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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Síndrome da infiltrada

Nos últimos anos, muito tem se falado sobre a síndrome da impostora, algo que acomete muitas mulheres, senão a maioria de nós, fazendo com que tenhamos a sensação eterna de sermos insuficientes, insatisfatórias em tudo. 
Sei que pode parecer a mesma coisa, mas eu usaria um outro termo, pelo menos mais adequado para mim - síndrome de infiltrada. É como me sinto muitas vezes, e estar infiltrada também remete à farsa, como a impostura. 
Essa foi minha sensação quando fui fazer curso de ilustração com Odilon e Fernando, em meio a vários desenhistas talentosos. O mesmo quando fiz escola técnica, e no fundo sempre soube que não seguiria aquele caminho depois, mas terminei o curso. O que dizer do flamenco, que insisto em fazer, mesmo não decorando a sequência de passos? Quando, no curso de panificação, diziam que eu tinha "cara de especialista", eu queria mesmo era ser um avestruz. Que bom seria, pelo menos, ser uma fingidora poética, não uma farsante infiltrada.
Tudo isso é um pouco de exagero, claro, parte da minha herança mediterrânea. A parte oriental é que fica inconformada, mas eu tenho que explicar que nada disso é proposital. Como uma mariposa, vou atrás da luz, iludida e suicida. Às vezes, uma vidraça me impede de me queimar. Às vezes, sinto que encontrei minha turma, e a alegria é imensa. Mas tem sempre um "mas" que me faz questionar o que estou fazendo ali. Talvez a questão seja justamente não me fixar num grupo, por mais gregária que seja minha alma. Nem formiga, nem cigarra. Visitar mil jardins. Borboletear não pode ser tão mal assim, afinal.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Sororidade e nossas lutas diárias

Quando fui trabalhar na TV Cultura, tive de cara um impasse: a pessoa que exercia a mesma função que eu, com quem deveria dividir algumas informações e partilhar o mesmo modus operandi, antipatizou comigo. Bastante, eu diria. Ou, pelo menos, assim pareceu. Depois percebi que duas senhoras, ex-professoras, que lá trabalhavam como consultoras e a tratavam como mascote, falavam mal de mim para ela - e não parecia que falavam: eu as ouvia falar, na minha cara. Ouvi-as comentando, por exemplo, que eu nem bem havia entrado para a equipe e já ia viajar - algo que tinha combinado com meu chefe assim que fui selecionada, porque tinha um compromisso em outro estado, com passagens compradas e tudo. As duas me tratavam com desdém, uma era irônica, a outra sequer respondia ao meu cumprimento. Nunca soube o porquê. 
A minha relação com minha colega, porém, mudou quando, no dia do seu aniversário, eu organizei uma festa surpresa, com vaquinha para o bolo e que tais. Ela foi de fato surpreendida, ficou roxa e emocionada, e daí para adiante nos tornamos muito amigas, e o somos até hoje, apesar da distância. As duas professoras não gostaram nada. Às vezes, havia tentativas de colocar a ex-mascote contra mim em questões comezinhas, mas não deu certo. 
Por que conto essa história aparentemente bobinha? Porque sempre me incomoda que as mulheres sejam desunidas por ninharias, por competições pífias, por juízos apriorísticos. Hoje, apesar do peso do termo sororidade, há tantas questões menores pululando no cotidiano que tudo é motivo para desentendimento. Não falo das questões políticas e visões de mundo, mas de questiúnculas mesmo. Outro dia, assisti a um debate acalorado nas redes sobre ser mãe de crianças e mãe de pets porque uma outra amiga disse que não tinha paciência com comparações entre o sofrimento de umas e outras. Acho que se fosse ao vivo as mães todas teriam saído no tapa. 
Enquanto brigamos entre nós, enquanto chamamos outras de "vagabundas", achamos ridículo que se vistam assim ou assado, que façam procedimentos estéticos ou que continuem gordas e "desleixadas", que queiram ou não ser mães, num julgamento sem fim das vidas alheias, milhares de mulheres diariamente são estupradas, espancadas, mortas, desrespeitadas em seu trabalho e em sua intimidade, por sua cor, por sua orientação sexual, muitas vezes só por serem mulheres. Enquanto brigamos, a sociedade classista, patriarcal, colonial se mantém soberana, sustentada por nosso trabalho e fazendo uso de nossos corpos em todos os sentidos. Enquanto brigamos, não somos sujeito, somente objeto; não formamos um corpo sólido que possa resistir e lutar, mas apenas milhões de partículas à deriva. O julgamento das duas professoras não agregou nada à nossa luta diária, não passou de fuxico desnecessário, pura futilidade. 
Por outro lado, e apesar de tudo, a forma de as mulheres verem a si mesmas tem mudado, que bom. E o modo retrógrado de olhar a si e a outras pode ficar para trás, ou muito reduzido. Assim, podemos nos solidarizar com a luta de alguém que nem conhecemos, perceber a importância de cada luta individual para as conquistas de todas. Quando soube, por exemplo, que uma querida da ECDE, de quem já comprei peças lindas e que é tão atuante na defesa dos direitos das mulheres, está enfrentando um câncer de mama, senti como se fosse uma irmã a enfrentar o problema - tenho acompanhado sua luta e sempre envio meus melhores pensamentos para ela, mesmo de tão longe e sem conhecê-la pessoalmente. Também tive a surpresa de saber que uma amiga amada teve de tirar a mama pelo mesmo motivo - foi um susto pra mim, mas ela me contou com aquela serenidade que a caracteriza tão bem, e ainda me estimulou a fazer logo meus exames. E eu fui, um ano e meio depois, refazer exames médicos, conferir nódulos aqui e ali. Eles continuam lá, mas sob controle. 
Cada vez mais me espanto com a falta de apoio de uma mulher a outra. Eu, que tive, sim, meus momentos de julgamento, mas tive o privilégio de me ligar do absurdo disso mais rapidamente que as duas senhoras de que falei. Não as vejo há muito tempo - quem sabe terão conseguido sair dessa também? Tomara que sim, porque em nossa época só cabem as questões fundamentais, se quisermos evitar a hecatombe completa. 

sábado, 9 de janeiro de 2021

Consumir/comer x apreciar/respeitar

Hoje li um texto ótimo da Djamila Ribeiro na Folha, sobre homens que consomem mulheres, mas não as apreciam. Embora não curta as tretas da Djamila com outras importantes figuras dos movimentos anti-racistas, achei seu texto de uma precisão ímpar. 
Coincidência ou não, tem circulado uma postagem que fala de homens que comem mulheres, mas não respeitam, não leem (e Djamila também menciona isso), não admiram mulheres, porque só amam outros homens. Parece um sinal dos tempos, essa consciência feminina da misoginia "controlada", pragmática. Talvez sempre tenha sido assim, os gregos e romanos que o digam. 
Se unirmos o texto de Djamila e o post pop, podemos concluir que quem come sem apreciar só engole. Não pode ser de outro jeito se a companhia que interessa mesmo é outra, não a que ali está. Isso fica tão evidente quando observamos grupos de homens e mulheres conversando - há os homens que se interessam por tudo que é dito por todas as pessoas presentes, há aqueles que só conversam com outros homens, que só ouvem o que os homens dizem, que só veem os homens. 
Estou tão acostumada a conversar de igual pra igual nos grupos dos quais faço parte que sempre me surpreendo com as posturas medievais de silenciamento, negação e invisibilização. Cheguei a testemunhar, não faz muito tempo, um amigo não tão próximo servindo água aos homens presentes, mas não a mim. Aliás, ele nem me olhou, como se eu não estivesse ali, sentada diante dele. "Brotherhood!", eu disse apenas, e ele ficou momentaneamente sem graça. Trata-se de uma falta de educação mais abrangente - cívica, cultural, sexual, humanista. Triste, sempre, como toda falta de educação. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Princesas

Ivan Martins, que adoro, publicou outro dia um texto em que dizia que não queria que sua filha fosse princesa, porque não há nada mais besta do que ser princesa, esse ser passivo que vive à espera do príncipe enquanto todos tomam decisões por ela. 
Só repostei o texto, e pronto. Já teve gente defendendo as princesas e atacando as feministas. Até quem dissesse que prefere ficar em casa cuidando do Macho Alfa e tendo direito a um cartão de crédito ilimitado. Já imaginei o Macho Alfa abandonando a princesa amadurecida por uma mais nova e levando junto o cartão, claro, talvez não sem antes dar uns sopapos na ex, lamuriante da perda de seus privilégios. 
Achei tudo muito louco, porque a distorção de ideias é gritante, a pós-verdade impera mesmo. A galera não entende que a luta feminista é por todas, pela igualdade de direitos, e não para sermos iguais aos homens. Que os direitos conquistados contemplam inclusive as que acham que não precisarão deles, mas certamente deles usufruem quando estudam, votam, circulam, escolhem seus parceiros. Que as mulheres podem inclusive, pela ótica feminista, serem princesas, se quiserem, mas não só isso. 
Até mesmo a maior fabricante de princesas do imaginário ocidental, a Disney, reviu seu conceito e passou a criar princesas bastante autônomas e fora da curva, como Moana, Valente, Tiana, Mulan. Bela, de A bela e a fera, já trazia a ideia de que a mulher podia ser inteligente além de bela para ter êxito na vida, mas suas sucessoras vieram botar fogo no parquinho. 
Talvez tenhamos que esperar passar essa onda de ultraconservadorismo para que as pessoas possam ver com clareza o que significa para uma mulher ser livre. Espero que essa liberdade chegue para todas. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Se viver, não case

Ou, pelo menos, não se case para ingressar em uma vida doméstica, de puro trabalho reprodutivo. A menos que seja exatamente isso que você queira, e sim, estou me dirigindo às mulheres.
Quando pensei em juntar meus trapinhos pela primeira vez, ouvi do companheiro que ele tinha medo de que a rotina destruísse o relacionamento. Normalmente, é ela a culpada, a rotina, sempre foi o que ouvi dizer. Não nós, não o que fazemos do relacionamento, mas ELA.
Um dos efeitos da pandemia tem sido o número de brigas e separações provocadas pelo exacerbamento do convívio e de uma intimidade sem nenhum sex appeal. Em princípio, a rotina cinzenta vem retirar o glamour da paixão dos primeiros tempos. Eu até me inclinei a acreditar em parte disso, mas sempre pensei: não pode ser só isso. Por que há casais que conseguem sobreviver ao casamento? Eles sabem driblar a rotina melhor que os outros? A pandemia tornou ainda mais cinzenta a rotina? Quem resiste aos pijamas 24 horas? A não ter tempo de sentir falta do outro?
O que algumas pesquisas têm mostrado, porém, é que as separações durante a pandemia estão quase sempre relacionadas ao desacordo quanto ao trabalho doméstico, com quem faz o quê, uma discussão que muitas vezes não tinha tanta importância, pois as camadas médias, ao menos no Brasil, se valem da terceirização do trabalho reprodutivo e também, com o trabalho fora de casa, mal tinham tempo de pensar no peso que esse trabalho doméstico de fato tem. 
Não faz muito tempo que se popularizou o conceito de sobrecarga mental feminina - junto com a jornada dupla de tantas mulheres, ainda há a ocupação mental com os afazeres domésticos, com os cuidados com a família, o que só aumenta o desgaste. De repente temos nos dado conta de que os homens não se ocupam disso porque sempre há uma mulher que o faça por eles. 
Também temos nos dado conta de que, no final das contas, a culpa pela falência dos casamentos, de ontem e de hoje, não é da rotina. A pandemia iluminadora mostrou que o problema é o papel a que a mulher sempre tem sido relegada, trabalhe ela fora ou não. A rotina doméstica sempre sobra para ela, com exceção de alguns parceiros iluminados, machistas em desconstrução, como dizemos hoje. Ou seja, a pandemia veio como uma cereja de chumbo sobre o bolo dos relacionamentos a dois, um shot concentrado de desigualdades na vida cotidiana de homens e mulheres. E muitas de repente tomaram consciência de qual era o problema - não, não era a rotina pura e simples, mas uma rotina desigual e massacrante para elas, para nós. Eu mesma, quando tive essa epifania, me senti tão liberta por saber que não era a união que me incomodava, mas a atribuição de papéis que não me cabem. 
Porque a ideia de se juntar a outra pessoa para compartilhar a vida, agregar, somar forças, multiplicar o que é bom e dividir o que não é aquela cocada toda, é ótima. Por isso tantas pessoas se unem, por isso é estranho que a simples rotina seja capaz de separá-las. Claro que há muitos casos de diferenças inconciliáveis, visões de mundo díspares - para isso não há muito jeito, e também não é culpa da rotina. Mas a exploração de uma pessoa por outra, ainda que inconsciente, isso sim, é capaz de acabar com qualquer amor, qualquer tesão, qualquer casamento.  
Por isso, reafirmo: se casar, case-se para o compartilhamento de afeto, ideias e experiências, mas não para se escravizar a um costume caduco. Case-se pelo que acredita, e não pelo que foi determinado por outrem. Se sequer suspeitar da armadilha, viva, não case. 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O corpo do outro

Tanta loucura nesse mundo de meodeos que é difícil organizar os pensamentos! Além da corrupção desenfreada, da pandemia sem fim, da direita ensandecida, da inflação descarrilada, tem estado em evidência ainda maior um sem fim de abusos do corpo alheio. 
Tamanho o absurdo da distopia que vivemos que, outro dia, ganhou destaque uma briga no Leblon, quando uma mulher, despeitadíssima, atirou garrafas de água contra outra que passava de biquíni num conversível; a de biquíni desceu do carro e desceu a mão na agressora e então foi covardemente atacada, desta vez, pelo namorado da outra, que lhe arrancou a parte de cima do biquíni. A agressora despeitada gravou um vídeo - está na moda agora, vídeos explicativos de agressores - justificando sua ação/agressão como defesa dos bons costumes, porque a outra estaria atentando contra o pudor ao exibir seu corpo malhado no calorão, mesmo noturno, do bairro praieiro carioca. 
Fiquei abismada com a pretensão que tem havido dos recalcados em relação ao corpo alheio. Quem deu o direito a essas pessoas de tocarem de alguma forma o corpo de uma mulher desconhecida? Ou de qualquer outra pessoa? Ou de sequer opinar sobre esse corpo?
A pergunta é retórica, claro, em se tratando de um país machista, sexista e violento, em que as ações contra as mulheres parecem ter sido completamente liberadas neste contexto de horror em que temos vivido, levando ao alarmante aumento do número de feminicídios desde a ascensão bolsonarista e ainda mais durante a pandemia, a denúncias de estupro em toda parte, o que reacende a discussão da legalidade do aborto - e novamente vemos debates absurdos sobre a autonomia que uma menina ou mulher tem sobre o próprio corpo, como no caso da garotinha capixaba que quase não conseguiu abortar após ter engravidado do parente que a estuprava há anos. 
Entre as últimas notícias bizarras sobre o assunto, temos o caso Robinho, jogador de futebol, que participou de um estupro coletivo na Itália e foi condenado pela justiça de lá, mas perigava ser contratado pelo Santos há poucos dias, até que os patrocinadores ameaçaram se retirar caso o contrato não fosse revogado. Além da defesa surreal de Robinho, que alegava não ter feito sexo (só colocado o pau na boca da moça), nem ter feito nada errado além de trair a mulher (só ter se aproveitado de uma moça alcoolizada e fora de si, como os envolvidos reconheceram em conversa grampeada pela justiça italiana), ainda há - embora menos, ainda bem - gente que argumente que há muita maria chuteira por aí querendo se dar bem. Bom, mesmo que fosse o caso, mesmo que a moça fosse prostituta, ninguém tem o direito de sair tocando o corpo dela sem que ela autorize ou esteja consciente. No final das contas, é sempre a mesma história, de como todos têm direito a fazer o que quiserem do corpo feminino, só mudando as circunstâncias. E como, por terem esse direito, os homens, principalmente, saem impunes de tantos abusos. Tudo em nome da normalidade, do costume. No caso de Robinho, praticamente em nome de Deus, que ele evocou diversas vezes nas gravações e em entrevistas, enquanto falava contra o movimento feminista e as mulheres "que nem mulheres são". 
Mas os homens também não querem ser objetificados, apesar da cultura machista do homem que está pronto para todas. Já ouvi de um companheiro que ele não estava sempre a fim, que era preciso criar um clima, e me senti um homem rejeitado naquele momento. Apesar da minha cara de tacho, foi fundamental para ter maior clareza do que é o corpo do outro, que ele não está sempre à disposição do nosso desejo - mesmo que seja um homem! Isso significa que boa parte do que vivenciamos em termos de abuso é resultado de uma cultura, ou seja, algo que pode e deve ser transformado. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Pelo direito de comprar as próprias calcinhas

Outro dia, conheci uma moça que se gabava de ter seu perfume e calcinhas escolhidos/comprados pelo marido. OK, acho sexy um presente-surpresa-convite desse tipo, mas como prática cotidiana me causa certa estranheza. Até porque ela disse que eram o perfume e as peças de que ELE gostava. Mas eu não tenho nada a ver com isso, né?
Daí aconteceu de eu cruzar com a moça e o tal marido. À primeira vista, um sujeito até simpático. Encantou-se por meu marido e logo pareciam velhos amigos. Dali a pouco começou a caçoar da esposa porque ela não sabia "nem fazer um miojo". Mas fazia bem pudim, embora o de outra pessoa que eles conheciam ainda fosse melhor que o dela. Percebi que ele não era bom em ouvir os outros, estava sempre tentando sobrepor sua fala à dos demais. Ela se mantinha submissa, interrompida por ele todo o tempo. Quando qualquer outra mulher falava, também, ele não dava nenhuma atenção. Embora só quisesse interagir com os homens presentes, falava aos brados de episódios de seriados e filmes da adolescência, e era essa sua conversa, um ruidoso solilóquio. 
Então ele resolveu contar, aos risos, como fez questão de ir a uma cerimônia de casamento de parentes da esposa usando jeans rasgados, só para sacanear a galera, que havia pedido trajes sóbrios. Claro que a única pessoa que ele conseguiu constranger foi a esposa. 
Fiquei observando aquela risada estéril. Pensei em como era possível que uma mulher deixasse que um homem como aquele escolhesse as calcinhas que ela deveria usar. Como era possível qualquer tesão? Se por menos que isso perdemos o élan, como ficar com alguém que, por uma pequena amostragem, já se mostra machista, misógino e infantil? 
Cada casal sabe de sua dinâmica, nosotros só fazemos mesmo pitacar. Mas me deu uma vontade grande de dizer a ela: sai dessa, ainda dá tempo, você é muito mais do que ele faz você acreditar. Me deu ganas de aconselhá-la a uma rodada de compras para si própria, para se fazer bonita para si, em primeiro lugar. Sentir-se bem com o que se é para, somente então, encontrar, se for o caso, alguém que dê valor ao que ela é. Não é fácil, mas menos que isso é inaceitável. 

quarta-feira, 28 de março de 2018

A dor e a delícia

Não é fácil ser quem se é, bato nessa tecla várias vezes. Os padrões, as pessoas, o sistema, tudo quer nos engessar para maior controle e "harmonia" num mundo de desigualdades de todo tipo.
Por exemplo: uma moça está esperando um filho daquele que é seu companheiro há duas décadas. O bebê deve nascer a qualquer momento, ela está no final da gestação. Ela, que protelou muito uma gravidez, resolveu gestar uma criança.
Desde o início, houve a cobrança de uma gestação coletiva, com toda a família do marido. Deveria haver a presença constante dos avós paternos, a futura mãe deveria pedir e ouvir conselhos, aceitar a participação de toda a família em sua gestação. Mas ela, já conhecida por seu pouco apreço à sociabilidade, seguiu fazendo e cumprindo suas regras, estudando sobre o assunto, tomando somente para si o desenvolvimento do bebê. Por sorte, é uma mulher independente, que sempre trabalhou e batalhou muito e já colheu alguns frutos desse modo de ser.
Os familiares do futuro pai ficaram inconformados. De lamentosos passaram a irônicos e, num dado momento, agressivos com a futura mãe, que se fechou ainda mais em copas. Somente ela e o bebê, sem precisar de ninguém. O pai se alia aos familiares, impõe à mãe que ela precisa mudar para que continuem juntos. A mãe reage a isso também, dizendo que ele precisará reconquistá-la. Um impasse, no sentido do francês original, de "rua sem saída".
Na verdade, essa moça continua sendo quem sempre foi. Alguém com temperamento forte, pouco sociável, pouco ligada a padrões familiares. A gravidez deixou-a mais sensível e ensimesmada. Sentindo-se invadida, protegeu-se ainda mais. Porque espera um bebê, os circunstantes acreditaram que mudaria para satisfazê-los. Pior: todas as expectativas foram depositadas no pobre bebê, novo messias transformador da realidade.
Mas a vida real não é assim. O bebê até vai mudar a realidade, mas não do jeito que se espera. As pessoas ao redor mudarão em algum sentido, mas não no que se espera. Talvez o casal permaneça unido, talvez seja melhor não, se o que se espera dele é que satisfaça pessoas fora da relação. Talvez o bebê mostre, na verdade, outros caminhos possíveis para a felicidade, como o do respeito à individualidade, o do direito ao silêncio e à calma. Que família não são todos juntos o tempo todo, mesmo se detestando, mas pessoas que, não tendo "direito a troca", deveriam aprender a se respeitar e assim aprender a se amar (até porque o amor de geração espontânea é raro e não sobrevive sozinho).
Ser quem se é pode ser libertador, mas também é doloroso algumas vezes. O preço é alto, mas vale cada centavo.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Eles merecem (?)

Dia desses, fomos almoçar com um casal de amigos e, claro, falamos muito de comida. Num dado instante, o rapaz disse que faria um comentário "aparentemente" sexista. Na verdade, foi escancaradamente sexista, ou pior, machista mesmo. Ele, com apoio da esposa, afirmou que os homens cozinham melhor que as mulheres - que um amigo deles, quando se decidiu a cozinhar, deixou a mulher "no chinelo", porque "quando um homem resolve fazer uma coisa, já viu".
Bom. Na hora, nem respondi. Levei aquela reflexão para casa, coisa que, acredito, ele, o proponente da questão, deveria fazer também. E às vésperas do tal Dia da Mulher fui ajudada na minha reflexão por muita gente reclamando dessa meritocracia masculina, completamente facilitada pelas jornadas múltiplas de trabalho feminino.
Um homem pode se dedicar a ser chef, profissional ou não, curtir esse glamour porque há certamente uma MULHER em algum lugar cuidando das questões comezinhas da vida DELE. A empregada, a mãe, a mulher, a namorada, a secretária, a amiga, a ficante, a irmã, a tia, a avó, até a sogra. Já a mulher tem normalmente que trabalhar fora, trabalhar dentro e ainda cuidar da rotina de outrem, inclusive filho, marido, namorado etc. etc. Fica fácil brilhar, não?
Talvez cozinhar não tenha nada a ver com gênero. Mas tem a ver, como quase tudo, com equanimidade de condições. Os números só confirmam a desigualdade de gênero quanto a quem merece ou não ser bom/boa chef ou qualquer outro/a profissional: enquanto as mulheres gastam 18 horas de seu dia com demandas diversas (as jornadas múltiplas), os homens gastam 10. Não preciso nem comentar a respeito da desigualdade salarial entre homens e mulheres, terra tão pisada.
No caso da atividade gastronômica, podemos ainda aventar a hipótese de os homens se adaptarem melhor a um ambiente culturalmente agressivo, inclusive porque dominado por eles. Mas eu prefiro a hipótese das luzes da ribalta: por que me esmerar no interior doméstico se posso brilhar para o grande público? Michael Pollan, em Cozinhar: uma história natural da transformação, define o churrasco como uma ação masculina, apolínea (dirigida), e o cozido como algo feminino, dionisíaco (caótico). Citando Lévi-Strauss, ele fala das diferenças entre cozinhar "para fora" (caso do churrasco, uma comida que remete à "morte", ao sacrifício primevo) e "para dentro" (caso do cozido, comida geradora de "vida", agregadora de ingredientes e de pessoas em torno dela, um verdadeiro cabaré de asas). Ou seja, desde sempre cozinhar foi sinônimo para o público masculino de ser pop e de ter o controle .
Assim é que ainda hoje, porque tanta coisa não mudou, as luzes vão para eles. Merecem? No dia em que iguais condições de vida forem dadas a todas as pessoas, e ainda assim eles tiverem se destacado, por suas qualidades pessoais, e não por serem homens, poderemos dizer que sim.