Vivemos um tempo de enormes contradições. OK, é um chavão, todas as épocas têm as suas, mas ESTA em especial (porque é a que vivo, porque é a que observo num instante mais introspectivo da vida? ninguém saberá jamais!) me espanta de verdade. As pessoas parecem mais loucas, agressivas, dizem e fazem o que querem, pouco importando o outro. Olhou feio, alguém pode jogar gasolina e atear fogo em você. Por outro lado, está na moda a busca da felicidade. Talvez quem busque a felicidade esteja principalmente fugindo dos loucos agressivos que pululam aos montes, inclusive os que habitam potencialmente em cada um.
Só para ilustrar: um professor de ética foi aplaudido de pé no Jô ao falar dessa busca; ela foi tema de Globo Repórter; a nova novela das sete, que segue a fórmula de Lost, também trata do tema. É matéria de revista gente mudando de vida, de rico financista ou advogado ou empresário para morador de uma casa no campo.
Eu, pessoalmente, acho o tema apropriado e fascinante. O tipo de coisa que não deveria nunca sair de moda. Sempre me vi seguindo essa "tendência", mesmo de uma forma destrambelhada. Fui percebendo que o que importava era a bagagem que eu levava comigo - nunca importaria o lugar, se eu estivesse bem comigo mesma. E a entrevista do Clóvis de Barros Filho, o tal professor que foi ao Jô, veio temperar mais essa percepção: mesmo sem chegar a nenhuma conclusão, pois não existe mesmo, ele disse que a felicidade está nos momentos que gostaríamos que não acabassem nunca. Ele deu o próprio exemplo, de como se sente pleno na sala de aula.
Fiquei pensando nas coisas que me trazem plenitude e nos momentos que não gostaria que tivessem fim. Para mim não são sempre a mesma coisa - há aquilo que de alguma forma pode se repetir (normalmente que depende só de mim, talvez como a sensação na sala de aula de Clóvis de Barros) e me faz feliz, há os instantes incontroláveis - e felizes. Para mim (e eu concordo com o professor de que para cada um é de um jeito, um único jeito, intransferível), a mágica está em ficar com os sentidos alertas e fruir cada um desses diferentes momentos, todos plenos da graça que é viver. Talvez a busca chegue ao fim exatamente quando se decida viver.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Poetientendendo
Sempre fui mais da prosa que da poesia, e acho que sei por quê: meu poder de síntese é parco, sou mais das longas análises que dos silêncios ensurdecedores nas entrelinhas. Mas fico emudecida diante de um bom poema, de um verso carregado de sentidos.
Esses dias me voltou como um bumerangue a "Canção excêntrica" de Cecília Meireles. Publiquei no FB. E aí fiquei com os versos pendurados na mente, nos lábios, nas mãos, especialmente esses:
"Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida."
Penso que é porque eles mostram a dificuldade do desapego, do fazer o que deve ser feito, de simplesmente seguir em frente. Isso porque me pego negaceando em meus passos, hesitando aqui e ali. E mesmo sabendo que só há jeito de seguir, prosseguir, ir, ainda caminho como quem borda o ponto-atrás - avançando um ponto-passo, retrocedendo meio ponto, meio passo. Ainda que isso seja só em pensamento, em um ligeiro temor diante do inevitável futuro.
Mas sigo - abro o abraço, me despeço do ontem, retomo os passos e sigo.
Esses dias me voltou como um bumerangue a "Canção excêntrica" de Cecília Meireles. Publiquei no FB. E aí fiquei com os versos pendurados na mente, nos lábios, nas mãos, especialmente esses:
"Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida."
Penso que é porque eles mostram a dificuldade do desapego, do fazer o que deve ser feito, de simplesmente seguir em frente. Isso porque me pego negaceando em meus passos, hesitando aqui e ali. E mesmo sabendo que só há jeito de seguir, prosseguir, ir, ainda caminho como quem borda o ponto-atrás - avançando um ponto-passo, retrocedendo meio ponto, meio passo. Ainda que isso seja só em pensamento, em um ligeiro temor diante do inevitável futuro.
Mas sigo - abro o abraço, me despeço do ontem, retomo os passos e sigo.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Peripateticamente
Que eu me lembre, desde criança sempre fui do agito. Minha avó dizia que eu não andava, corria. Cheguei a perder alguns dentes de leite correndo e me estabacando. Para não falar de algumas cicatrizes que vieram com as quedas.
A idade faz a gente tentar se conter, falar mais devagar, pensar com mais calma, calar mais vezes. O que é ótimo, porque nos torna mais consequentes e conscientes de nossas ações e escolhas.
Mas eu continuo precisando do movimento para viver. Pra facilitar, meus principais signos astrológicos (Sol, ascendente, Lua) são cardinais, os que precipitam a ação. Sei que tem gente que precisa ficar quietinha num canto pensando sobre o que fazer, qual o próximo passo a dar (e juro, estou aprendendo a respeitar esse outro ritmo). Eu fico algum tempo assim, quieta, penso, choro, rumino, reflito, mas logo percebo que tenho de colocar algo em movimento. Antes eu achava que era apenas a mim mesma que eu movimentava; agora percebo que é a vida. Porque vi que na minha vida as coisas assim se dão: mais faço, mais acontece; nada faço, nada acontece. Ação e reação.
Claro que hoje tento não "agir por agir", fugindo assim à reflexão essencial que as crises trazem. No entanto, mesmo quando estou arrastando os pés presos a bolas-de-ferro-de-tristeza, procuro prosseguir com aquilo que me faz bem, além de redobrar o foco no trabalho. E percebo como a tristeza, mas não a reflexão, vai se esvaindo aos poucos. E de repente coisas alegres surgem na minha frente, possibilidades mil, a chance - imediatamente agarrada - de realizar antigos sonhos. As questões da vida repentinamente se iluminam de sol. A tristeza pode estar ali, mas faz tanto, tanto sol que ela se encolhe num cantinho, com seus óculos escuros de viúva triste.
Um dia desses, li um texto sobre faxina emocional, tema que tem me interessado em particular. E de novo, lá estava essa imagem do movimento necessário - o processo psicanalítico era comparado a caminhar pelo inferno (como também me lembra meu terapeuta): de preferência não apenas em círculos, sem sair do lugar, embora, como o autor bem lembrou, a imagem infernal tradicional seja circular (e viva Dante por seus insights).
Pensar nisso tudo (porque a mente também não para) me fez lembrar de Aristóteles, o discípulo de Platão. Com todo respeito que tenho pela alegoria da caverna, pelo mundo ideal e coisa e tal, acho que, tivesse eu vivido na Grécia antiga e o contexto não fosse de total misoginia, seria da turma dos peripatéticos. Sairia com eles caminhando e aprendendo à medida que caminhava, com as acaloradas e ricas discussões entre nós. Contudo, acho que em pouco tempo arrumaria minha malinha e sairia andando, aprendendo/apreendendo outras paragens, além-Grécia, além de mim.
A idade faz a gente tentar se conter, falar mais devagar, pensar com mais calma, calar mais vezes. O que é ótimo, porque nos torna mais consequentes e conscientes de nossas ações e escolhas.
Mas eu continuo precisando do movimento para viver. Pra facilitar, meus principais signos astrológicos (Sol, ascendente, Lua) são cardinais, os que precipitam a ação. Sei que tem gente que precisa ficar quietinha num canto pensando sobre o que fazer, qual o próximo passo a dar (e juro, estou aprendendo a respeitar esse outro ritmo). Eu fico algum tempo assim, quieta, penso, choro, rumino, reflito, mas logo percebo que tenho de colocar algo em movimento. Antes eu achava que era apenas a mim mesma que eu movimentava; agora percebo que é a vida. Porque vi que na minha vida as coisas assim se dão: mais faço, mais acontece; nada faço, nada acontece. Ação e reação.
Claro que hoje tento não "agir por agir", fugindo assim à reflexão essencial que as crises trazem. No entanto, mesmo quando estou arrastando os pés presos a bolas-de-ferro-de-tristeza, procuro prosseguir com aquilo que me faz bem, além de redobrar o foco no trabalho. E percebo como a tristeza, mas não a reflexão, vai se esvaindo aos poucos. E de repente coisas alegres surgem na minha frente, possibilidades mil, a chance - imediatamente agarrada - de realizar antigos sonhos. As questões da vida repentinamente se iluminam de sol. A tristeza pode estar ali, mas faz tanto, tanto sol que ela se encolhe num cantinho, com seus óculos escuros de viúva triste.
Um dia desses, li um texto sobre faxina emocional, tema que tem me interessado em particular. E de novo, lá estava essa imagem do movimento necessário - o processo psicanalítico era comparado a caminhar pelo inferno (como também me lembra meu terapeuta): de preferência não apenas em círculos, sem sair do lugar, embora, como o autor bem lembrou, a imagem infernal tradicional seja circular (e viva Dante por seus insights).
Pensar nisso tudo (porque a mente também não para) me fez lembrar de Aristóteles, o discípulo de Platão. Com todo respeito que tenho pela alegoria da caverna, pelo mundo ideal e coisa e tal, acho que, tivesse eu vivido na Grécia antiga e o contexto não fosse de total misoginia, seria da turma dos peripatéticos. Sairia com eles caminhando e aprendendo à medida que caminhava, com as acaloradas e ricas discussões entre nós. Contudo, acho que em pouco tempo arrumaria minha malinha e sairia andando, aprendendo/apreendendo outras paragens, além-Grécia, além de mim.
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domingo, 20 de outubro de 2013
A música épica da Esperança
Este blog estava meio abandonado, depois de alguma (muita) tristura. Talvez por coerência: nada estava soando aqui dentro, tudo um grande silêncio, só ecos de passos arrastados num corredor escuro e antigo.
Aí escrevi sobre o aniversário de 80 anos dos queridos pais de uma amiga querida, no Nem guerê nem pipoca, e também sobre seu amor longevo. Uma amiga, a Simone Adami, a quem enviei o link, leu o texto e escreveu no Facebook um outro, maravilhoso, sobre o amor e outros bichos. E disse ainda que lendo ESTE blog aqui se viu querendo voltar a ser, e não apenas a soar.
Puxa, são gentilezas assim que me fazem pensar nesse poema de Quintana, tão conhecido da época do trabalho no cursinho:
Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Coisas assim, palavras assim me trazem à mente a imagem da humanidade como um intrincado conjunto de címbalos, tocando uns aos outros, fazendo soar uma grandiosa, enorme melodia. Soam e ressoam no íntimo, fazendo brilhar ali a luzinha dos olhos verdes da Esperança, oculta sim, mas viva, viva.
Aí escrevi sobre o aniversário de 80 anos dos queridos pais de uma amiga querida, no Nem guerê nem pipoca, e também sobre seu amor longevo. Uma amiga, a Simone Adami, a quem enviei o link, leu o texto e escreveu no Facebook um outro, maravilhoso, sobre o amor e outros bichos. E disse ainda que lendo ESTE blog aqui se viu querendo voltar a ser, e não apenas a soar.
Puxa, são gentilezas assim que me fazem pensar nesse poema de Quintana, tão conhecido da época do trabalho no cursinho:
Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Coisas assim, palavras assim me trazem à mente a imagem da humanidade como um intrincado conjunto de címbalos, tocando uns aos outros, fazendo soar uma grandiosa, enorme melodia. Soam e ressoam no íntimo, fazendo brilhar ali a luzinha dos olhos verdes da Esperança, oculta sim, mas viva, viva.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Benesses da amnésia
"Não lembro". Duas vezes essa frase no mesmo dia, e um horrível déjà vu, uma outra cena também ligada a um estado alterado de consciência (mas daquela vez com imprecações em público - terá sido por isso o retorno misterioso do ex? uma indubitável sincronicidade?).
O que alegar quando não se lembra de algo? A amnésia garante inimputabilidade?
Da pessoa que eu julgava minha amiga, li isso: "Não lembro, estava tão bêbada que perdi a consciência. Se fiz algo, peço desculpas". Simples assim.
Interessante que mesmo com a falta de memória eu não tenha ouvido/lido nada do tipo "Imagine! Impossível!". A resposta veio prontamente: "não lembro".
Neste exato momento bem que eu gostaria de ser abençoada por toda essa amnésia.
O que alegar quando não se lembra de algo? A amnésia garante inimputabilidade?
Da pessoa que eu julgava minha amiga, li isso: "Não lembro, estava tão bêbada que perdi a consciência. Se fiz algo, peço desculpas". Simples assim.
Interessante que mesmo com a falta de memória eu não tenha ouvido/lido nada do tipo "Imagine! Impossível!". A resposta veio prontamente: "não lembro".
Neste exato momento bem que eu gostaria de ser abençoada por toda essa amnésia.
domingo, 25 de agosto de 2013
A cidade que habita em mim
Sou fã de carteirinha do Ivan Martins, editor que assina uma coluna semanal na Época, desde o primeiro texto que li, num momento crucial, daqueles de querer sair gritando e saber que ninguém vai ouvir. Era como se em vez de me ouvir aquele sujeito tivesse algo a me dizer, uma mensagem a entregar, escrita por alguém que entendia perfeitamente como eu estava me sentindo. Desde então, leio sua coluna toda santa quarta-feira.
Na última quarta, ele fez uma comparação lírica e pertinente entre pessoas e cidades. Dizia que cada pessoa é uma cidade, ou pode ser só um deserto varrido pelo vento, e que cabe a nós (também cidades repletas de peculiaridades) explorar esses territórios mais ou menos cheios de mistério.
Gosto dessa imagem. Também porque gosto do tema cidade, mas principalmente porque entendo bem o que é andar por desertos estéreis ou por ruelas suspeitas e escuras, e bem há pouco por uma paisagem que começa com casinhas coloridas e depois se descortina em planícies, montanhas e rios que parecem não ter fim. Às vezes acontece de na minha própria cidadela soprar um vento inesperado e indesejado (um passado sibilante querendo voltar). Outras vezes, a paisagem à minha frente, a que quero desbravar, se acinzenta, emudece (até os pássaros se calam), se esvazia. Somem as pontes e surgem muros sabe-se lá de onde. Por algum tempo fica assim, e então me sento à entrada esperando ser novamente bem-vinda...
Paisagens vivas, cidades cheias de histórias, belezas, solidões e segredos, é isso mesmo o que somos.
Na última quarta, ele fez uma comparação lírica e pertinente entre pessoas e cidades. Dizia que cada pessoa é uma cidade, ou pode ser só um deserto varrido pelo vento, e que cabe a nós (também cidades repletas de peculiaridades) explorar esses territórios mais ou menos cheios de mistério.
Gosto dessa imagem. Também porque gosto do tema cidade, mas principalmente porque entendo bem o que é andar por desertos estéreis ou por ruelas suspeitas e escuras, e bem há pouco por uma paisagem que começa com casinhas coloridas e depois se descortina em planícies, montanhas e rios que parecem não ter fim. Às vezes acontece de na minha própria cidadela soprar um vento inesperado e indesejado (um passado sibilante querendo voltar). Outras vezes, a paisagem à minha frente, a que quero desbravar, se acinzenta, emudece (até os pássaros se calam), se esvazia. Somem as pontes e surgem muros sabe-se lá de onde. Por algum tempo fica assim, e então me sento à entrada esperando ser novamente bem-vinda...
Paisagens vivas, cidades cheias de histórias, belezas, solidões e segredos, é isso mesmo o que somos.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Pretinho básico, ou Olha como sou legal!
Com essa história de terapia, vou tendo vários insights, alguns tardios, mas fazer o quê? Antes tarde, não é isso? Antes aos 40 do que nunca.
Um desses insights foi sobre o pretinho básico, aquele vestido que toda mulher TEM que ter. De fato, é muito prático ter um no guarda-roupa. Eu me rendi a isso bem recentemente, pois sempre tive muita dificuldade em resistir aos vestidos cheios de cores e estampas. Afinal de contas, um pretinho básico nos deixa adequadas a qualquer ocasião. Basta acrescentar o acessório certo, o sapato correto, et voilà, as portas se abrem (ou, pelo menos, não se fecham).
Mas o fato é que os pretinhos básicos uma hora se vão, de tão usados em todas as ocasiões que pedem atitudes discretas e adequadas. E quando saio para comprar outro, acabo voltando com um... pouco básico. Pode até ser preto (cor que, aliás, adoro), mas sempre terá um detalhe que não o deixará combinar com tudo.
E cadê o tal insight? Ah, sim: um dia desses, estava arrumando o guarda-roupa, verificando se havia algum vestido que deveria doar. Então me dei conta de que não tinha nenhum pretinho básico, que todos os subsistentes eram mais ou menos coloridos. Cheguei a cogitar que precisava de um novo vestido preto, bem "normal", mesmo que a ideia não me parecesse tão animadora. E pensei em seguida como muitas vezes nos forçamos a encarar algo que não nos apetece para nos sentirmos apropriadas, aceitas.
Quantas vezes nos transformamos num modelo básico de comportamento para agradar à maioria das pessoas? Acabamos nos tornando nós mesmas um pretinho básico que se adorna com o acessório correto para cada ocasião - para não fazer feio, não escandalizar, não provocar comentários. Em suma: para passar batido. Não incomodar.
Embora eu prefira as estampas e cores, já me peguei muitas vezes me adaptando demais a situações e pessoas. Aceitando/engolindo falas e condições absurdas de parceiros, fazendo coisas para agradar ao mesmo tempo que rangia os dentes. Como se estivesse dentro de um vestido que me constrangesse (como as roupas que às vezes herdava dos irmãos mais velhos, oh God!), ou com sapatos muito apertados. O mais maluco é como essa situação incomoda e como é difícil nos livrarmos dela. É angustiante saber o que se deve fazer e se sentir impotente para fazer. A alma está sendo torturada, e a mente (ou o ego, ou o animus, ou a persona, ou as convenções, sabe-se lá) diz: aguente firme. Será que TEMOS que aguentar? E não estou nem pensando em mim, nos meus sapatos apertados, quando escrevo isso, mas em amigas que estão neste momento sendo esmagadas por uma situação, que sentem os ossos quebrando, mas ainda não conseguiram sair de baixo dos escombros. Tenho certeza de que conseguirão, que vão soltar um grito (exatamente como uma amicíssima fez) de basta, no meio da noite, para todo mundo (principalmente elas mesmas) ouvir.
Não por acaso, depois de um café com duas outras grandes amigas (já se vê que este post é para minhas amigas, e para as mulheres em geral), falando de tudo um pouco, mas principalmente sobre nossa condição feminina, uma delas compartilhou o pdf do livro Mulheres que correm com lobos (minha amiga que uivou pelo fim de sua situação já tinha falado dele há alguns anos, mas não me animei na época com o título piegas) da junguiana Clarice Pinkola Estes. Bom, o livro é mesmo um pouco piegas, e seu tom de autoajuda (muitas repetições, um certo didatismo, muitas metáforas) às vezes cansa um pouquinho. De qualquer modo, é MUITO pertinente a toda essa história de se ajustar para agradar, vestir uma pele que não é nossa, ou perder a pele até ficar ressequida, à mercê das intempéries e maus-tratos (como a história de uma mulher-foca contada pela autora).
Depois de alguns insights como esse, tenho me olhado com mais atenção no espelho (= alma) para ver o que me serve ou não. O que reflete o que sou, e não o contrário, para que não aconteça o que sucedeu à personagem Jacobina, de Machado de Assis. Provavelmente terei um pretinho pouco básico no guarda-roupa, provavelmente me acharão menos "legal" por não seguir as regras de comportamento. Mas certamente estarei mais feliz.
Um desses insights foi sobre o pretinho básico, aquele vestido que toda mulher TEM que ter. De fato, é muito prático ter um no guarda-roupa. Eu me rendi a isso bem recentemente, pois sempre tive muita dificuldade em resistir aos vestidos cheios de cores e estampas. Afinal de contas, um pretinho básico nos deixa adequadas a qualquer ocasião. Basta acrescentar o acessório certo, o sapato correto, et voilà, as portas se abrem (ou, pelo menos, não se fecham).
Mas o fato é que os pretinhos básicos uma hora se vão, de tão usados em todas as ocasiões que pedem atitudes discretas e adequadas. E quando saio para comprar outro, acabo voltando com um... pouco básico. Pode até ser preto (cor que, aliás, adoro), mas sempre terá um detalhe que não o deixará combinar com tudo.
E cadê o tal insight? Ah, sim: um dia desses, estava arrumando o guarda-roupa, verificando se havia algum vestido que deveria doar. Então me dei conta de que não tinha nenhum pretinho básico, que todos os subsistentes eram mais ou menos coloridos. Cheguei a cogitar que precisava de um novo vestido preto, bem "normal", mesmo que a ideia não me parecesse tão animadora. E pensei em seguida como muitas vezes nos forçamos a encarar algo que não nos apetece para nos sentirmos apropriadas, aceitas.
Quantas vezes nos transformamos num modelo básico de comportamento para agradar à maioria das pessoas? Acabamos nos tornando nós mesmas um pretinho básico que se adorna com o acessório correto para cada ocasião - para não fazer feio, não escandalizar, não provocar comentários. Em suma: para passar batido. Não incomodar.
Embora eu prefira as estampas e cores, já me peguei muitas vezes me adaptando demais a situações e pessoas. Aceitando/engolindo falas e condições absurdas de parceiros, fazendo coisas para agradar ao mesmo tempo que rangia os dentes. Como se estivesse dentro de um vestido que me constrangesse (como as roupas que às vezes herdava dos irmãos mais velhos, oh God!), ou com sapatos muito apertados. O mais maluco é como essa situação incomoda e como é difícil nos livrarmos dela. É angustiante saber o que se deve fazer e se sentir impotente para fazer. A alma está sendo torturada, e a mente (ou o ego, ou o animus, ou a persona, ou as convenções, sabe-se lá) diz: aguente firme. Será que TEMOS que aguentar? E não estou nem pensando em mim, nos meus sapatos apertados, quando escrevo isso, mas em amigas que estão neste momento sendo esmagadas por uma situação, que sentem os ossos quebrando, mas ainda não conseguiram sair de baixo dos escombros. Tenho certeza de que conseguirão, que vão soltar um grito (exatamente como uma amicíssima fez) de basta, no meio da noite, para todo mundo (principalmente elas mesmas) ouvir.
Não por acaso, depois de um café com duas outras grandes amigas (já se vê que este post é para minhas amigas, e para as mulheres em geral), falando de tudo um pouco, mas principalmente sobre nossa condição feminina, uma delas compartilhou o pdf do livro Mulheres que correm com lobos (minha amiga que uivou pelo fim de sua situação já tinha falado dele há alguns anos, mas não me animei na época com o título piegas) da junguiana Clarice Pinkola Estes. Bom, o livro é mesmo um pouco piegas, e seu tom de autoajuda (muitas repetições, um certo didatismo, muitas metáforas) às vezes cansa um pouquinho. De qualquer modo, é MUITO pertinente a toda essa história de se ajustar para agradar, vestir uma pele que não é nossa, ou perder a pele até ficar ressequida, à mercê das intempéries e maus-tratos (como a história de uma mulher-foca contada pela autora).
Depois de alguns insights como esse, tenho me olhado com mais atenção no espelho (= alma) para ver o que me serve ou não. O que reflete o que sou, e não o contrário, para que não aconteça o que sucedeu à personagem Jacobina, de Machado de Assis. Provavelmente terei um pretinho pouco básico no guarda-roupa, provavelmente me acharão menos "legal" por não seguir as regras de comportamento. Mas certamente estarei mais feliz.
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