Ontem fui assistir à montagem de uma peça de meu amigo Flavio Goldman. Os passageiros foi encenada no Sesc Paulista, sob direção de Francisco Medeiros. Fica em cartaz até 28 demarço – o que é uma pena, pois merecia ser vista por muitas pessoas mais.
No cenário minimalista (apenas parte de um elevador, que vai ganhando outras partes, à medida que a trama avança), um terapeuta e seu paciente se encontram. A súbita pane no elevador leva a uma pane relacional, entre ambos e de cada um consigo, o que Flavio chamará apropriadamente de morte das personagens.
A tensão crescente deve-se, como sempre, à revelação de verdades. Mas essas verdades só podem ser reveladas com a alternância de simulacros, de imposturas. Quando deixei o Sesc, ainda absorvendo aquelas falas, veio-me à mente a excelente obra Amphitryon, de Ignacio Padilla, que já comentei neste blog ser um dos melhores livros que já li. Em comum com a peça, verdades e inverdades compõem no livro do autor mexicano um jogo de sombras, o que, via de regra, exige maestria.
Também em comum com o texto de Padilla, a peça de Flavio apresenta o elemento surpresa, quando pensávamos que já tínhamos “entendido tudo” do conflito – porque a impostura, afinal, habita a maioria dos conflitos cotidianos. Descobrir, como o paciente Ricardo, que não conhecíamos a verdade nem tínhamos o controle da situação (o que, muitas vezes, é a mesma coisa) tira-nos o chão. Um santo remédio para a empáfia e a descomunicação que nos assolam.
domingo, 21 de março de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Os olhos de Saramago
Um homem perde a visão em meio ao trânsito de uma cidade qualquer. Poucas horas depois, uma outra pessoa é tomada por uma espécie de “cegueira branca”. Depois outra. E mais outra.
A epidemia de cegueira que acomete a cidade (que está mais para Lisboa – ou outra metrópole qualquer – que a província de Ribatejo, onde Saramago nasceu) é o tema da obra, que vai além do mero fato e se constitui praticamente em uma parábola sobre os sentidos e as relações humanas.
Ficar cego é uma forma de tornar a ver, ou ver com os olhos da alma. Ver com os outros sentidos, ou, ainda, reaprender a sentir. Como Paulo, de cujos olhos, após ter cegado no caminho de Damasco, caíram escamas. Ou, ainda, como Miguilim, o protagonista de Campo geral, que, num dos lances mais poéticos da prosa roseana, tem o seu reolhar o mundo – com as dores e perdas de um rito de passagem particular – simbolizado por um par de óculos que lhes são postos por um senhor (também) de passagem pelo Mutum. Significativamente, é alguém “de fora” que o ajuda a ver, ou ver de novo modo.
De outro lado, não ver o outro é dessignificá-lo. E o outro, sabendo-se não visto, cessa de envergonhar-se por seus maus-feitos e reifica o seu próximo, tornado distante porque não há mais a ligá-los o espelho dos olhos de um e de outro. Como nada significam um para o outro, sequer nomeiam-se mutuamente.
E por que o fariam? Porque nomear é uma forma de compreender, de apreender. Dito de outro modo, de ter sob controle. As personagens permanecem sem nome como se fôssemos convidados a conhecê-las por outras marcas que não as da distinção nominal, do título. Não há a protegê-las o bastião de um nome, de uma história, de uma herança; cobre-as apenas uma cegueira branca, que ilumina, como uma segunda chance. A própria cegueira é uma idéia revista – não lança em trevas: revela.
Somente uma mulher continua a ver, no sentido físico do termo. Por isso passa a guiar os outros, vendo por eles, ao mesmo tempo em que assiste à miséria humana de pessoas reduzidas aos seus mais baixos instintos.
Contudo, a mulher não vê que lidera uma revolução, tão ocupada está em doar-se aos outros. Doa-se, junto com outras mulheres, para a sobrevivência de todos. Mesmo violada, não permite que algo se quebre dentro dela. Caminha em sua integridade no meio do inferno. Deixando de olhar para si, não se vê mais como indivíduo, como alguém com uma história particular; olhando para os outros, vê-se a si mesma como parte da humanidade inteira. Integra-a. Pertence-lhe.
Em alguns momentos, porém, a mulher terá preferido cegar como os outros, para não ser testemunha de tanta iniqüidade. Os outros, de seu lado, podem enxergá-la. Não é apenas uma voz – ela é esteio, a mão que guia, aquela que orienta, a que vê, a que antevê. Nunca foi tão bela, diz, como quem crê, uma outra que, no entanto, nunca a vira.
Quando a visão volta a todos, é ela agora quem vê um céu branco. Talvez por ter exercitado ao limite o postar-se no lugar do outro, talvez por ela mesma ser, ao fim de uma experiência tão singular, “iluminada”. Mas o temor da cegueira dura um momento: a cidade continua ali, diante dos seus olhos, como prova de uma existência que prossegue.
Embora não se perceba à primeira vista, certamente não é mais a mesma cidade, porque não são as mesmas pessoas a habitá-la. Viveu-se ali apenas com a essência das coisas – mesmo tendo sido algo passageiro, um alumbramento, sempre existem, para vivê-lo e vê-lo de novo (em que pese o paradoxo da afirmação, numa obra em que as personagens cegam quase todas), sempre existem, dizia, o déjà-vu, a memória. E os outros.
Texto originalmente publicado no blog Paisagens da crítica, de Julio Pimentel, em 19 de dezembro de 2006
A epidemia de cegueira que acomete a cidade (que está mais para Lisboa – ou outra metrópole qualquer – que a província de Ribatejo, onde Saramago nasceu) é o tema da obra, que vai além do mero fato e se constitui praticamente em uma parábola sobre os sentidos e as relações humanas.
Ficar cego é uma forma de tornar a ver, ou ver com os olhos da alma. Ver com os outros sentidos, ou, ainda, reaprender a sentir. Como Paulo, de cujos olhos, após ter cegado no caminho de Damasco, caíram escamas. Ou, ainda, como Miguilim, o protagonista de Campo geral, que, num dos lances mais poéticos da prosa roseana, tem o seu reolhar o mundo – com as dores e perdas de um rito de passagem particular – simbolizado por um par de óculos que lhes são postos por um senhor (também) de passagem pelo Mutum. Significativamente, é alguém “de fora” que o ajuda a ver, ou ver de novo modo.
De outro lado, não ver o outro é dessignificá-lo. E o outro, sabendo-se não visto, cessa de envergonhar-se por seus maus-feitos e reifica o seu próximo, tornado distante porque não há mais a ligá-los o espelho dos olhos de um e de outro. Como nada significam um para o outro, sequer nomeiam-se mutuamente.
E por que o fariam? Porque nomear é uma forma de compreender, de apreender. Dito de outro modo, de ter sob controle. As personagens permanecem sem nome como se fôssemos convidados a conhecê-las por outras marcas que não as da distinção nominal, do título. Não há a protegê-las o bastião de um nome, de uma história, de uma herança; cobre-as apenas uma cegueira branca, que ilumina, como uma segunda chance. A própria cegueira é uma idéia revista – não lança em trevas: revela.
Somente uma mulher continua a ver, no sentido físico do termo. Por isso passa a guiar os outros, vendo por eles, ao mesmo tempo em que assiste à miséria humana de pessoas reduzidas aos seus mais baixos instintos.
Contudo, a mulher não vê que lidera uma revolução, tão ocupada está em doar-se aos outros. Doa-se, junto com outras mulheres, para a sobrevivência de todos. Mesmo violada, não permite que algo se quebre dentro dela. Caminha em sua integridade no meio do inferno. Deixando de olhar para si, não se vê mais como indivíduo, como alguém com uma história particular; olhando para os outros, vê-se a si mesma como parte da humanidade inteira. Integra-a. Pertence-lhe.
Em alguns momentos, porém, a mulher terá preferido cegar como os outros, para não ser testemunha de tanta iniqüidade. Os outros, de seu lado, podem enxergá-la. Não é apenas uma voz – ela é esteio, a mão que guia, aquela que orienta, a que vê, a que antevê. Nunca foi tão bela, diz, como quem crê, uma outra que, no entanto, nunca a vira.
Quando a visão volta a todos, é ela agora quem vê um céu branco. Talvez por ter exercitado ao limite o postar-se no lugar do outro, talvez por ela mesma ser, ao fim de uma experiência tão singular, “iluminada”. Mas o temor da cegueira dura um momento: a cidade continua ali, diante dos seus olhos, como prova de uma existência que prossegue.
Embora não se perceba à primeira vista, certamente não é mais a mesma cidade, porque não são as mesmas pessoas a habitá-la. Viveu-se ali apenas com a essência das coisas – mesmo tendo sido algo passageiro, um alumbramento, sempre existem, para vivê-lo e vê-lo de novo (em que pese o paradoxo da afirmação, numa obra em que as personagens cegam quase todas), sempre existem, dizia, o déjà-vu, a memória. E os outros.
Texto originalmente publicado no blog Paisagens da crítica, de Julio Pimentel, em 19 de dezembro de 2006
Gente doida e gente sã
Será que quando Machado de Assis publicou O alienista, em 1882, estava antevendo, como Orwell, um fenômeno ulterior? Será que estava adivinhando a situação mostrada no Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, de não haver mais lugar para se colocar tanta gente doente?
Claro que aqui não me refiro a causas neurológicas, mas a escolhas egoísticas, a falta de ética, que também podem adoecer o espírito. Nessa acepção, a diferença entre ser são e não ser é cada vez mais tênue. Dá até para a gente desconfiar da própria sanidade. Principalmente quando nos enganamos a ponto de incluir em nosso círculo - de amigos, profissional - pessoas completamente despirocadas, capazes de tamanha inversão da realidade que não nos possibilitam participar da conversa, posto que estão a falar de outra coisa, que desconhecemos. Outra dimensão. Papo de bêbado.
Já disse que não curto observar a palavra, pela qual tenho tanto zelo, se espatifando no vazio. Mas tem acontecido com uma frequência indesejável. Palavras sem retorno, diálogo impossível. Como também muita violência gratuita por aí, gerada por essa mesma ausência dialógica. Cada um se agarra à sua verdade, ao seu "direito" e afronta quem o obrigue a encarar a realidade, que, no fundo, é uma verdade coletiva.
Que podemos fazer? Silenciar para não alimentar a sandice alheia? Pois é com nossas palavras, devidamente distorcidas, que difamadores se sustentam, uma vez que não têm capacidade própria de criar algo. Ou fingir, como no livro de Saramago ou na história mais antiga da terra de cegos, que estamos também doentes, para não parecermos tão ameaçadores?
Parece mesmo que o desafio contemporâneo seja, como anotei na resenha sobre o Ensaio, passear no meio do inferno sem perder a integridade. Um desafio, obviamente, apenas para quem tem algo a perder.
Claro que aqui não me refiro a causas neurológicas, mas a escolhas egoísticas, a falta de ética, que também podem adoecer o espírito. Nessa acepção, a diferença entre ser são e não ser é cada vez mais tênue. Dá até para a gente desconfiar da própria sanidade. Principalmente quando nos enganamos a ponto de incluir em nosso círculo - de amigos, profissional - pessoas completamente despirocadas, capazes de tamanha inversão da realidade que não nos possibilitam participar da conversa, posto que estão a falar de outra coisa, que desconhecemos. Outra dimensão. Papo de bêbado.
Já disse que não curto observar a palavra, pela qual tenho tanto zelo, se espatifando no vazio. Mas tem acontecido com uma frequência indesejável. Palavras sem retorno, diálogo impossível. Como também muita violência gratuita por aí, gerada por essa mesma ausência dialógica. Cada um se agarra à sua verdade, ao seu "direito" e afronta quem o obrigue a encarar a realidade, que, no fundo, é uma verdade coletiva.
Que podemos fazer? Silenciar para não alimentar a sandice alheia? Pois é com nossas palavras, devidamente distorcidas, que difamadores se sustentam, uma vez que não têm capacidade própria de criar algo. Ou fingir, como no livro de Saramago ou na história mais antiga da terra de cegos, que estamos também doentes, para não parecermos tão ameaçadores?
Parece mesmo que o desafio contemporâneo seja, como anotei na resenha sobre o Ensaio, passear no meio do inferno sem perder a integridade. Um desafio, obviamente, apenas para quem tem algo a perder.
domingo, 17 de janeiro de 2010
Leituras viscerais e imperdíveis
No vizinho http://nemguerenempipoca.blogspot.com/ perguntei aos amigos o que fazia do cantinho onde moram um lugar inigualável. Agora quero saber sobre suas leituras: o que você indicaria como um livro imperdível? E um livro visceral, algo que abalou suas estruturas? Veja que não são necessariamente a mesma coisa.
Eu, por exemplo, considero como um dos melhores livros que já li a obra do mexicano Ignacio Padilla, Amphitryon - pela urdidura, altas sacadas, repertório cultural do autor, tudo reunido com toque de mestre. Mas um livro que para mim valeu como um soco no estômago foi A paixão segundo G.H. - que encontrei perambulando pela biblioteca da faculdade e cuja lombada saltou aos olhos, atraindo-me irresistivelmente. À primeira frase, pensei: "Esta podia ser eu!". Ou seja, era um livro que, àquela altura da vida, eu precisava ler, que pedia para ser lido. E ainda por cima, segundo a autora, Clarice Lispector, era um livro para ser lido por "pessoas de alma pronta". Tivesse eu o privilégio!
Mas chega de blablablá: quais são as suas leituras favoritas, as que tocam sua mente e sua alma? Conte, conte tudo, não esconda nada.
Eu, por exemplo, considero como um dos melhores livros que já li a obra do mexicano Ignacio Padilla, Amphitryon - pela urdidura, altas sacadas, repertório cultural do autor, tudo reunido com toque de mestre. Mas um livro que para mim valeu como um soco no estômago foi A paixão segundo G.H. - que encontrei perambulando pela biblioteca da faculdade e cuja lombada saltou aos olhos, atraindo-me irresistivelmente. À primeira frase, pensei: "Esta podia ser eu!". Ou seja, era um livro que, àquela altura da vida, eu precisava ler, que pedia para ser lido. E ainda por cima, segundo a autora, Clarice Lispector, era um livro para ser lido por "pessoas de alma pronta". Tivesse eu o privilégio!
Mas chega de blablablá: quais são as suas leituras favoritas, as que tocam sua mente e sua alma? Conte, conte tudo, não esconda nada.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Escritos alheios I
Gosto muito de O verbo no infinito (poema em que andei cismando um dia desses) do frequentemente injustiçado Vinicius de Moraes. Os verbos são usados no infinitivo para reforçar a ideia da ação constante, incessante:
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
Mesmo com o sofrimento todo, o eu poético afirma que vai "esquecer tudo ao vir um novo amor".
Não sei por que, mas isso me faz lembrar uma historinha da Turma da Mônica, chamada "As emoções bárbaras" (e já vi que vários internautas se lembram dessa história). Um ente superior resolve descer à Terra para viver as tais emoções bárbaras, de que já não lembra mais. Claro, vai topar com Mônica e Cebolinha. A história é ótima, tão boa quanto a do mito da caverna, também desenhada por Maurício de Sousa e protagonizada pelo Piteco.
Talvez minha estranha associação (Vinicius+quadrinhos) tenha a ver com a ideia de que o esquecimento nos leva a fazer tudo de novo. Não é por isso que costumamos ser mais cuidadosos ao manusear objetos pontiagudos, ao mexer com fogo? Na verdade, porque "lembramos". Afinal, aquilo machuca, queima etc.
Por que será que no que diz respeito às emoções costumamos "esquecer"? Ou fingimos que esquecemos? Muitas vezes, elas também machucam e queimam.
Mistérios.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
Mesmo com o sofrimento todo, o eu poético afirma que vai "esquecer tudo ao vir um novo amor".
Não sei por que, mas isso me faz lembrar uma historinha da Turma da Mônica, chamada "As emoções bárbaras" (e já vi que vários internautas se lembram dessa história). Um ente superior resolve descer à Terra para viver as tais emoções bárbaras, de que já não lembra mais. Claro, vai topar com Mônica e Cebolinha. A história é ótima, tão boa quanto a do mito da caverna, também desenhada por Maurício de Sousa e protagonizada pelo Piteco.
Talvez minha estranha associação (Vinicius+quadrinhos) tenha a ver com a ideia de que o esquecimento nos leva a fazer tudo de novo. Não é por isso que costumamos ser mais cuidadosos ao manusear objetos pontiagudos, ao mexer com fogo? Na verdade, porque "lembramos". Afinal, aquilo machuca, queima etc.
Por que será que no que diz respeito às emoções costumamos "esquecer"? Ou fingimos que esquecemos? Muitas vezes, elas também machucam e queimam.
Mistérios.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Antes a pimenteira
Há alguns anos a editora Objetiva lançou a coleção Plenos pecados – os títulos foram encomendados a sete escritores famosos, que tiveram a tarefa de imprimir aos pecados capitais sua marca pessoal. Talvez seja desnecessário dizer que um dos meus favoritos é o que versa sobre a gula, não só pela minha própria gourmandise, mas principalmente porque leva a assinatura do sagaz Luis Fernando Veríssimo.
Ao lado, porém, de O clube dos anjos (este é o nome do livro sobre a gula), descobri, no desbravamento da coleção, o livro de Zuenir Ventura sobre a inveja. Aí entendi tudo sobre esse execrável sentimento que é provavelmente o mais comum dos pecados.
Zuenir batizou seu livro, muito a propósito, de Mal secreto. Afinal, todos os outros pecados dão-se mais à luz que a inveja. Querem ver? A soberba vive a pavonear-se, a avareza salta aos olhos, a ira irrompe contra tudo e todos. Luxúria e gula, por distintos motivos, lambem os beiços, enquanto a preguiça cerra as pálpebras à menor ameaça de esforço. Somente a inveja oculta-se sob o manto da sociabilidade – e a moralidade também costuma ser um bom disfarce para ela. Mesmo que alguns não a consigam esconder, dando pinta com seu olhar vítreo e sorriso congelado, não é de bom tom admiti-la. Ou, se a admitem, é para renomeá-la “inveja boa”, que, obviamente, não existe.
Muitos, ainda, confundem ciúme e inveja, mas somos esclarecidos por Ventura (o nome do autor é uma feliz coincidência) de que o primeiro consiste no medo de se perder algo ou alguém para outrem, enquanto a segunda se compraz em que o outro perca o que tem, mesmo que ninguém mais o possa ter. Percebem o horror? Se um pode estar ligado à insegurança, a outra parece resvalar em maldade pura.
Invejosos passam a vida a “secar” o jardim do vizinho. Não contentes em copiar falas e gestos, logo estão a desejar que aquele a quem copiam desapareça. Se isso acontecer, continuarão, porém, infelizes e ávidos de encontrar rapidamente outro alvo para sua fúria silenciosa, diferente da dos iracundos e que pode ter início com uma devoção enganadora.
O que poderia deter a sanha da inveja? No filme Seven (Os sete pecados capitais), do diretor David Fincher, temos uma visão extremada de seus efeitos: a inveja do assassino, travestida de moralidade, é a propulsora da série de crimes que culmina com a ira do pouco heroico mocinho. Normalmente – e felizmente –, porém, ela não termina num banho de sangue.
De qualquer modo, aquela roupa que você adora e que foi insistentemente elogiada manchou na última lavagem? Seu par perfeito mostrou as asinhas depois de alguém ter comentado a felicidade do casal? Fique atento aos sinais – hoje, quando o consumo é exacerbado e atesta a “dignidade” do indivíduo, os invejosos se multiplicam. Não custa, portanto, durante as compras, adquirir também um olho grego e uma pimenteira bem grande...
28 de novembro de 2009
Um espetáculo popular
Somente Ariano Suassuna, do alto dos seus 82 anos, para me fazer vencer uma preguiça macunaímico-invernal e escrever umas palavrinhas.
Na última sexta, fui assistir à montagem da Farsa da boa preguiça, no Sesc Vila Mariana. Cenário lindo, colorido, xilogravuras aqui e ali, a famigerada rede num canto (lugar favorito de Joaquim Simão, o protagonista), o teatro de mamulengos ao centro. Ótimo elenco, especialmente Vilma Melo, que apresenta uma impagável performance de cabra, no sentido estrito do termo. Espetáculo com poucos hiatos dramáticos – uma e outra fala, pouquíssimas de fato, parecem sobrar no espaço, sem ter quem as apanhe e devolva.
Mas o público a tudo responde, com gosto. O gosto de sua brasilidade. Redescoberta, ainda dessa vez, por Suassuna. Porque já não se trata de uma “nordestinidade” pura e simples, e sim do legado português trazido a nós nos estertores medievais, fundido com o de índios, negros e outros tantos pós-chegados. Que se mantém quase intacto nos temas costumeiros: a luta entre Deus e o diabo, o pobre e o rico, a esperteza e a prepotência, a humildade e a ganância e, por que não?, a preguiça criativa e o trabalho escravizante...
Porém, a preguiça do poeta/artista/herói brasileiro, já cantada e sempre criticada (o mais das vezes pelos próprios brasileiros), parece só se tornar qualidade quando renomeada de “ócio criativo”, de preferência por um autor estranja (absolutamente nada contra De Masi, per favore!).
Que será essa nossa resistência a valorizar a criatividade, tantas vezes confundida com um tal “jeitinho brasileiro” (isto sim, uma invenção nefasta)? Talvez porque a criatividade exija muito mais, extenue, angustie muito mais do que o trabalho do autômato? Porque ter sucesso como tarefeiro seja mais fácil, menos sujeito a subjetividades? Tudo pode ser.
De todo jeito, bom mesmo é ver uma plateia inteira se desarmar de possíveis preconceitos, rir à larga, tornar-se toda ela um povo – o brasileiro: criativo, alegre, multicultural, multicolor, multirregional – por um momento. Esse espetáculo já contentaria mestre Suassuna.
5 de julho de 2009
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