Sempre gostei de escrever. Tanto que acabei virando professora de redação e depois editora. Ensinei muita gente a escrever corretamente. Muitos alunos foram além, deixaram aflorar seu talento. Foi e é bonito de ver.
Mas talvez o que eu saiba fazer melhor é ler. Ler através das palavras alheias. Ver o que se oculta atrás delas, o que pretende o autor, o que mostra, o que esconde.
Outro dia, recebi um e-mail cheio de despeito e rancor. A pessoa escreve "bem", corretamente. O e-mail era longo, pretendia contar uma história e, com ela, provocar discórdia. Mas havia tantos, tantos furos. Informações contraditórias. Coisas que não me espantaram em nada. E uma intenção que se despedaçava do início ao fim.
Tenho certeza de que foi escrito lentamente, não aos tropeções. Mas o espírito de quem escreveu tropeçava, sobrenadava em maus sentimentos. Refleti sobre a pretensão do texto, que era a de me atingir. Não cheguei a ter pena, só uma consternação bem longínqua por quem se presta a esse tipo de papel, provavelmente por não ter sonhos, por levar uma vida entediante/medíocre, por ser infeliz e talvez nem saber disso. Quanta coisa dizemos sobre nós ao escrever!
Lembrei-me em seguida de que a história que se contava não pertencia a mim, embora o texto quisesse me fazer acreditar nisso, criando trechos de falsa intimidade. E então vi a mim mesma em um outro patamar, bem distante - dentro da minha própria vida, tão cheia de projetos e sonhos, iluminada de sol, cercada de pessoas que me querem bem.
Então, cantando, criei coisas bonitas e embelezei ainda mais meu dia e meu caminho. Desconfio que não era isso que se esperava - e isso me importa? Acho que nem preciso responder.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
domingo, 10 de maio de 2015
Maternidade
A essas alturas da vida, já sei: não serei mãe. E tudo bem. Não me considero uma aleijada. Acho que se foi o tempo em que era obrigatória a maternidade para uma mulher ser considerada completa.
Quer dizer, acho que esse tempo se foi, ou deveria ter ido (mesmo já havendo um termo para definir as mulheres que não querem ter filhos, a geração NoMo, quantos ataques as mulheres independentes ainda sofrem). Cansei de ouvir, já aos 15 anos, que precisava me casar e ter filhos. Depois, os familiares desistiram - viram que eu era "meio diferente", e alguns até apostavam, normalmente em silêncio, que eu era lésbica.
Eram duas coisas que não faziam muito sentido para mim: casar e ter filhos. Não como coisas que me causassem repulsa, mas como padrões que eu não me sentia obrigada a seguir - se rolassem, que ótimo. Mas eu nunca iria me sentir obrigada a uma e outra só porque "todo mundo faz assim".
E não que eu não desejasse um companheiro com quem dividir as aventuras da vida. Ou não gostasse de crianças, ou não tivesse um apurado senso maternal. Tanto é que adotei Chico e Zen, por essa necessidade de dar amor, de cuidar. Antes cheguei a pensar em adotar uma criança, mas a crise me fez colocar pé na realidade. Seja como for, só não me sinto presa às ideias alheias, pelo menos a essas duas (sobre convenções, já falei no Nem guerê nem pipoca).
Quando ouço aquelas frases feitas "mãe é mãe", "mãe é só uma" etc., imagino como isso facilita a vida das pessoas, que, desse modo, não precisam pensar sobre as tão complicadas relações familiares. Minha mãe, por exemplo, fez tudo o que podia por nós, mas não é possível colocá-la no mesmo balaio de todas as mães. Aquela história da "comida da mamãe" nunca rolou muito em casa, porque minha mãe trabalhava fora. Como ela fosse muito reservada, talvez até pudica, não me deu os primeiros toques sobre namorados, sexualidade ou até mesmo carreira a seguir. Fui percebendo isso na conversa de outras mães, com as filhas que eram minhas amigas.
Para minha mãe, o aprendizado materno deve ter sido difícil. Imagino que ela sonhasse com o príncipe encantado, no caso meu pai, que logo mostrou ter pouco de realeza. E ali estava ela, com três filhos para criar, sob a égide dos sogros. Apesar do amor que com certeza sentia, tinha dificuldade em demonstrar afeto - reflexo do que vivera na casa dos pais, com tantos irmãos - e por isso deve ter parecido ausente para meus irmãos. Eu mesma, muitas vezes, vi minha mãe mais como minha filha que outra coisa. Ela não se encaixa no modelão das propagandas de TV ou das mães dos meus amigos. Acho que ser mãe não é puramente fisiológico; embora a natureza tenha um papel importante, há o aprendizado que cada mulher absorve de um jeito. Amar também se aprende, e não há nada mais distante de regras sociais que isso.
Minha mãe tornou-se uma ótima avó, naquele sentido de permitir tudo aos netos, de expressar seu afeto com maior gratuidade. Eu virei mãe de dois gatos e sou mãe das minhas criações, dos meus projetos, que acalento cuidadosamente.
Tá tudo certo. Tá tudo ótimo. E feliz dia, mãe, não pelo que pregam as convenções, não pelo que você "representa", mas por quem você é.
Quer dizer, acho que esse tempo se foi, ou deveria ter ido (mesmo já havendo um termo para definir as mulheres que não querem ter filhos, a geração NoMo, quantos ataques as mulheres independentes ainda sofrem). Cansei de ouvir, já aos 15 anos, que precisava me casar e ter filhos. Depois, os familiares desistiram - viram que eu era "meio diferente", e alguns até apostavam, normalmente em silêncio, que eu era lésbica.
Eram duas coisas que não faziam muito sentido para mim: casar e ter filhos. Não como coisas que me causassem repulsa, mas como padrões que eu não me sentia obrigada a seguir - se rolassem, que ótimo. Mas eu nunca iria me sentir obrigada a uma e outra só porque "todo mundo faz assim".
E não que eu não desejasse um companheiro com quem dividir as aventuras da vida. Ou não gostasse de crianças, ou não tivesse um apurado senso maternal. Tanto é que adotei Chico e Zen, por essa necessidade de dar amor, de cuidar. Antes cheguei a pensar em adotar uma criança, mas a crise me fez colocar pé na realidade. Seja como for, só não me sinto presa às ideias alheias, pelo menos a essas duas (sobre convenções, já falei no Nem guerê nem pipoca).
Quando ouço aquelas frases feitas "mãe é mãe", "mãe é só uma" etc., imagino como isso facilita a vida das pessoas, que, desse modo, não precisam pensar sobre as tão complicadas relações familiares. Minha mãe, por exemplo, fez tudo o que podia por nós, mas não é possível colocá-la no mesmo balaio de todas as mães. Aquela história da "comida da mamãe" nunca rolou muito em casa, porque minha mãe trabalhava fora. Como ela fosse muito reservada, talvez até pudica, não me deu os primeiros toques sobre namorados, sexualidade ou até mesmo carreira a seguir. Fui percebendo isso na conversa de outras mães, com as filhas que eram minhas amigas.
Para minha mãe, o aprendizado materno deve ter sido difícil. Imagino que ela sonhasse com o príncipe encantado, no caso meu pai, que logo mostrou ter pouco de realeza. E ali estava ela, com três filhos para criar, sob a égide dos sogros. Apesar do amor que com certeza sentia, tinha dificuldade em demonstrar afeto - reflexo do que vivera na casa dos pais, com tantos irmãos - e por isso deve ter parecido ausente para meus irmãos. Eu mesma, muitas vezes, vi minha mãe mais como minha filha que outra coisa. Ela não se encaixa no modelão das propagandas de TV ou das mães dos meus amigos. Acho que ser mãe não é puramente fisiológico; embora a natureza tenha um papel importante, há o aprendizado que cada mulher absorve de um jeito. Amar também se aprende, e não há nada mais distante de regras sociais que isso.
Minha mãe tornou-se uma ótima avó, naquele sentido de permitir tudo aos netos, de expressar seu afeto com maior gratuidade. Eu virei mãe de dois gatos e sou mãe das minhas criações, dos meus projetos, que acalento cuidadosamente.
Tá tudo certo. Tá tudo ótimo. E feliz dia, mãe, não pelo que pregam as convenções, não pelo que você "representa", mas por quem você é.
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
O dono e o autor
O que seria da vida se não tivéssemos insights de vez em quando? OK, deve haver muita gente que não dá ouvidos a esses pensamentos que fazem cócega no espírito, parecendo ter origem na mente, mas certamente irradiados do coração (num sentido mais amplo que o de órgão muscular bombeador de sangue).
Eu tenho cada vez mais valorizado os meus. E um dos últimos foi justamente acerca da vida, de tanto ouvir projetos alheios a respeito dela. Muitas pessoas querem ser donas de sua vida, como se isso não estivesse pressuposto. O problema é o que fazemos dessa "propriedade" de viver enquanto vivemos. Difícil é fugir dos sistemas opressores, das culturas impostas, dos traumas pessoais. Construímos muros e grades ao nosso redor, acreditamos que não temos direito à nossa existência, agimos como autômatos porque acreditamos no que nos dizem, e não na nossa voz interior. Para ser feliz é preciso percorrer um longo caminho de conquistas materiais; ser feliz é lá longe, não cá dentro. Confusão típica de um mundo que valoriza o ter no lugar do ser.
Para fugir a essas armadilhas, portanto, não basta apenas o ser dono da própria vida, realidade da qual nos esquecemos/afastamos, mas dar um passo além: o ser autor da própria vida.
A autoria, por sua vez, pressupõe um impulso criador, e isso já nos basta para evitar a mesmice, a normose e a consequente frustração. Para criar, é preciso entrar em contato com nosso eu mais profundo, que nos define como pessoas únicas, com sonhos e talentos intransferíveis. Talvez esse eu profundo seja o que eu chamei de coração há pouco. Alguns vão chamá-lo Deus (também aqui abarcando todos os nomes que Ele tem nas diversas religiões). E como ser infeliz quando se atende ao que há de mais sagrado em nós?
Por isso eu prefiro ser autora a apenas dona da minha vida. Prefiro bordar meus caminhos, poder mudar de ideia e de rumo quando meu coração assim pedir. Criar saídas onde não houver uma. Fluir com a vida, ver minha chama brilhar até que chegue o dia em que ela naturalmente se apague.
Eu tenho cada vez mais valorizado os meus. E um dos últimos foi justamente acerca da vida, de tanto ouvir projetos alheios a respeito dela. Muitas pessoas querem ser donas de sua vida, como se isso não estivesse pressuposto. O problema é o que fazemos dessa "propriedade" de viver enquanto vivemos. Difícil é fugir dos sistemas opressores, das culturas impostas, dos traumas pessoais. Construímos muros e grades ao nosso redor, acreditamos que não temos direito à nossa existência, agimos como autômatos porque acreditamos no que nos dizem, e não na nossa voz interior. Para ser feliz é preciso percorrer um longo caminho de conquistas materiais; ser feliz é lá longe, não cá dentro. Confusão típica de um mundo que valoriza o ter no lugar do ser.
Para fugir a essas armadilhas, portanto, não basta apenas o ser dono da própria vida, realidade da qual nos esquecemos/afastamos, mas dar um passo além: o ser autor da própria vida.
A autoria, por sua vez, pressupõe um impulso criador, e isso já nos basta para evitar a mesmice, a normose e a consequente frustração. Para criar, é preciso entrar em contato com nosso eu mais profundo, que nos define como pessoas únicas, com sonhos e talentos intransferíveis. Talvez esse eu profundo seja o que eu chamei de coração há pouco. Alguns vão chamá-lo Deus (também aqui abarcando todos os nomes que Ele tem nas diversas religiões). E como ser infeliz quando se atende ao que há de mais sagrado em nós?
Por isso eu prefiro ser autora a apenas dona da minha vida. Prefiro bordar meus caminhos, poder mudar de ideia e de rumo quando meu coração assim pedir. Criar saídas onde não houver uma. Fluir com a vida, ver minha chama brilhar até que chegue o dia em que ela naturalmente se apague.
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Um contínuo fazer-se a si
"O senhor sabe... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão."
Sempre achei tão lindas essas palavras roseanas, e hoje sei que não são só literatura. Estamos mudando constantemente, embora haja algo de essencial no fundo que pouco se altera.
Agora acredito que seja assim, mas já fiquei muito confusa a esse respeito. Quando fui fazer terapia, entendi que devia ser quem era, e entrei em parafuso ao pensar que não conseguiria chegar a essa conclusão jamais, pois estava mudando sempre, o tempo todo deitando certezas fora. Parte dessa confusão talvez se devesse à minha necessidade de me agarrar a coisas concretas após experiências familiares brumosas. Mas como dar concretude ao cambiante ser humano? Tinha sempre a sensação de estar errada, de ter assumido uma persona em vez de viver minha verdadeira essência. Hoje penso que eu sou tudo isso ao mesmo tempo e que o melhor a fazer é relaxar diante de uma realidade tão líquida, de uma quase completa falta de controle.
Se não me fez fixar um modo de ser (o que provavelmente seria impossível), a terapia ao menos me levou a descobrir outras camadas, outros possíveis dentro de mim. Ajudava muito quando meu terapeuta dizia para eu ouvir meu coração - que, afinal, pode bater por coisas diferentes a cada dia. E tudo certo, pois seguir essa cadência é saber que se vive. E viver é essa transformação diária do humano de que fala Riobaldo em sua sabença sertaneja.
Poder fazer-se a si continuamente, e não ter que descobrir uma única verdade, isso é realmente tranquilizador.
Sempre achei tão lindas essas palavras roseanas, e hoje sei que não são só literatura. Estamos mudando constantemente, embora haja algo de essencial no fundo que pouco se altera.
Agora acredito que seja assim, mas já fiquei muito confusa a esse respeito. Quando fui fazer terapia, entendi que devia ser quem era, e entrei em parafuso ao pensar que não conseguiria chegar a essa conclusão jamais, pois estava mudando sempre, o tempo todo deitando certezas fora. Parte dessa confusão talvez se devesse à minha necessidade de me agarrar a coisas concretas após experiências familiares brumosas. Mas como dar concretude ao cambiante ser humano? Tinha sempre a sensação de estar errada, de ter assumido uma persona em vez de viver minha verdadeira essência. Hoje penso que eu sou tudo isso ao mesmo tempo e que o melhor a fazer é relaxar diante de uma realidade tão líquida, de uma quase completa falta de controle.
Se não me fez fixar um modo de ser (o que provavelmente seria impossível), a terapia ao menos me levou a descobrir outras camadas, outros possíveis dentro de mim. Ajudava muito quando meu terapeuta dizia para eu ouvir meu coração - que, afinal, pode bater por coisas diferentes a cada dia. E tudo certo, pois seguir essa cadência é saber que se vive. E viver é essa transformação diária do humano de que fala Riobaldo em sua sabença sertaneja.
Poder fazer-se a si continuamente, e não ter que descobrir uma única verdade, isso é realmente tranquilizador.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Os perigos do viver
Viver está cada vez mais perigoso. Além da intolerância, violência, desastres climáticos, há os riscos comezinhos, como os malefícios do glúten, dos agrotóxicos, do café e do ovo (nem vou citar as gorduras e o açúcar, vilões há muito mais tempo). Até comprar roupa é perigoso, porque corremos o risco de alimentar a indústria do trabalho escravo. Pode ser que sempre tenha sido assim, mas agora as coisas têm sido escancaradas sob uma luz insuportavelmente clara.
De repente, nos damos conta de que não temos controle sobre nada, que no fundo tudo é produto de um grande acaso. Para Nietzsche, isso tinha a ver com ficar cara a cara com o trágico e, de preferência, sobreviver a ele. Dito de maneira mais simples, ter um choque de realidade. Descobrir que não há garantia de nada, mesmo que recebamos todas as garantias. Que, a bem da verdade, não é possível colocar a mão no fogo por ninguém, nem por nós mesmos. Porque tudo muda sempre, porque essa é a natureza da vida/realidade/mundo. Que a única coisa real é agora, que amanhã e a depender da memória dos envolvidos não será mais.
Mesmo assim, vivemos. Topamos o desafio. Alguns, nem consciência têm disso - sequer têm consciência, como Riobaldo, de que viver é naturalmente muito perigoso. Os que o sabem continuam caminhando até a beira do precipício, esperando a chegada do novo ano ainda que desconfiem de que ele será apenas continuação do que supostamente termina - sem possibilidade de previsão. Ainda assim, fazem planos e promessas, mesmo que desconfiem que nem sempre realizarão uns e outras. Se são corajosos ou se mentem, sabem que é assim que se faz.
Porque, como nada é previsível, a beira do precipício pode ser não um salto para a inevitável morte, mas uma bela plataforma de voo para o desconhecido que é viver.
De repente, nos damos conta de que não temos controle sobre nada, que no fundo tudo é produto de um grande acaso. Para Nietzsche, isso tinha a ver com ficar cara a cara com o trágico e, de preferência, sobreviver a ele. Dito de maneira mais simples, ter um choque de realidade. Descobrir que não há garantia de nada, mesmo que recebamos todas as garantias. Que, a bem da verdade, não é possível colocar a mão no fogo por ninguém, nem por nós mesmos. Porque tudo muda sempre, porque essa é a natureza da vida/realidade/mundo. Que a única coisa real é agora, que amanhã e a depender da memória dos envolvidos não será mais.
Mesmo assim, vivemos. Topamos o desafio. Alguns, nem consciência têm disso - sequer têm consciência, como Riobaldo, de que viver é naturalmente muito perigoso. Os que o sabem continuam caminhando até a beira do precipício, esperando a chegada do novo ano ainda que desconfiem de que ele será apenas continuação do que supostamente termina - sem possibilidade de previsão. Ainda assim, fazem planos e promessas, mesmo que desconfiem que nem sempre realizarão uns e outras. Se são corajosos ou se mentem, sabem que é assim que se faz.
Porque, como nada é previsível, a beira do precipício pode ser não um salto para a inevitável morte, mas uma bela plataforma de voo para o desconhecido que é viver.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Brigas que valem a pena
Até os meus 16 anos, ou talvez um pouco mais, eu tinha disposição para discutir com as pessoas sobre política. Ficava inconformada com os argumentos pífios daqueles que se preocupavam apenas com seus imperiais umbigos, querendo que o país e a humanidade explodissem, desde que eles e seus privilégios saíssem ilesos.
Depois percebi que esse era um direito deles. Que eu não precisava, e nem conseguiria, convencê-los. Que, na verdade, tinha que fazer da minha luta uma briga pessoal que valesse a pena. Fazer o meu melhor para tornar melhor o mundo em que vivo, melhorar a minha relação com as pessoas, ajudar quem de fato precisa. E já é muito.
Ontem, Dilma foi reeleita. No primeiro turno, preferi votar em Luciana Genro, mesmo sabendo que ela não ganharia. Em nenhum momento, apesar das decepções com o PT, me passou pela cabeça votar em Aécio Neves como forma de "protesto". Que protesto seria esse, de retroceder, colocar no poder um governo com forte tendência à direita? Então, ontem, no segundo turno, votei em Dilma, apesar de tudo, porque, bem ou mal, ainda é um governo mais voltado para a maioria.
Aliás, há coisas simples que muita gente não entende. O que é direita e o que é esquerda? Trata-se de uma divisão entre quem olha apenas para o umbigo e quem sabe que o melhor para a maioria também favorece a si. Simplésimo. Claro que hoje, com os conchavos todos, os limites ficam mais tênues. Mas para isso existem as estatísticas e resultados: quem investe mais em educação, quem favorece os mais pobres? Em que governo a possibilidade de viajar mais, ter acesso à cultura, inclusive para os reclamões de plantão, ficou maior? Em que governo os denunciados por corrupção passaram a ser punidos?
Se cada um votasse em que de fato o representa, entendendo o que é democracia, muito mimimi seria evitado.
Mas, diante da incompreensão de coisas tão claras, emergem os ódios de quem não tem argumento. Inclusive pessoas de quem gosto, colegas antigos. Optei, portanto, por não me posicionar no Facebook, porque quem me conhece já sabe de que lado voto, e porque não queria entrar em brigas que não valem a pena e só teriam como resultado mais ódio e separação. Achei admiráveis os amigos que deram a cara a tapa e tiveram de ler coisas bizarras em suas linhas do tempo.
É claro que se alguém que conheço pregar o ódio aos nordestinos, aos negros, aos pobres, aos gays, o separatismo no Brasil, serei obrigada a excluir a pessoa das minhas relações. Talvez alguns me excluam também, ao ver que páginas eu curto. Mas será uma faxina saudável e silenciosa, para que sobre mais energia para as brigas que realmente valem a pena, como cobrar do governo eleito as promessas feitas.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Saber envelhecer é perder o medo da morte
Outro dia, em um café com amigos, falamos sobre envelhecer. Tudo porque comentávamos nossa pouca tolerância a algumas coisas (barulho, multidão), coisas que há alguns anos nem percebíamos, ou talvez não fossem tão extremas como hoje. Aí o Wagninho lançou o diagnóstico: estamos ficando velhos!
Eu nunca me preocupei com idade e nunca ocultei a minha. Sempre pareci mais velha quando jovem, e agora me atribuem alguns anos a menos, o que acaba sendo lisonjeiro, mas não faz assim grande diferença.
Pouco antes de eu fazer 40 anos, estava achando essa história de idade uma bobagem também no que se refere aos efeitos sobre o corpo. Dois ou três anos depois, vejo como isso sim, faz diferença. De repente, a fragilidade latente fica patente. A cada dia, a proximidade com a morte dá um pouco mais as caras. Primeiro, nas pessoas próximas, nos parentes mais velhos, nos pais de amigos. Depois, é com a gente mesmo. E quantos ficam desesperados em rejuvenescer. Pior: ficam desesperados com não ter feito da vida tudo o que queriam. Pior ainda: gostariam de voltar ao que já passou.
Ultimamente, junto com a experiência terapêutica e com a necessidade de respirar mais e ter mais foco, tenho pensado em como as duas coisas estão intrinsecamente ligadas, em como envelhecer bem tem a ver com a aceitação da nossa finitude, leia-se, nossa morte. Muitos dos grandes problemas humanos de hoje têm a ver com essa não aceitação, com a ilusão de que somos eternos. A ciência nos garante parte dessa ilusão, a sociedade de consumo, outro tanto. Mas a culpa não é delas.
Quando eu era bem jovem, tinha pavor de pensar na morte da minha avó. Por isso, vivia cada instante com ela - cantávamos, dançávamos, conversávamos. Ia com ela ao médico. Contava sobre minhas viagens. Quando ela morreu, eu estava pronta para sua partida, embora me doesse bastante - chorei sobre seu corpo enquanto a vestia para o enterro. Mas não houve culpa, porque vivemos o que tivemos de viver juntas.
No final das contas, vai ver que eu sempre soube que era simples assim. É que a gente se deixa carregar pelas torrentes alheias, pelas necessidades alheias, por aquilo que a mídia nos impõe. Acaba se esquecendo de que a vida é um ciclo naturalíssimo - se é assim com os outros bichos, por que conosco seria diferente? A diferença é que temos uma consciência que entra em curto de vez em quando; quando tudo está funcionando bem, compreendemos essa finitude, presentificamos nossas atitudes e relações. Do contrário, cuidar da alimentação e fazer ginástica acabam sendo preocupações superficiais, ditadas pelos outros, pelas aparências.
Quando a gente perde o medo da morte (pelo menos o pavor e o evitar falar sobre, como se não existisse), porém, cuidar de si e fazer o que se gosta tornam-se coisas simplesmente boas e prazerosas. Como deve ser a vida. Aliás, aquela bronca "vá cuidar da sua vida" é de uma sabedoria gritante e mais pertinente se torna no início do entardecer de cada um.
Eu nunca me preocupei com idade e nunca ocultei a minha. Sempre pareci mais velha quando jovem, e agora me atribuem alguns anos a menos, o que acaba sendo lisonjeiro, mas não faz assim grande diferença.
Pouco antes de eu fazer 40 anos, estava achando essa história de idade uma bobagem também no que se refere aos efeitos sobre o corpo. Dois ou três anos depois, vejo como isso sim, faz diferença. De repente, a fragilidade latente fica patente. A cada dia, a proximidade com a morte dá um pouco mais as caras. Primeiro, nas pessoas próximas, nos parentes mais velhos, nos pais de amigos. Depois, é com a gente mesmo. E quantos ficam desesperados em rejuvenescer. Pior: ficam desesperados com não ter feito da vida tudo o que queriam. Pior ainda: gostariam de voltar ao que já passou.
Ultimamente, junto com a experiência terapêutica e com a necessidade de respirar mais e ter mais foco, tenho pensado em como as duas coisas estão intrinsecamente ligadas, em como envelhecer bem tem a ver com a aceitação da nossa finitude, leia-se, nossa morte. Muitos dos grandes problemas humanos de hoje têm a ver com essa não aceitação, com a ilusão de que somos eternos. A ciência nos garante parte dessa ilusão, a sociedade de consumo, outro tanto. Mas a culpa não é delas.
Quando eu era bem jovem, tinha pavor de pensar na morte da minha avó. Por isso, vivia cada instante com ela - cantávamos, dançávamos, conversávamos. Ia com ela ao médico. Contava sobre minhas viagens. Quando ela morreu, eu estava pronta para sua partida, embora me doesse bastante - chorei sobre seu corpo enquanto a vestia para o enterro. Mas não houve culpa, porque vivemos o que tivemos de viver juntas.
No final das contas, vai ver que eu sempre soube que era simples assim. É que a gente se deixa carregar pelas torrentes alheias, pelas necessidades alheias, por aquilo que a mídia nos impõe. Acaba se esquecendo de que a vida é um ciclo naturalíssimo - se é assim com os outros bichos, por que conosco seria diferente? A diferença é que temos uma consciência que entra em curto de vez em quando; quando tudo está funcionando bem, compreendemos essa finitude, presentificamos nossas atitudes e relações. Do contrário, cuidar da alimentação e fazer ginástica acabam sendo preocupações superficiais, ditadas pelos outros, pelas aparências.
Quando a gente perde o medo da morte (pelo menos o pavor e o evitar falar sobre, como se não existisse), porém, cuidar de si e fazer o que se gosta tornam-se coisas simplesmente boas e prazerosas. Como deve ser a vida. Aliás, aquela bronca "vá cuidar da sua vida" é de uma sabedoria gritante e mais pertinente se torna no início do entardecer de cada um.
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