sexta-feira, 9 de março de 2018

Eles merecem (?)

Dia desses, fomos almoçar com um casal de amigos e, claro, falamos muito de comida. Num dado instante, o rapaz disse que faria um comentário "aparentemente" sexista. Na verdade, foi escancaradamente sexista, ou pior, machista mesmo. Ele, com apoio da esposa, afirmou que os homens cozinham melhor que as mulheres - que um amigo deles, quando se decidiu a cozinhar, deixou a mulher "no chinelo", porque "quando um homem resolve fazer uma coisa, já viu".
Bom. Na hora, nem respondi. Levei aquela reflexão para casa, coisa que, acredito, ele, o proponente da questão, deveria fazer também. E às vésperas do tal Dia da Mulher fui ajudada na minha reflexão por muita gente reclamando dessa meritocracia masculina, completamente facilitada pelas jornadas múltiplas de trabalho feminino.
Um homem pode se dedicar a ser chef, profissional ou não, curtir esse glamour porque há certamente uma MULHER em algum lugar cuidando das questões comezinhas da vida DELE. A empregada, a mãe, a mulher, a namorada, a secretária, a amiga, a ficante, a irmã, a tia, a avó, até a sogra. Já a mulher tem normalmente que trabalhar fora, trabalhar dentro e ainda cuidar da rotina de outrem, inclusive filho, marido, namorado etc. etc. Fica fácil brilhar, não?
Talvez cozinhar não tenha nada a ver com gênero. Mas tem a ver, como quase tudo, com equanimidade de condições. Os números só confirmam a desigualdade de gênero quanto a quem merece ou não ser bom/boa chef ou qualquer outro/a profissional: enquanto as mulheres gastam 18 horas de seu dia com demandas diversas (as jornadas múltiplas), os homens gastam 10. Não preciso nem comentar a respeito da desigualdade salarial entre homens e mulheres, terra tão pisada.
No caso da atividade gastronômica, podemos ainda aventar a hipótese de os homens se adaptarem melhor a um ambiente culturalmente agressivo, inclusive porque dominado por eles. Mas eu prefiro a hipótese das luzes da ribalta: por que me esmerar no interior doméstico se posso brilhar para o grande público? Michael Pollan, em Cozinhar: uma história natural da transformação, define o churrasco como uma ação masculina, apolínea (dirigida), e o cozido como algo feminino, dionisíaco (caótico). Citando Lévi-Strauss, ele fala das diferenças entre cozinhar "para fora" (caso do churrasco, uma comida que remete à "morte", ao sacrifício primevo) e "para dentro" (caso do cozido, comida geradora de "vida", agregadora de ingredientes e de pessoas em torno dela, um verdadeiro cabaré de asas). Ou seja, desde sempre cozinhar foi sinônimo para o público masculino de ser pop e de ter o controle .
Assim é que ainda hoje, porque tanta coisa não mudou, as luzes vão para eles. Merecem? No dia em que iguais condições de vida forem dadas a todas as pessoas, e ainda assim eles tiverem se destacado, por suas qualidades pessoais, e não por serem homens, poderemos dizer que sim.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

As solidões

Minha amiga Eliane postou no FB uma entrevista dada pela escritora britânica Olivia Laing ao El País. Eu não conhecia Laing, mas gostei da temática sobre a qual ela tem escrito, a solidão. Fui atrás do livro outro dia (A cidade solitária: aventuras na arte de estar sozinho, da Anfiteatro, um selo da Rocco), e realmente é uma delícia a forma como ela articula a discussão sobre a solidão como fenômeno urbano com a obra de alguns artistas da literatura e das artes plásticas.
Mais que isso, Olivia Laing fala sobre as diversas solidões, o sentimento de se sentir sozinho mesmo em meio a muitas pessoas, o viver sozinho e não se sentir solitário, a solitude urbana.
Uma vez, conversando com Eliane sobre um novo relacionamento, ela comentou sobre o que lhe parecia ser minha solidão contínua, que naquele momento poderia ter fim. Aquilo soou um pouco estranho aos meus ouvidos, porque eu não me sentia solitária, mas logo entendi: ela aludia ao fato de eu ter vivido sozinha (mesmo estando em eventuais relacionamentos) por muitos anos, o que não significava, para mim, sofrer com a solidão. Na verdade, temo menos a solidão que a invasão.
Eu me senti sozinha algumas vezes, principalmente em momentos mais difíceis. Mas nunca me vi como uma pessoa solitária. Aprendi a gostar da minha companhia, gosto da liberdade que estar sozinha proporciona (embora, sendo eu mulher, ela tenha seus senões) e sempre cultivei as amizades. Posso dizer que experimentei quase todas essas solidões a que Olivia Laing se refere, umas mais, outras menos. Não me lembro, por exemplo, de alguma vez ter me sentido oprimida no meio da multidão, mas me fez falta conhecer meus vizinhos quando, certa ocasião, um ladrão invadiu o prédio onde eu morava - o terror que senti certamente seria aplacado se eu não estivesse sozinha. A união nos torna fortes, disso não há nenhuma dúvida. Ao fim de alguns relacionamentos, tive a sensação mais de abandono que de solidão, que realmente senti quando fui morar sozinha; foi quando veio aquela consciência súbita, agora sim, estou só, aqui, deitada no sofá-cama no meio desta sala ainda sem cortinas. Mas lidei com isso melhor do que esperava, claro que contando com o apoio de amigos, que logo vieram povoar qualquer vazio.
Via de regra, porém, aprecio os momentos de estar só comigo mesma. Indagar-me se está tudo bem, se o caminho que está sendo seguido é do meu agrado, se falta algo. Só para mim mesma posso admitir, perguntar e responder certas coisas. Posso simplesmente ficar em silêncio - o maior sinal de intimidade que há, no final das contas.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Como é belo e nada fácil ouvir!

Assistimos, outro dia, ao filme Os Meyerowitz: família não se escolhe, produção Netflix com Dustin Hoffman, Ben Stiller, Adam Sandler e Emma Thompson. O início nos deixa tontos, com as falas desencontradas das personagens, que ainda por cima falam de arte como se todo mundo entendesse do assunto - mas logo entramos no ritmo já que isso é tão somente a maneira como as pessoas se comunicam hoje: desencontradamente, aos borbotões, aos solilóquios, sem preocupação nenhuma com quem recebe as rajadas falatórias.
Eu sempre falei muito. Gosto de falar, acho que falo bem, curto um palquinho. Mas também gostava de convencer, de discutir, ou achava que gostava. No fundo, isso me tirava a energia. Meus irmãos mais novos sofreram com essa minha falação convencedora, que não dá espaço para o que o outro tem a dizer, por mais estapafúrdio que nos pareça. Um dia, tive um clique e parei para ouvir mais. É um exercício de concentração também, de estar presente para o outro. Não necessariamente concordo com o que ouço, simplesmente ouço. E vejo como isso é cada vez mais raro, alguém que ouça, que permaneça ali.
No dia a dia, fico cansada só de testemunhar as tentativas de convencimento mútuo, normalmente sem qualquer momento de "audição". As pessoas falam cada vez mais alto com o intuito de calar seu "oponente" (não mais um interlocutor). Dali a pouco, a conversa vira discussão, uma coisa tão sem pé nem cabeça que os falantes nem se lembram mais o que defendem/atacam. É muito chato. Imagino quanta gente já sofreu comigo (embora eu não me lembre de chegar aos gritos numa conversa).
A forma mais simples de encerrar uma discussão ou nem começá-la (pensando em discussão como essa conversa aos brados, e não como debate e troca de ideias) é justamente o silêncio. Ouvir. Porque, embora pareça uma atitude submissa, é uma ação muito pontual, agraciadora para quem a recebe. Quem é ouvido sente-se grato, e nem sabe por quê.
Até mesmo para os casos críticos de faladores bizarros, que pregam a intolerância em suas vertentes diversas, creio que o melhor também seja o silêncio, neste caso usado como arma política, ignorando o que dizem para que suas palavras doentias não ressoem ainda mais, mas agindo para que aquilo que pregam não ganhe força.
Por gentileza ou por protesto, o silêncio é mesmo uma dádiva em dias tão ruidosos.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Cansaços

Cansaços há de todo tipo, para todo gosto. Desde preguiça, que não é bem um cansaço, ao pessoano cansaço de existir. Cansamos de situações, pessoas, empregos, comidas, atividades físicas, rotinas. Cansamos, mas normalmente resistimos. A questão mais importante é saber até quando resistir para não desabarmos por completo, de modo irremediável - até nome há para esse ponto do qual não se volta no trabalho, a Síndrome de Burnout, tão bem representada pelo palito de fósforo queimado.
Acho que nunca estive tão cansada. Ao cansaço natural do trabalho intenso sem férias há quase 3 anos, veio juntar-se o cansaço mental das demandas domésticas diárias. Nunca tinha pensado a respeito desse tipo de cansaço, porque estava tão internalizado em mim organizar tarefas que.
Um quadrinho da francesa Emma veio só confirmar a causa de o meu cansaço mental e o de quase todas as mulheres ser tão profundo. Na verdade, eu sempre cuidei apenas das minhas demandas. Hoje, penso automaticamente em todas as demandas da casa, além das minhas e das do meu marido. Se falta algo em casa ou se é preciso fazer qualquer modificação, a ideia é simplesmente jogada no ar, pressupondo-se que eu vou resolvê-la. Parte da culpa é minha, é claro, por tomar a demanda para mim. Mas a outra parte é feita daquela frase tão ouvida em todo lugar: "era só pedir". Só que não.
Entonces, esse cansaço mental triplicado só vem pesar ainda mais sobre o cansaço com o trabalho. E aí acontecem os furos, os esquecimentos, a atrapalhação geral. O questionamento com o que estou fazendo de fato da minha vida e da minha vida profissional. É o que quero? Faço porque gosto, porque simplesmente "aconteceu" ou faço porque preciso pagar as contas?
Quando houve o evento sobre autoestima promovido pelo estúdio de pilates, uma das perguntas feitas pela palestrante era "em qual o momento você se sentiu feliz por ter conquistado algo?". Todas as coisas em que pensei estavam ligadas ao conhecimento, mas sempre como algo dinâmico, em construção, com troca constante - criativo. Não como conferência automática de conteúdo.
É nesse sentido que esses diferentes cansaços se somam e se retroalimentam, levando a um quase completo esgotamento. A única solução que vejo é sair dessa espiral.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Estrangeira

Filha e neta de nordestinos que sou, sempre me incomodei com as "brincadeiras" voltadas aos nordestinos, especialmente aos baianos - o que não quer dizer que eu não as tenha feito, quando criança, seguindo a onda dos amiguinhos, embora com um remorso lá no fundo.
Em São Paulo, o estado com maior número de baianos fora da Bahia e maior número de nordestinos do país, isso é e sempre foi corriqueiro. Baiano é sinônimo de nordestino, baianada é sinônimo de burrice, de barbeiragem. Por extensão, todo nordestino seria afeito a barbeiragens. Não bastasse o horror, a indecência de se dizer isso de toda e qualquer pessoa, seja quem for e de onde for, ainda por cima é uma afirmação injusta com quem trabalha muito, muitas vezes de sol a sol, muitas vezes em condições precárias e exploratórias. Como todo e qualquer preconceito, não faz nenhum sentido. Ou melhor, é, em si, como todo e qualquer preconceito, um exemplo de barbeiragem, de falta de destreza e inteligência.
Aí eu me mudei para a Bahia. De cara, houve duas reações à minha chegada: a gozação por eu ser paulista (sinônimo de ser caipira, não descolado, ou fresco, metido, de só viver para o trabalho ou sempre reclamando de tudo) e uma autocrítica baiana antecipada (antes que a paulista metida criticasse os costumes locais, os próprios baianos faziam isso). Ambas as reações, nada agradáveis. A primeira foi se tornando menos comum, mas a segunda persiste, o que me entristece.
Pela primeira vez, estive do lado de quem é julgado por sua suposta cultura, claro que sem o mesmo peso dos nordestinos fora de seus estados. Porque, de qualquer modo, embora "paulista", eu sou branca (um pouco amarela, é verdade) numa terra de maioria negra e parda. Aqui as divisões étnico-econômicas são muito evidentes. Quem "serve" é normalmente negro ou pardo. Também não vejo muita diversidade nas relações - lembro como me surpreendi ao conhecer os amigos do marido: todos brancos, altos, bonitos, hetero e bem nutridos. Eu, que venho de uma cidade caótica e multicultural, que tenho amigos de toda cor, credo, formação, classe social, orientação sexual, fiquei um pouco espantada. Nunca tinha estado em um grupo tão homogêneo, a nata da sociedade soteropolitana.
Aqui e ali, vejo que agradaria às pessoas que eu me tornasse mais baiana, como uma aceitação plena do novo locus. Mas aceitar o novo locus e me encantar com ele não significa deixar de ser quem sou - brasileira, filha de nordestino e nissei, paulista.
O fato fatídico é que sou estrangeira, talvez sempre seja, apesar da minha facilidade de adequação às situações. Não acho isso nada ruim - por sê-lo é que posso perceber as nuances das relações, da cultura local, e me enternecer com situações como a de ir à Avenida Sete comprar coisas para casa e as vendedoras se despedirem de mim assim: "Tchau, meu amor. Vai com Deus". Coisa mais linda não há, e eu vejo, e sei, porque, vinda de fora, estou dentro.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Quase dois irmãos: merecimismo e meritocracia

Outro dia falei da meritocracia, essa falácia travestida de recompensa aos desvalidos esforçados. Hoje, li um texto da sempre ótima Eliane Brum sobre os filhos de classe média que, mesmo tão "preparados" materialmente para a vida, estão completamente despreparados para a vida. Tudo porque, segundo Brum, os pais os têm enganado com outra falácia, a de que merecem tudo. Assim, sem esforço, graciosamente, por uma suposta genialidade. Não lhes ensinam a lidar com a frustração, com a falta, com a raiva. Seria quase o oposto da meritocracia, se não provocasse males similares. Eu batizei esse mal irmão da meritocracia de merecimismo (se é que alguém já não o chamou assim).
Enquanto a meritocracia desvia a atenção de todos da desigualdade social, o merecimismo desvia o olhar dos problemas da vida real que podem acometer os mais abastados.
Tenho visto exemplos de merecimismo no cotidiano, tanto em jovens que fazem as coisas pela metade, numa espécie de dormência física, como em crianças que ficam transtornadas por não terem alguma coisa. A fonte do mal é a mesma: não terem aprendido com seus pais que nem sempre terão tudo à mão, que nem sempre haverá alguém que faça as coisas por eles. Quando caírem na real - o mundo e o contato com a diversidade, e as consequentes respostas não aprendidas em casa -, como vão reagir? Com raiva, batendo o pé? Alguns talvez sejam mais agressivos, recorram à violência; outros podem até entrar em depressão. O mais terrível é perceber que dentro dessa bolha criada em família conceitos como civilidade, liberdade e justiça são necessariamente distorcidos - por exemplo, não ser justo que o outro tenha e eu não, não por uma questão de injustiça social, mas porque o outro tem culpa na minha falta. Algo que beira o conceito de inveja, em que não quero que o outro tenha algo que não tenho, como se o fato de ele não ter abrandasse a minha falta. Claro: não abranda. E isso só cria mais amargura, mais inveja, mais violências, grandes e pequenas.
O filme Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, traz esses dois irmãos conceituais numa chave menos óbvia, mas possível: a menina pobre, filha da empregada, batalha por uma vaga na universidade pública, e vence. Por seu talento, por seu esforço, e também pelo esforço da mãe, que lhe garantiu condições mínimas para que estudasse, além de ter aprendido com um professor que ela não deveria se sentir inferior a ninguém. Já o filho da patroa, que teve acesso a tudo de melhor, não consegue seu lugar ao sol, e fica deprimido com a derrota inesperada, absurda. O que faz sua mãe? Dá a ele uma temporada no exterior, para fazer um curso livre em Harvard, por um ano. Não lhe ensina a lidar com a frustração - varre a malvada para debaixo do tapete. Na verdade, não ensina nada, oculta a verdade, não concede um pouco de luz ao filho - ela, que lhe deu à luz.
Sob as nuvens da meritocracia e do merecimismo, vivemos tempos sombrios.

sábado, 26 de novembro de 2016

Os deméritos da meritocracia

Uma vez, ouvi de uma moça que só encontrei uma vez que "para saber onde se quer chegar, é preciso não esquecer de onde se vem". Me identifiquei muito com aquilo. Afinal, todo dia me lembro o quanto batalhei para ser quem sou - muito embora essa batalha tenha sempre parecido muito natural. Eu sabia, desde muito nova, que ficar esperando não me traria nada. Sempre fui atrás do que queria, sobretudo do conhecimento, que foi o que me levou mais longe sempre. Não teria feito nada diferente.
No entanto, tenho consciência de que teria sido mais difícil se eu não tivesse sido criada entre livros, se não tivesse tido apoio dos meus avós, se minha mãe não empregasse seus esforços na nossa educação. Se, além de pobre, eu fosse negra, com certeza tudo teria sido mais árduo. Quer dizer: não bastaria minha vontade para eu "merecer" minhas vitórias.
Não faz muito tempo que conheci o significado da palavra meritocracia. Para os incautos, seria o termo mais adequado para descrever minha trajetória. (Alguém pode objetar, e lembrar que não me tornei nenhuma milionária, nem ganhei prêmios no exterior por alguma descoberta científica relevante. Mas acho que minha trajetória é vitoriosa - poderia ter me contentado a cursar qualquer coisa só para conseguir um trabalho, e então viver de pagar contas e ambicionar coisas caras; acabei optando por ter um conhecimento de qualidade, que não cessa de crescer, para ficar só na esfera das "riquezas".)
Eu quase acreditei por um momento que a meritocracia era um bom verbete, que daria conta de tratar da superação, do autoconhecimento etc. Aí percebi que era uma falácia, uma forma de os poderosos afirmarem que o problema não é a desigualdade social, mas a preguiça da maioria em sacudir a poeira e partir pra conquista dos seus sonhos, como se isso em si bastasse, como se não fosse necessário dar oportunidades iguais a todos. Desse modo, o problema é transferido para os indivíduos, para sua incompetência, retirando do Estado a responsabilidade de garantir o bem-estar social a todas as pessoas. Somente alguns poucos não privilegiados conquistam algo melhor porque são poucos os que de fato correm atrás, que "merecem" chegar lá.
Trata-se de uma armadilha pérfida do neoliberalismo. Já vi muita gente boa acreditando nisso, que basta a iniciativa individual para alguém ascender socialmente. Sem condições equânimes de estudo e trabalho (para não mencionar o bem-estar familiar, a alimentação saudável etc.), é quase um milagre o sujeito pobre, negro, nordestino, mulher, homossexual se destacar. Também acaba sendo uma forma de se encerrarem os desagradáveis debates sobre a desigualdade. Quem não conseguiu, é porque se esforçou pouco, ora essa!
E assim alimenta-se uma sociedade ainda mais rancorosa, desigual, improdutiva. Quem falhou, não cobra do Estado melhores condições de vida - limita-se a invejar quem as possui. Quem as possui, olha com arrogância para os desvalidos. Aumenta a violência, cresce a necessidade de consumo de todo lado, para quem quer continuar sendo cidadão "diferenciado" e para quem quer se tornar "cidadão" aos olhos do outro.
Com o domínio da meritocracia no imaginário geral, cada vez mais vemos a democracia se distanciar.