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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Pelo direito de comprar as próprias calcinhas

Outro dia, conheci uma moça que se gabava de ter seu perfume e calcinhas escolhidos/comprados pelo marido. OK, acho sexy um presente-surpresa-convite desse tipo, mas como prática cotidiana me causa certa estranheza. Até porque ela disse que eram o perfume e as peças de que ELE gostava. Mas eu não tenho nada a ver com isso, né?
Daí aconteceu de eu cruzar com a moça e o tal marido. À primeira vista, um sujeito até simpático. Encantou-se por meu marido e logo pareciam velhos amigos. Dali a pouco começou a caçoar da esposa porque ela não sabia "nem fazer um miojo". Mas fazia bem pudim, embora o de outra pessoa que eles conheciam ainda fosse melhor que o dela. Percebi que ele não era bom em ouvir os outros, estava sempre tentando sobrepor sua fala à dos demais. Ela se mantinha submissa, interrompida por ele todo o tempo. Quando qualquer outra mulher falava, também, ele não dava nenhuma atenção. Embora só quisesse interagir com os homens presentes, falava aos brados de episódios de seriados e filmes da adolescência, e era essa sua conversa, um ruidoso solilóquio. 
Então ele resolveu contar, aos risos, como fez questão de ir a uma cerimônia de casamento de parentes da esposa usando jeans rasgados, só para sacanear a galera, que havia pedido trajes sóbrios. Claro que a única pessoa que ele conseguiu constranger foi a esposa. 
Fiquei observando aquela risada estéril. Pensei em como era possível que uma mulher deixasse que um homem como aquele escolhesse as calcinhas que ela deveria usar. Como era possível qualquer tesão? Se por menos que isso perdemos o élan, como ficar com alguém que, por uma pequena amostragem, já se mostra machista, misógino e infantil? 
Cada casal sabe de sua dinâmica, nosotros só fazemos mesmo pitacar. Mas me deu uma vontade grande de dizer a ela: sai dessa, ainda dá tempo, você é muito mais do que ele faz você acreditar. Me deu ganas de aconselhá-la a uma rodada de compras para si própria, para se fazer bonita para si, em primeiro lugar. Sentir-se bem com o que se é para, somente então, encontrar, se for o caso, alguém que dê valor ao que ela é. Não é fácil, mas menos que isso é inaceitável. 

quarta-feira, 28 de março de 2018

A dor e a delícia

Não é fácil ser quem se é, bato nessa tecla várias vezes. Os padrões, as pessoas, o sistema, tudo quer nos engessar para maior controle e "harmonia" num mundo de desigualdades de todo tipo.
Por exemplo: uma moça está esperando um filho daquele que é seu companheiro há duas décadas. O bebê deve nascer a qualquer momento, ela está no final da gestação. Ela, que protelou muito uma gravidez, resolveu gestar uma criança.
Desde o início, houve a cobrança de uma gestação coletiva, com toda a família do marido. Deveria haver a presença constante dos avós paternos, a futura mãe deveria pedir e ouvir conselhos, aceitar a participação de toda a família em sua gestação. Mas ela, já conhecida por seu pouco apreço à sociabilidade, seguiu fazendo e cumprindo suas regras, estudando sobre o assunto, tomando somente para si o desenvolvimento do bebê. Por sorte, é uma mulher independente, que sempre trabalhou e batalhou muito e já colheu alguns frutos desse modo de ser.
Os familiares do futuro pai ficaram inconformados. De lamentosos passaram a irônicos e, num dado momento, agressivos com a futura mãe, que se fechou ainda mais em copas. Somente ela e o bebê, sem precisar de ninguém. O pai se alia aos familiares, impõe à mãe que ela precisa mudar para que continuem juntos. A mãe reage a isso também, dizendo que ele precisará reconquistá-la. Um impasse, no sentido do francês original, de "rua sem saída".
Na verdade, essa moça continua sendo quem sempre foi. Alguém com temperamento forte, pouco sociável, pouco ligada a padrões familiares. A gravidez deixou-a mais sensível e ensimesmada. Sentindo-se invadida, protegeu-se ainda mais. Porque espera um bebê, os circunstantes acreditaram que mudaria para satisfazê-los. Pior: todas as expectativas foram depositadas no pobre bebê, novo messias transformador da realidade.
Mas a vida real não é assim. O bebê até vai mudar a realidade, mas não do jeito que se espera. As pessoas ao redor mudarão em algum sentido, mas não no que se espera. Talvez o casal permaneça unido, talvez seja melhor não, se o que se espera dele é que satisfaça pessoas fora da relação. Talvez o bebê mostre, na verdade, outros caminhos possíveis para a felicidade, como o do respeito à individualidade, o do direito ao silêncio e à calma. Que família não são todos juntos o tempo todo, mesmo se detestando, mas pessoas que, não tendo "direito a troca", deveriam aprender a se respeitar e assim aprender a se amar (até porque o amor de geração espontânea é raro e não sobrevive sozinho).
Ser quem se é pode ser libertador, mas também é doloroso algumas vezes. O preço é alto, mas vale cada centavo.