em dúvida - será? tem certeza? acho que você está viajando! Não há nada mais espantoso, mais pós-verdade que esses comportamentos que são fruto de uma cultura enraizada, mas não irredutível, não incontornável, graças à deusa. 
É preciso combater todo tipo de preconceito, é preciso dar voz a todos. Muitas vezes será preciso ser antipático, cortante como a espada de um orixá ou santo guerreiro, bradar contra os altissonantes donos da verdade que querem calar os demais. Mas, na maior parte das vezes, ficar em silêncio, somente ouvindo a verdade do outro, tantas vezes amesquinhado, será a melhor, mais bela e mais justa coisa a se fazer.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Aonde vai a educação?

Nestes tempos loucos e sombrios, em que incerteza é a palavra de ordem, fico me perguntando, como tantos, para onde vai a educação. Mais até do que para onde vai a economia. A saúde, já vimos, foi pro ralo. A cultura, então, nem dá pra saber que caminho tomou. Estão tentando expurgar a ciência, mas esta resiste um pouco mais.
A educação me é tão cara porque ninguém nem nenhuma área pode prescindir dela. Ela é a base para a vida, a sobrevivência, a luta e a vitória diária, o desenvolvimento de uma cidade, um país, um planeta. Sem ela, a natureza definha, as pessoas se matam, os corruptos reinam, as crianças e os velhos adoecem. Por isso penso tanto nela nestes tempos de pandemia: aonde vai a educação depois disso tudo? Trôpega, atacada, achincalhada pela trupe bolsonarista?
Eu, que trabalho há anos na área, poucas vezes vi uma necessidade tão grande de mudança e adaptação. No Brasil, sobretudo, pela total falta de planejamento estratégico em qualquer área na atualidade, o que se viu foi o completo atabalhoamento nas práticas educativas, com professores e alunos tentando dar conta de uma nova realidade, a do ensino à distância.
Mesmo eu, mais ou menos acostumada com fazer cursos nessa modalidade, resolvi fazer um que me desse mais ferramentas para encampar os novos desafios, na área de design instrucional. Se não fossem a pandemia e as incertezas dela decorrentes, talvez não fizesse. No final das contas, está sendo interessante, fazer um curso por necessidade profissional pura e simples e não apenas porque "me fala ao coração". Talvez eu sempre tenha compreendido a educação como algo que vem do coração, de uma vocação quase poética, e quase não é mais assim em nenhum lugar, é preciso ter uma boa dose de pragmatismo na produção de conhecimento.
Isso é o que estes tempos duros e a nova educação pedem: pragmatismo. Sem perder a ternura e a poesia, mas pragmaticamente. 

Patrulha amiga, o fim

Acho patrulha uma coisa chatíssima por si. Inaceitável, na verdade. Gente que fica tomando conta da vida dos outros, dando palpites não pedidos, pitacando sobre tudo, um horror. Nas redes sociais, acontece demais, é quase a regra - opinionismo agora se encontrou com bolsonarismo, naquela forma de opinião non sense, sem argumentos plausíveis, puro dogma infernal. 
Já tive amigo ou conhecido dando pitaco nas minhas postagens, especialmente por questões políticas. Vejam: minhas postagens não são abertas a todos, apenas aos amigos, às pessoas que permiti que vissem o que posto. Mesmo assim, tem bizarrices, opiniões loucas não pedidas. A depender da pessoa, só ignoro para não perder a amizade ou cancelo mesmo. E isso porque também não posto coisas muito polêmicas, que dariam abertura aos palpites alheios.
Entre ontem e hoje, vivenciei um novo tipo de patrulha: amigos dos amigos. Começou com ter postado uma foto do ragu de shitake que fiz outro dia - bastou para o amigo de uma amiga, que nem me lembro como foi parar nos meus contatos, dizer que não era ragu, pelo amor de deus, que desse outro nome. Respondi uma bobagem qualquer e ele nem retrucou, tamanho era seu desejo de só causar na postagem alheia. Mais tarde, esse mesmo amigo da amiga apareceu na postagem de uma outra amiga (descobri que temos mais de uma amiga em comum, oh God) em que ela comentava comigo e com uma outra conhecida nossa uma polêmica envolvendo Lília Schwarcz e Beyoncé - isso porque falávamos disso ontem, e estávamos de acordo, as três, sobre a inadequação da fala de Schwarcz. Bueno, esse amigo terceirizado comentou na minha timeline, discordando da minha amiga. E o que se sucedeu foi uma enxurrada de amigos e conhecidos dela (inclusive uma moça que também invadiu outro dia um comentário meu sobre Walter Benjamin, totalmente despretensioso, para me corrigir e, quando viu que estava errada, nem se desculpou) bradando raivosamente em defesa da historiadora branca que resolveu dizer como a diva pop negra deveria se comportar em SEU trabalho, com SUA arte. Uma enxurrada branca, poderíamos dizer, histérica e indignada com as pessoas negras inconformadas com o papel relegado a elas pela branquitude. Como no episódio do programa Roda Viva em que a apresentadora demonstrou clara inquietação com o rapper Emicida ter uma marca de roupas "caras", como se uma pessoa negra que saiu da quebrada devesse ser para sempre pobre e malvestida.
No episódio Lília x Beyoncé, minha amiga teve a maior paciência para responder um a um com argumentos bem plausíveis, e ainda teve de ler uns rosnados de volta. Minha amiga é branca no sentido lato (já que é mediterrânea de pai e mãe), é doutora, é crítica de arte, é filósofa, é professora. Não é a Maria Mané da Perna Torta. Pode ter um quê de academicismo, mas tem senso de justiça, tem semancol. Achei tristíssimo que os integrantes da patrulha também sejam pessoas com boa formação, professores e tal. Que gastem sua indignação com algo tão menos importante (a defesa de Lília, como se ela de fato precisassse) do que a desigualdade social brasileira e o fato de estarmos chegando a 100 mil mortos no país desgovernado por um genocida. 

sábado, 20 de junho de 2020

As possibilidades roubadas

Desde que me integrei às redes sociais e reencontrei virtualmente vários amigos de épocas distintas, tive consciência de que dificilmente voltaria a ver a maioria deles. Mas sempre existia uma possibilidade, mesmo que distante - ou seja, era possível, mesmo que improvável, que eu visse alguns desses amigos por alguma razão, ou fortuitamente, ou marcando mesmo um encontro. 
Agora, porém, me bate uma saudade de um futuro não vivido, quase uma melancolia, que é aquela tristeza do passado não experimentado - a pandemia nos roubou o futuro, as possibilidades todas. Mesmo quando ela passar, tudo será diferente, diminuto, amesquinhado. Difícil pensar em fazer planos, até mesmo sonhar. 
Claro que a memória humana tem limites que garantem nossa sobrevivência - talvez logo esqueçamos o horror disso tudo, assim que as coisas pareçam sob controle, e tentemos viver como antes. Mas não creio que será possível. Como viver normalmente com as desigualdades escancaradas e exacerbadas? Como voltar a pautar a vida no consumo?
Só sei que essa pandemia me encheu de saudade de gentes e lugares e coisas que talvez eu não veja mais. As possibilidades nos foram roubadas. Eu até pensava em operar algumas mudanças na vida, mas agora não vejo como. A incerteza é milhões de vezes pior que a espera porque não nos deixa enxergar os contornos do possível. O Gregório Duvivier publicou um lindo texto falando sobre a saudade de imaginar que o dia de amanhã seria melhor.
E seguimos assim, entre saudosos e desesperançados, como quem caminha na penumbra sem enxergar o fim do corredor. 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Iniquidade é onde falta pão

Somente ontem aprendi que iniquidade é o oposto de equidade. Eu sempre associei a palavra à injustiça e à maldade, mas não sabia realmente o significado imediato. Ontem soube, por meio da aula de "Alimentação, educação e saúde" da pós-graduação, pelos textos e vídeos que tratam dos determinantes sociais da saúde (DSS). 
Em lugar de falar em desigualdade - porque desigualdade é um termo mais amplo, que pode valer para tratar de diferenças entre gêneros, por exemplo -, usa-se o termo iniquidade para tratar da não igualdade social, da ausência de direitos para todos. De repente, fez-se um clarão, tive uma epifania quanto ao abismo social em que vivemos. Mesmo eu, que morei tantos anos na periferia, não tenho ideia do que é não ter água nem saneamento básico, falta completa de comida, de escola, de dinheiro, de emprego.
Pessoalmente, sempre tive um incômodo enorme quanto à falta de comida e à possibilidade de alguém estar desprotegido - sem casa, passando frio, à mercê da violência, o que for. Pensar nisso me horroriza. Ainda vou colocar meu talento culinário, além da palavra, à disposição dos menos favorecidos.
No Brasil, normalizamos a iniquidade. Milhões não tem pão, o mínimo do mínimo da dignidade, da sobrevivência. Convivemos com o horror diário, desde que não esteja à nossa porta.
A atual pandemia, se é que pode ter trazido algo positivo, fez escancarar as iniquidades no Brasil e no mundo. O Ensaio sobre a cegueira tornado real, a luz insuportável sobre a verdade. 

sábado, 21 de março de 2020

O que aprenderemos com o coronavírus?

Nunca pensei, de fato, que viveria para ver uma pandemia em meu país. Mas ela veio.
O coronavírus tem uma disseminação rápida como nunca se viu; por isso, apesar da baixa letalidade (a menos que você seja diabético, cardiopata, asmático etc. ou tenha mais de 60 anos), é tão importante o isolamento social, para achatar a curva de crescimento de casos e evitar ao máximo sobrecarregar a já precária rede de atendimento à saúde. Se na Itália a gripe já fez tanto estrago, imagine aqui, imagine se chegar às periferias (e vai chegar).
Para além do fato de termos um presidente louco, egocêntrico e despreparado, algo preocupante é a cultura individualista do povo brasileiro. Teremos um grande teste à frente, o de colocar em primeiro plano o bem-estar coletivo para que menos indivíduos sejam afetados. Não acabar com os estoques de comida, álcool gel e máscaras, por exemplo, pensando que outras pessoas precisam do mesmo. Evitar as aglomerações, ficar em casa (para quem pode). Ser minimamente solidário ao não alastrar a doença por aí.
E manter a sanidade, não se fixando nos pensamentos inevitáveis de catástrofe e desemprego.
Talvez aprendamos a viver com menos, a viver junto, a nos revoltar contra a injustiça.

domingo, 1 de março de 2020

Padrão, criação e a arte de equilibrar pratos

Lido com textos muito antes de isso ter se tornado meu trabalho. Quando passei a ganhar a vida com revisão, preparação e, por fim, edição de textos, algo que me encantava era a possibilidade de tornar um texto ainda melhor, mais claro do que ele era. Tinha um quê de criação, ou melhor, de cocriação, colaboração, parceria mesmo.
Quando cheguei à editoria, recebi elogios pelo meu talento nato em cortar o desnecessário. Isso eu faço até hoje, e acredito que bem. Livro-me do supérfluo sem grandes traumas, sem maior apego. Porém, uma coisa que percebi ser ainda mais importante foi o estabelecimento de padrões a serem seguidos por toda a equipe editorial. Lembro-me de longas reuniões sobre os padrões a adotar, especialmente após o Novo Acordo Ortográfico, que ainda gera dúvidas e invenções. 
Hoje percebo como essas duas ações, criar e padronizar, tão importantes para quem lida com escrita, são discrepantes. É exaustivo seguir padrões, que podem mudar a cada momento - até eu decido mudá-los de uma prova para outra porque já não vejo sentido no anterior. Beira a loucura essa caça à "perfeição", essa corda bamba de certo e errado.
Descobri que não curto muito esse lance de aplicar padrões. Até porque ando revendo tanto a ideia de padrão na vida em geral que acho quase sempre dispensável. Por exemplo, se uma mulher mais velha deve ou não usar cabelos curtos, se as grisalhas devem pintar os cabelos, se as gordas não podem usar roupas justas ou estampas grandes - considero tudo uma grande bobagem, coisa de grandes empresas para fazer as mulheres consumirem. E como cada vez mais valorizo o ato criador, a criatividade, em que certo e errado podem coexistir no que se cria, os padrões perdem mais e mais sentido.
No meu caso, o trabalho de edição tem se limitado a produzir com o menor número de erros possível. Se acontece, é um deus nos acuda, uma Bic vazando sobre um vestido branco. Claro que queremos assegurar aos alunos que vão realizar exames que eles dominem os acertos, mas acho que ando querendo voltar a me encontrar com outra faceta da educação, menos preocupada com isso e mais com o viver, que tem erros e acertos mas açambarca respostas diversas. Talvez seja só preguiça.
O fato é que nunca simpatizei muito com o número circense de equilibrar pratos, e é isso que faço muito hoje em dia, no trabalho remunerado e no não remunerado. Nem mesmo o mágico me atrai muito. Tenho um espírito mais clown e trapezista, de improvisar e de (ainda que com um olho no chão) me lançar no vazio - telas muito mais apropriadas ao criar.