terça-feira, 22 de maio de 2012

Como é bom voltar

Sempre digo que a vida ideal seria ter casas espalhadas pelo mundo e um porto seguro para o qual regressar. Ou uma atividade que permitisse conhecer muitos portos, por algum tempo, e depois poder voltar ao tal porto mais seguro. Que hoje seria minha casa com uma microparede (um nicho apenas) pintada de Blue Bright Violet (o nome dado pela Coral não é esse, que peguei emprestado para sempre de uma caixa de lápis da Berol), fotos preto e branco, muitos livros. Mas que poderia ser outra, com uma grande mesa de madeira, cozinha ampla que permitisse invenções e muita conversa jogada fora, aquecida antes por um cafezinho. É muito bom viajar, mas é ainda melhor ter para onde voltar, ter o que contar, pessoas para ouvir o que se conta. E suas paredes, seu próprio chão, o som dos seus passos reconhecido.
Porém, há outro tipo de regresso que, podem acreditar, é ainda melhor. Voltar para si mesmo. Já tiveram a experiência? Eu acabo de ter.
Mesmo não tendo conseguido dizer tudo o que pensava, o que estava ensaiado (e daí talvez a dor de garganta de dois dias, diriam os antroposofistas e o meu acupunturista Dr. Magical Carlos), verbalizei enfim meu desejo de abandonar uma situação que se arrastava por um ano. Ainda vai exigir de mim um último fôlego, mas minha alma se sente novamente leve, eu me sinto novamente fiel a mim mesma. Como se, na volta de uma longa viagem, encontrasse uma casa empoeirada, com alguma desordem - mas minha. Entendem? Minha casa. Eu. O porto. Que saudade!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Todo mundo em pânico já!

Lembrei-me um dia desses de uma crítica que recebi de uma chefe, há alguns anos: eu era muito tranquila, tinha que "entrar mais em pânico". Como não tenho essa tendência (fico brava sim, cresço dois metros quando necessário, minhas narinas dilatam, então é melhor sair da frente - mas é improvável entrar num estado de estresse, pavor, autocomiseração constantes), adquiri uma máscara "do Pânico" nas lojas Americanas (oferta imperdível de Carnaval) e deixei-a na gaveta para situações de emergência. (Para ilustrar, coloquei umas fotinhos da época no Nem guerê nem pipoca.)
A mesma chefe tinha comentado uma vez sobre meu "jeito baiano de ser" (e é uma pessoa da área de educação, podem crer nisso?), ainda sobre minha irritante tranquilidade quando as coisas ao redor eram muito estressantes. Acho que ela se irritava mais com o fato de eu ser diferente dela, de agir de modo diferente e mesmo assim conseguir ótimos resultados no trabalho.
Só que eu achava que isso era um caso único, uma pessoa que acredita no pânico como sinal de eficiência (ou pelo menos aparência de). Que, para denotar envolvimento, precisamos mostrar que estamos muito, muito preocupados, quase histéricos. Reclamar, colocar a culpa em mais alguém, se vitimizar um tanto. Aí descobri que tem bem mais gente que segue essa linha de La vie en peur e se horroriza com quem não só propõe soluções diferentes mas também procura ter uma vida normal para além do trabalho, com outros interesses, cultivando as relações humanas. Se eu consigo tempo para outras coisas, como posso fazer um bom trabalho? Simplesmente posso.
Ufa, ainda bem que guardei minha máscara!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mercúrio retrógrado

A culpa só pode ser de Mercúrio.
Quando as comunicações ficam truncadas, a responsabilidade é do pequenino. E um jeito de ele chamar a atenção, já que é tão pequeno, é fazer bagunça. Ou birra, porque imagino-o se recolhendo (retrogradando) no quarto, batendo a porta, como menino mimado. Certamente, teve um dedinho de Mercúrio na história da torre de Babel...
Ou então o baleês é a nova língua oficial, e ninguém me avisou. Por isso é que fico um tempão tentando explicar uma coisa, escolhendo a palavra mais exata, e recebo respostas estapafúrdias. Ou não, porque na verdade são dadas em baleês. E aí a culpa é minha, porque não domino o idioma.
E provavelmente a nova língua é mais enxuta que o português arcaico que falo, e por isso as pessoas sentem menos necessidade de explicar, usam frases curtas e tal.
Foi o que aconteceu um dia numa loja da Centauro, onde fui trocar uma camisa de Guga - a gerente, em baleês, me disse apenas que não dava para fazer a troca. Quando viu, porém, que eu não falava a língua e parecia carecer de mais explicações, condoeu-se e acabou dizendo em português que eles até concediam mais 15 dias além dos 30 de praxe, mas, uma vez que a compra tinha sido feita no dia x, não era mais possível, que pena etc. Bem, como a matemática é uma linguagem universal, fiz as contas mentalmente e disse a ela: mas hoje é o 45o dia! então podemos fazer a troca.
E nossa comunicação cessou. Subitamente. Como se alguém tivesse arrancado o fio do telefone da parede (cena ainda clássica de cinema, mesmo em tempos de wireless, wi-fi e tal).
Fazia tempo que não me sentia tão odiada por alguém. A mulher emudecida foi até o computador, viu que eu tinha razão e passou a camisa para uma subalterna. Só quando perguntei se "tinha dado certo" ela respondeu que eu podia trocar a camisa. Mas parecia doer muito nela, e ela sumiu. Que pena. Quase doeu em mim.
Tudo culpa de Mercúrio. Ou do baleês?

domingo, 18 de março de 2012

Muito sem graça

Pois o mundo e as pessoas andam muito sem graça. Aliás, vejam como aquilo que é gracioso, gratuito, engraçado é aguerridamente combatido (já falei aqui também do combate à alegria) - o que serve logo de alimento para a imaginação, pois é como se um rinoceronte enlouquecido avançasse sobre uma pluma que descesse rodopiando do céu.
É assim que vejo a graça: algo leve, delicado, que chega de lugar nenhum, de modo inesperado, e pode ser levado pelo vento do mesmo modo - e a imagem nem é minha, mas da primeira e última cenas de Forrest Gump, e já foi citada por um "especialista em graça", Philip Yancey.
Antes que alguém pense que vou fazer uma pregação, aviso que meu comentário não é religioso ou teológico, mas ético. O desgraciosismo atinge todas as esferas da vida humana, todo tipo de relação - e as notícias da TV estão aí para atestar isso, o fascínio pela desgraça alheia.
Outra noite, um casal de amigos queridos (num lugar de nome "esperança", vejam só) comentava como havia tentado promover um evento gratuito de cinema, e como o público era desrespeitoso - as pessoas chegavam atrasadas e saíam sem cerimônia no meio da sessão. Pode ser porque os filmes não agradassem, mas provavelmente teve a ver também com o fato de a maioria não estar preparada para receber algo gratuitamente. Por incrível que pareça, receber é uma tarefa difícil, porque pressupõe confiar, atribuir valor a quem concede (mesmo que nada seja pedido). Afinal, por que valorizar o que vem de graça, perder a oportunidade de mostrar o poder de compra, de conquista - a disputa? Quem concede deve estar querendo algo em troca, não está? Não mesmo?
Eu não sou nenhuma Madre Teresa, mas acredito, como um certo profeta das ruas cariocas, que gentileza gera gentileza. E assim já fui atropelada várias vezes pela desconfiança alheia - está sorrindo por quê? Desse jeitinho mesmo, quase uma bofetada que faz o choro subir aos olhos. Por outro lado, já fui agraciada por gente que encontrei uma só vez antes de nos separarmos na poeira dos caminhos. 
Sim, devemos ter cuidado, ser menos ingênuos, desconfiar mais - e as pessoas "capazes de tudo" que encontro por aí não me deixam esquecer disso. Mas (e também já disse isso), como quero uma bagagem leve para ir mais longe, deixo para trás o rinoceronte em surto e fico com a pluma.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Para onde vão os noias?

Nos últimos tempos, pelo menos duas ações político-eleitoreiras deram na cara sua morte despudorada na praia. Uma delas foi a tal da lei da faixa de pedestres - se durante duas semanas assistimos a uma certa confusão no trânsito, entre a meia dúzia de motoristas seguidores da lei, os demais que consideravam tudo babaquice e os pedestres assustados, que não sabiam se podiam ou não atravessar, hoje não há motorista que se digne a olhar para o lado na hora de meter o pé no acelerador em cima da faixa de travessia.
A outra ação eleitoreira tem efeitos muito mais graves. A prefeitura de São Paulo tinha já, no primeiro mandato de Kassab, expulsado os noias da Cracolândia clássica, no Jardim da Luz, para os Campos Elíseos, a fim de restabelecer o antigo (bem antigo) glamour da região, que foi aparelhada com a Sala São Paulo e o Museu da Língua Portuguesa, além de reformas na Pinacoteca do Estado e na estação da Luz. Agora o governo estadual resolveu contribuir, enxotando os noias para todos os cantos da cidade.
Já perceberam como não se fala mais na heroica ação policial? Pois eu digo a vocês que em plena luz do dia é possível cruzar com grupos de mortos vivos em várias ruas do centro, da República, Santa Cecília, Consolação e - tremeis, bem-aventurados - Higienópolis. Um dia desses, indo levar roupas à tinturaria, vi meia dúzia de pessoas fumando crack na alameda Nothman, por volta das 11h, enquanto os seguranças da Funarte e os lojistas apenas assistiam à cena.
E agora, Geraldo? Que me diz, Gilberto? Dispersos os noias, dissipou-se o problema? Mais me parece que essa dispersão geográfica só vai ampliar a área de atuação dos traficantes, fazer mais vítimas do vício e reduzir cada vez mais a liberdade de ir e vir dos outros cidadãos.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Amor

Reli há pouco um texto que escrevi há dez anos, "Amar".
Fazer essas releituras não é só importante do ponto de vista estético - o que melhorou, o que se perdeu no jeito de escrever -, mas principalmente quanto à visão do mundo - que temos esperança de ver ampliada.
Ainda concordo que amar não é fácil e faz a gente se perguntar se não é melhor ficarmos sozinhos com nossa solidão, e também que exige coragem e fé e muito talento para recomeçar.
Hoje, porém, não acho mais que acabamos topando tudo por amor - sofrer, engordar ou emagrecer muito, chorar, se decepcionar. As decepções vêm sim, quanto maiores são as nossas expectativas com o outro (isso em qualquer relação), e até choramos por isso. Mas daí a achar naturais o descaso, o descomprometimento, a dor... Esta só mantém com o amor uma relação fonética, e mais nada.
O amor me parece tão mais fácil hoje - menos terrível, menos ofuscante. E mais revelador: uma espécie de milagre cotidiano, prazer nas pequenas gentilezas e descobertas conjuntas. Até faz engordar um pouquinho, mas porque provoca apetite pela vida. Parece que só por amor a alguém ou a uma causa descobrimos do que somos capazes.
Hoje seria mais econômica e enfática: amar é muito bom!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Verde e rosa

É mesmo engraçado que em um país tropical as pessoas tenham tanta parcimônia em usar a cor. Eu mesma adoro comprar roupas quando vou ao Rio ou a Salvador, só para ter peças mais alegres, mais de acordo com minha alma brasileiríssima - mesmo que aos olhos estrangeiros mais descuidados eu não pareça tão brasileira assim (afinal, não sou negra, nem sou índia!).
Aliás, é a uma importância demasiada aos olhos alheios, à opinião dos outros, que atribuo essa vergonha de se mostrar como é, tão comum entre os brasileiros. Cada vez mais (e isso tem a ver também com a tal globalização, que pode libertar pelo acesso ao conhecimento, mas também cercear pela imposição de padrões) nos parecemos com os estrangeiros - que, por sua vez, nos veem como um povo "solar". Em São Paulo, quando chega aquele frio de bater o queixo, como é raro encontrar o vermelho e o amarelo nas ruas! Quando acontece, faz lembrar uma gravura de Goeldi - uma solitária mancha de cor em meio ao black total.
Nada contra o preto, que também adoro. Mas se é verdade que expressamos nossa alma, nossa personalidade com o que vestimos, o que queremos mostrar quando nos vestimos todos da mesma forma, com uma mesma cor? Ou será que queremos apenas nos esconder?
Meu amigo Márcio Ito, estilista e professor de moda, faz o resumo da ópera com perfeição. Leiam o delicioso artigo de quem entende:
http://www.diaadiarevista.com.br/Noticia/7266/aquarela-do-brasil/
Ah, sim: adoro verde e rosa, juntos.