domingo, 27 de dezembro de 2009

O funcionário-padrão


Bico calado,
Muito cuidado
O homem vem aí

Chico Buarque/Francis Hime

Essa eu preciso contar, com a licença da minha xará Mayumi. É curtinha. Falávamos outro dia das delicadas relações de trabalho, sobre a expectativa que as empresas têm de seus funcionários, a dificuldade que normalmente existe em se perguntar aos mesmos funcionários o que a empresa pode fazer para mantê-los etc. etc., quando nos colocamos a seguinte questão: qual será o funcionário ideal para uma empresa (pensando, claro, numa empresa tradicional e burocrática, e burocrática no sentido de inflexível, ineficiente e indiferente às necessidades das pessoas)?
Então ela me contou uma história ótima, que cheiraria a realismo fantástico não fosse tão real. Numa empresa em que trabalhou (cujo nome não convém revelar), Mayumi tinha de ouvir que, em vez de protestar contra o que considerava injusto, precisava “tomar mais café” com os outros funcionários – ou seja, ela estava sendo chamada de anti-social. Um pouco mais de grosseria e diriam que ela era “mal-casada” (isso faz lembrar alguém?). Nada mais natural num lugar em que mensalmente era eleito um “funcionário-modelo” (e é inevitável lembrar daqueles quadrinhos com fotos na parede do McDonald's ou, pior ainda, daquele prêmio concedido na época da ditadura ao “operário-padrão” por uma emissora de TV), exemplo para todos os outros.
O mais fantástico, contou minha xará, foi, numa ocasião, o prêmio ter sido dado a uma moça que chegava e saía no horário certo, nem mais nem menos, não fazia horas extras, não se envolvia muito com o trabalho e jogava paciência o dia inteiro. E todo mundo sabia disso. Mas por que alguém iria se indignar? Afinal, as empresas, em sua maioria, fazem um favor aos funcionários, com tantos benefícios, possibilidade de aprender algo (mas dificilmente de mudar de cargo) – especialmente levando em conta o número de desempregados à porta.
Empresas são empresas, todos já ouvimos isso. Na verdade, quem faz a diferença numa empresa são seus líderes. E se eles encampam a idéia de que é fácil substituir alguém, de que mais importante que trabalhar é fingir que se trabalha, de que é possível tirar o máximo de um funcionário (que não joga paciência, apenas trabalha) levando-o à exaustão psicológica, então não há nada que possamos dizer.
Eu? Eu não disse nada.

09 de julho de 2008
Dia da Revolução Constitucionalista de São Paulo

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