sábado, 21 de março de 2020

O que aprenderemos com o coronavírus?

Nunca pensei, de fato, que viveria para ver uma pandemia em meu país. Mas ela veio.
O coronavírus tem uma disseminação rápida como nunca se viu; por isso, apesar da baixa letalidade (a menos que você seja diabético, cardiopata, asmático etc. ou tenha mais de 60 anos), é tão importante o isolamento social, para achatar a curva de crescimento de casos e evitar ao máximo sobrecarregar a já precária rede de atendimento à saúde. Se na Itália a gripe já fez tanto estrago, imagine aqui, imagine se chegar às periferias (e vai chegar).
Para além do fato de termos um presidente louco, egocêntrico e despreparado, algo preocupante é a cultura individualista do povo brasileiro. Teremos um grande teste à frente, o de colocar em primeiro plano o bem-estar coletivo para que menos indivíduos sejam afetados. Não acabar com os estoques de comida, álcool gel e máscaras, por exemplo, pensando que outras pessoas precisam do mesmo. Evitar as aglomerações, ficar em casa (para quem pode). Ser minimamente solidário ao não alastrar a doença por aí.
E manter a sanidade, não se fixando nos pensamentos inevitáveis de catástrofe e desemprego.
Talvez aprendamos a viver com menos, a viver junto, a nos revoltar contra a injustiça.

domingo, 1 de março de 2020

Padrão, criação e a arte de equilibrar pratos

Lido com textos muito antes de isso ter se tornado meu trabalho. Quando passei a ganhar a vida com revisão, preparação e, por fim, edição de textos, algo que me encantava era a possibilidade de tornar um texto ainda melhor, mais claro do que ele era. Tinha um quê de criação, ou melhor, de cocriação, colaboração, parceria mesmo.
Quando cheguei à editoria, recebi elogios pelo meu talento nato em cortar o desnecessário. Isso eu faço até hoje, e acredito que bem. Livro-me do supérfluo sem grandes traumas, sem maior apego. Porém, uma coisa que percebi ser ainda mais importante foi o estabelecimento de padrões a serem seguidos por toda a equipe editorial. Lembro-me de longas reuniões sobre os padrões a adotar, especialmente após o Novo Acordo Ortográfico, que ainda gera dúvidas e invenções. 
Hoje percebo como essas duas ações, criar e padronizar, tão importantes para quem lida com escrita, são discrepantes. É exaustivo seguir padrões, que podem mudar a cada momento - até eu decido mudá-los de uma prova para outra porque já não vejo sentido no anterior. Beira a loucura essa caça à "perfeição", essa corda bamba de certo e errado.
Descobri que não curto muito esse lance de aplicar padrões. Até porque ando revendo tanto a ideia de padrão na vida em geral que acho quase sempre dispensável. Por exemplo, se uma mulher mais velha deve ou não usar cabelos curtos, se as grisalhas devem pintar os cabelos, se as gordas não podem usar roupas justas ou estampas grandes - considero tudo uma grande bobagem, coisa de grandes empresas para fazer as mulheres consumirem. E como cada vez mais valorizo o ato criador, a criatividade, em que certo e errado podem coexistir no que se cria, os padrões perdem mais e mais sentido.
No meu caso, o trabalho de edição tem se limitado a produzir com o menor número de erros possível. Se acontece, é um deus nos acuda, uma Bic vazando sobre um vestido branco. Claro que queremos assegurar aos alunos que vão realizar exames que eles dominem os acertos, mas acho que ando querendo voltar a me encontrar com outra faceta da educação, menos preocupada com isso e mais com o viver, que tem erros e acertos mas açambarca respostas diversas. Talvez seja só preguiça.
O fato é que nunca simpatizei muito com o número circense de equilibrar pratos, e é isso que faço muito hoje em dia, no trabalho remunerado e no não remunerado. Nem mesmo o mágico me atrai muito. Tenho um espírito mais clown e trapezista, de improvisar e de (ainda que com um olho no chão) me lançar no vazio - telas muito mais apropriadas ao criar. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Quando o racismo nos atinge

Nem eu mesma aguento mais falar sobre o fascismo alheio de cada dia. É um bombardeio de notícias ruins a cada momento, e parece que é só delas que falamos, ainda que uma ou outra coisa bacana, uma ação solidária ou justa aconteça aqui ou ali.
Embora sempre fique indignada com os casos de intolerância, que têm aumentado exponencialmente no contexto fascista em que vivemos, nunca pensei que era possível ficar ainda mais consternada quando acontecesse tão perto de mim. 
E aconteceu, com minha irmã caçula, que mora no Rio. Uma senhora, no metrô, começou a ofendê-la assim que a viu entrar no vagão, chamando-a de "chinesa porca" e outras baixarias. Fez comparações com os negros, que, "graças à escravidão", aprenderam a "ser limpos", ao contrário dos orientais. 
O que a tola e preconceituosa senhora não sabia é que minha irmã é extremamente inteligente, retadíssima, consciente de seus direitos, futura competente advogada e, honrando o fato de ser minha irmã, não ia deixar barato. Além de ter filmado boa parte das ofensas, ela descobriu nome e endereço da mulher e logo deu tratos à bola, ou seja, indiciou a criminosa. 
Eu me lembro de meu irmão mais velho, quando éramos adolescentes, sofrer com piadas pelo fato de ser descendente de orientais - havia só uma meia dúzia de mestiços na escola pública onde fizemos o ensino fundamental; depois eu e ele iríamos para escolas técnicas repletas de "gente como nós". Depois, durante muitos anos, esses episódios de racismo pareciam erradicados da minha vida familiar, mas não. Eles acabam de voltar, com muito mais fúria. 
É este o país em que temos vivido, com fascistas de todo tipo saltando do armário, atacando qualquer um que seja diferente deles, que tenha coragem de ser. Está liberado ser racista, homofóbico, preconceituoso, propagar o ódio. E é difícil pensar em pagar na mesma moeda, com a mesma raiva - porque não faz sentido para quem só quer viver em paz.
A atual epidemia de coronavírus que tomou uma cidade chinesa e tem se irradiado por outros países contribui para que a intolerância também se espalhe, como lama tóxica. Mais um pretexto para ações como a que minha irmã sofreu. 
Aliás, ela ter sido chamada genérica e preconceituosamente de chinesa e termos assistido há poucos dias o filme Assunto de família, sobre japoneses que vivem à margem do sistema aplicando pequenos golpes, são coisas que me fizeram pensar em como o outro é sempre um enigma, quando não uma ameaça. Mesmo para mim, descendente de orientais, é difícil pensar que existam japoneses "malandros", que vivam na pobreza, como as personagens do filme. Imagine, então, para os não descendentes e não dispostos a conhecer esse outro, que estereótipos mais podem surgir. 
Na verdade, prefiro não imaginar, para não perder a esperança e assim continuar a resistir. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Pelo direito de comprar as próprias calcinhas

Outro dia, conheci uma moça que se gabava de ter seu perfume e calcinhas escolhidos/comprados pelo marido. OK, acho sexy um presente-surpresa-convite desse tipo, mas como prática cotidiana me causa certa estranheza. Até porque ela disse que eram o perfume e as peças de que ELE gostava. Mas eu não tenho nada a ver com isso, né?
Daí aconteceu de eu cruzar com a moça e o tal marido. À primeira vista, um sujeito até simpático. Encantou-se por meu marido e logo pareciam velhos amigos. Dali a pouco começou a caçoar da esposa porque ela não sabia "nem fazer um miojo". Mas fazia bem pudim, embora o de outra pessoa que eles conheciam ainda fosse melhor que o dela. Percebi que ele não era bom em ouvir os outros, estava sempre tentando sobrepor sua fala à dos demais. Ela se mantinha submissa, interrompida por ele todo o tempo. Quando qualquer outra mulher falava, também, ele não dava nenhuma atenção. Embora só quisesse interagir com os homens presentes, falava aos brados de episódios de seriados e filmes da adolescência, e era essa sua conversa, um ruidoso solilóquio. 
Então ele resolveu contar, aos risos, como fez questão de ir a uma cerimônia de casamento de parentes da esposa usando jeans rasgados, só para sacanear a galera, que havia pedido trajes sóbrios. Claro que a única pessoa que ele conseguiu constranger foi a esposa. 
Fiquei observando aquela risada estéril. Pensei em como era possível que uma mulher deixasse que um homem como aquele escolhesse as calcinhas que ela deveria usar. Como era possível qualquer tesão? Se por menos que isso perdemos o élan, como ficar com alguém que, por uma pequena amostragem, já se mostra machista, misógino e infantil? 
Cada casal sabe de sua dinâmica, nosotros só fazemos mesmo pitacar. Mas me deu uma vontade grande de dizer a ela: sai dessa, ainda dá tempo, você é muito mais do que ele faz você acreditar. Me deu ganas de aconselhá-la a uma rodada de compras para si própria, para se fazer bonita para si, em primeiro lugar. Sentir-se bem com o que se é para, somente então, encontrar, se for o caso, alguém que dê valor ao que ela é. Não é fácil, mas menos que isso é inaceitável. 

domingo, 3 de novembro de 2019

Pense o que quiser, discuta se puder, mostre quem você é

A palavra de ordem nacional é tosquice. Está em alta ser tacanho, tosco, brutamontes, desrespeitoso, intolerante, ignorante, psycho. Dizer e espalhar inverdades é o comum nos dias presentes.
Outro dia, uma senhorinha, por quem nutria até então certa simpatia, me acusou, com evidente ódio no coração e depois de afirmar que quem botou fogo na Amazônia e jogou óleo no Nordeste foram os esquerdistas, de "sua... petista!!!!". Ora, ela associa alguém que se preocupa com questões sociais, com os mais carentes etc. a ser petista. Não concordo com ela quanto à mera associação, embora tenha costumeiramente votado em candidatos do PT por ter sido por muito tempo a única opção viável à esquerda. Mas, no atual contexto, parece que isso virou até elogio, a depender de que lado você está. 
Sim, voto mais à esquerda sempre, defendo as causas sociais, uma sociedade com direitos iguais para todos os diferentes, para que a maioria, no mínimo, tenha acesso a comida, saúde, educação e a um modo digno de existência. Não penso só no meu próprio umbigo e cada vez mais me sinto ligada à luta, além da das mulheres, dos que também não tinham voz até outro dia, como negros e LGBT. Por isso me causou horror que um antigo vizinho, das quebradas e supostamente inteligente, tenha comentado um post meu dizendo que não via a hora da privatização da USP e de todas as instituições públicas e do consequente oba-oba com o dinheiro público. Como nem soube o que dizer diante do absurdo, dispara(ta)do sem qualquer tipo de argumento, nem respondi. 
Há uns meses, um amigo publicou no Facebook uma notícia sobre uma pesquisadora que teve de desistir de seu doutorado por conta dos cortes nos gastos das universidades públicas e nas bolsas de pesquisa pelo governo Bolsonaro. Uma seguidora (amiga? será possível?) respondeu à postagem dizendo que preferia que as universidades públicas todas fechassem a ver crianças morrendo na Venezuela. Daí pra frente, a conversa virou uma maluquice, com muitas exclamações e uso de caixa alta, e a eterna ladainha: e o PT? Tudo, menos o assunto de que tratava meu amigo - que teve uma paciência samaritana em lidar com a figura.
Isso acontece com cada vez mais frequência: defensores do absurdo, do que Eliane Brum chamou de autoverdade de um governo totalitário que ora nos governa. Parece que houve um emburrecimento, um embotamento das ideias em larguíssima escala, e agora é bonito assumir essa burrice. Quando se tenta argumentar - como eu, pedindo à senhorinha que não perdesse seu senso crítico, ou meu amigo explicando a realidade para a seguidora maluca -, essas pessoas embotadas ficam alucinadas, quase histéricas, grafam em caixa alta, falam aos brados. É realmente assustador o que tem acontecido, com tanta gente se limitando a repetir maluquices. Mas, no fundo, é altamente revelador de que nosso país é repleto de gente preconceituosa, machista e obviamente não solidária, que não suporta que os mais pobres saiam da prisão da desigualdade social que mantém as elites em sua zona de conforto. Trata-se de um pensamento retrógrado tão enraizado em nossa cultura nacional que até mesmo meu ex-vizinho, que pelo visto continua a viver nas franjas da sociedade, defende a ação daqueles que o esmagam. 
Apesar da importância inegável de se vivenciar um momento histórico tão efervescente (pelo menos em outros países da América Latina, enquanto aqui continuamos sedados em berço esplêndido), a desinteligência é sempre algo triste de se ver. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A morte do homem cordial

Foi Sergio Buarque de Holanda que, em 1936, fixou o conceito histórico do homem cordial como parte da formação brasileira e contribuição nacional à civilização. À primeira vista, pode parecer uma ótima qualidade, o ser cordial, mas Sergio Buarque logo esclarece que, diferente da típica polidez oriental, a cordialidade brasileira é mímica, imitação superficial que serve de ardil psicológico, para ganhar vantagens. Somada à cultura política brasileira, a cordialidade viria a se traduzir em nepotismo, compadrio, afetividade de fachada, falta de solidariedade e de empatia, valorização de interesses pessoais em detrimento dos coletivos. 
Assistimos na atualidade à derrocada do mito do homem cordial. Infelizmente, porém, ele tem dado lugar à sua versão mais tosca, arrogante, armado da ignorância mais atrevida e vociferante. Provavelmente, sempre esteve ali, à espreita, só esperando o momento oportuno de se manifestar sem as reservas do politicamente correto, tão execrado hoje. Hoje pode-se expressar todo o horror ao outro, ao pobre, ao preto, à mulher, ao homossexual, ao nordestino, sem reservas. Pode-se falar de tudo sem amarras e sem estudo, falar por falar, aos borbotões, criando um caudal de asneiras e assombrosas inverdades históricas. Um mar de lama, como o que tomou Mariana e Brumadinho, e promete avançar por muito mais. 
Vejo, abismada, pessoas conhecidas replicando maluquices sem nenhum pudor. Mas, se maluquices são, que pudor esperar? Pena que sejam do pior tipo: difamatórias, destrutivas. Tenho evitado debater nesse nível em que faltam coerência, organização mínima de ideias, fontes confiáveis. 
Permaneço na esperança de que prevaleçam no país os tipos éticos. Sei que existem, conheço alguns tantos, predominam entre meus amigos, graças aos céus. Mas ainda é preciso que se reúnam, que se fortaleçam e se façam ouvir em meio à algaravia e ao caos. Se o homem cordial, que era como nosso mito fundador, tem caminhado para seu fim (ou sua transformação em algo pior, por enquanto), é possível também que algo melhor surja desse apocalipse social e político.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Juntos, para o que for

Tenho procurado não me afligir com o resultado da eleição, no próximo domingo. Difícil. Fico dividida entre esperar o milagre da vitória democrática e fortalecer o espírito diante de tempos sombrios. Penso nos amigos, na família, em tanta gente que ficaria em perigo no caso de um avanço fascista. Me dá vontade de estar perto de todos, de abraçar todos, de unir forças e energias e ações e projetos. Não estar no centro dos acontecimentos tem disso, essa distância da ação fundamental. 
Em casa, me preocupo ainda mais com nossa alimentação, nosso bem-estar. Penso que precisamos estar fortes fisicamente também, para o que for. Fortaleço core e coração, mente, corpo e espírito. 
Eliane Brum, em mais um texto belíssimo, fala da importância, em tempos de horror, de não renunciar a nossa subjetividade, de resistir nas pequenas coisas do cotidiano ("no amor, na amizade, no sexo, no prazer de ver um filme ou ouvir uma música, num café bem coado"), do estar junto. Do estar junto com os que refutam a violência, a intolerância, a repressão - reforçar a rede de proteção contra possíveis golpes, que, num caso de instauração do fascismo, certamente virão. Já vieram, quando soubemos aqui e ali de pessoas queridas (poucas, ainda bem) que apoiam o horror; já têm vindo, no terrorismo contra quem ousa se pronunciar publicamente ou simplesmente ser o que é. 
Os violentos que haviam se camuflado nesses poucos anos de governos democráticos agora mostram garras e dentes afiados, fazem chacota da liberdade, repetem frases loucas como autômatos. É muito chocante tanta ignorância altiva, mas não podemos deixar que esse choque inicial nos paralise. Menos ainda o medo. Já vencemos o medo uma vez, unindo forças. De novo, será necessária toda força, toda união. O coração da liberdade, das liberdades batendo junto e muito alto. Para o que for.