Hoje é o quinto dia de greve dos metroviários de São Paulo, três dias antes do início da Copa do Mundo no Brasil. O Picolé de Chuchu disse que não negocia mais e anunciou a demissão de 60 funcionários (estranho é que não havia cogitado isso antes caso os funcionários não aceitassem a oferta "generosa" de reajuste do governo). Subiu nas tamanquinhas, mesmo sem mudar a expressão facial.
Parte da população critica os grevistas. Eu não. Acho a greve justa, um direito conquistado, próprio de países civilizados. Será que não é o nosso caso, a civilização? O problema é que o trabalhador brasileiro se habitua tão facilmente à exploração que não percebe que ele também tem direito de sair às ruas, protestar, exigir. Vi com enorme esperança as manifestações do ano passado, achava que elas evoluiriam de um ato "espontâneo" para algo pautado, pensado, organizado, amplo e justo. O que aconteceu é que acabaram se diluindo, e agora, quando os grevistas saem às ruas, são chamados de oportunistas, acusados de atrapalhar a vida dos outros trabalhadores.
De fato, é horrível ver na TV diaristas que demoram 4 horas para chegar ao trabalho ou à sua casa (por que será que são sempre elas as escolhidas para as entrevistas?). Mas uma greve precisa de ruído para ter efeito, ou então se torna alvo de chacota, como os movimentos do professorado brasileiro. Quem se importa com a educação? A quem afeta a paralisação dos professores? Claro que nós sabemos - mas é um problema para o "futuro", e nenhuma criança vai ser demitida pelos pais se faltar às aulas.
Os metroviários hoje quase alcançam o mesmo repúdio ao PT no que diz respeito ao males da sociedade. Ninguém pensa que o dinheiro desviado nas obras do metrô poderia muito bem pagar o que os grevistas pedem de reajuste. Ops, parece que houve uma amnésia quase generalizada!
Há poucos dias, tivemos outra greve, dos motoristas e cobradores de ônibus. Essa sim, pura bandalheira. Não foi organizada como a dos metroviários, que inclusive deixaram de fazer a sua para não lançar São Paulo num caos ainda maior. A paralisação dos ônibus, promovida por uma facção do sindicato correspondente, me fez lembrar os ataques do PCC em 2006. Algo do tipo: "vamos mostrar quem é que manda".
Tive a oportunidade de presenciar as famosas manifes francesas quando estive em Paris. Fiquei emocionada. Claro que pode haver confusão, pessoas deixam de ter acesso aos serviços etc. Mas o que mais me chamou a atenção foi a compreensão da maioria das pessoas com relação ao fato da reivindicação por um direito. Isso é democracia.
Enquanto cada brasileiro pensar somente no seu quadrado (que muitas vezes nem é um quadrado "próprio"), o gigante vai continuar deitado em berço cada vez menos esplêndido, pilhado que é pelos verdadeiros oportunistas de tocaia.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
terça-feira, 27 de maio de 2014
Da autoimagem
A maneira como vemos a nós mesmos faz toda diferença. A tal da "atitude". Mas às vezes assusta como as pessoas nos veem.
Um dia desses, um ex-namorado, que tinha já me assuntado no Facebook, resolveu voltar à carga com a história de nos encontrarmos pra tomar uma cerveja. Para não ser grosseira, disse que estava sem tempo, que quem sabe "algum dia" tomávamos um café. Não tenho vontade de encontrar a pessoa, não imagino que assunto possamos ter, nem me vejo mais como a mulher que um dia sentiu algum interesse por aquele homem. Ou seja, não vejo resquício nenhum de passado e nem vislumbre de futuro que possam me ligar ao sujeito.
Então, ele perguntou: "e se eu radicalizar o convite?". Medo! Que quer dizer isso? Tive que responder, para evitar muito lengalenga, que era "melhor não". Pronto.
O que me espantou foi não só a autoimagem do dito, mas ele ainda me ver como alguém potencialmente interessada nele. Achei pretensioso além da conta. De todo jeito, até que eu gostaria de aprender a ter um décimo dessa imagem tão positiva de si.
Um dia desses, um ex-namorado, que tinha já me assuntado no Facebook, resolveu voltar à carga com a história de nos encontrarmos pra tomar uma cerveja. Para não ser grosseira, disse que estava sem tempo, que quem sabe "algum dia" tomávamos um café. Não tenho vontade de encontrar a pessoa, não imagino que assunto possamos ter, nem me vejo mais como a mulher que um dia sentiu algum interesse por aquele homem. Ou seja, não vejo resquício nenhum de passado e nem vislumbre de futuro que possam me ligar ao sujeito.
Então, ele perguntou: "e se eu radicalizar o convite?". Medo! Que quer dizer isso? Tive que responder, para evitar muito lengalenga, que era "melhor não". Pronto.
O que me espantou foi não só a autoimagem do dito, mas ele ainda me ver como alguém potencialmente interessada nele. Achei pretensioso além da conta. De todo jeito, até que eu gostaria de aprender a ter um décimo dessa imagem tão positiva de si.
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terça-feira, 18 de março de 2014
Os opiniudos
Como já cantava Chico Buarque, estamos em pleno sanatório geral - do mal, no caso.
As redes sociais trouxeram mudanças incríveis e úteis, mas também uma tendência geral ao opinionismo - todo mundo se sente obrigado a dizer algo, mesmo que com isso não diga nada. As opiniões sobre determinada notícia são normalmente rasas - quem tem tempo de ler um texto até o fim com tanta coisa interessante rolando, rodopiando ao nosso redor virtual?
Confesso que não tenho opinião formada sobre muita coisa, e por essa razão procuro ser cuidadosa com o que vou dizer - antes me informo do que se trata, para dizer o mínimo. E, para ser bem sincera, nem tenho muita vontade de me manifestar no Facebook, por exemplo - já vi amigos com ideias interessantes gastando um tempo enorme respondendo a ignorantões de tudo, uma coisa chatíssima. Especialmente agora, nesta época de neorreacionarismo, com tanta gente de argumentos vazios defendendo a volta da ditadura militar, uma aberração.
Da mesma forma que muita gente precisa mostrar aos outros que é feliz, hipster, antenado, solicitado etc., tirando mil selfies ou fotografando tudo o que come, sem outro motivo que não seja mostrar o que comeu no almoço (exceções, claro, a quem tece algum tipo de comentário gastronômico mais profundo), há esse verdadeiro tsunami de opiniões (se é que se pode chamá-las assim) descabidas, desencontradas, levianas e até mesmo contraditórias. Uma atmosfera retrógrada, apesar de tanta tecnologia, pesa sobre nós.
É uma pena que o acesso a tanta informação (inclusive suspeita, de má qualidade, ou seja, desinformação) seja subestimado diante dessa nova necessidade de papaguear em troca de um curtir e dois minutos de atenção coletiva. Com tamanha balbúrdia, a reflexão (que, no mais, pede alguma calma) torna-se praticamente impossível.
As redes sociais trouxeram mudanças incríveis e úteis, mas também uma tendência geral ao opinionismo - todo mundo se sente obrigado a dizer algo, mesmo que com isso não diga nada. As opiniões sobre determinada notícia são normalmente rasas - quem tem tempo de ler um texto até o fim com tanta coisa interessante rolando, rodopiando ao nosso redor virtual?
Confesso que não tenho opinião formada sobre muita coisa, e por essa razão procuro ser cuidadosa com o que vou dizer - antes me informo do que se trata, para dizer o mínimo. E, para ser bem sincera, nem tenho muita vontade de me manifestar no Facebook, por exemplo - já vi amigos com ideias interessantes gastando um tempo enorme respondendo a ignorantões de tudo, uma coisa chatíssima. Especialmente agora, nesta época de neorreacionarismo, com tanta gente de argumentos vazios defendendo a volta da ditadura militar, uma aberração.
Da mesma forma que muita gente precisa mostrar aos outros que é feliz, hipster, antenado, solicitado etc., tirando mil selfies ou fotografando tudo o que come, sem outro motivo que não seja mostrar o que comeu no almoço (exceções, claro, a quem tece algum tipo de comentário gastronômico mais profundo), há esse verdadeiro tsunami de opiniões (se é que se pode chamá-las assim) descabidas, desencontradas, levianas e até mesmo contraditórias. Uma atmosfera retrógrada, apesar de tanta tecnologia, pesa sobre nós.
É uma pena que o acesso a tanta informação (inclusive suspeita, de má qualidade, ou seja, desinformação) seja subestimado diante dessa nova necessidade de papaguear em troca de um curtir e dois minutos de atenção coletiva. Com tamanha balbúrdia, a reflexão (que, no mais, pede alguma calma) torna-se praticamente impossível.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Preguiça
Ai, que preguiça que tenho dos reacionários, das pessoas que cuidam mais da vida alheia que da sua própria! Se ainda fossem pessoas críticas, indignadas com atos verdadeiramente nocivos realizados pelos outros (quantos exemplos na política, na religião, na economia, na vida cotidiana de maus-tratos a pessoas indefesas e animais?), isso seria útil para fazer do mundo um lugar melhor.
O problema é que se trata de gente (?) preocupada com a intimidade dos outros, com o que os outros são - gays, artistas, esquisitos, criativos, mulheres, negros. E até no caso de condições obviamente não naturais, nem escolhidas: pobres. Para tudo há um horrível juízo de valor: é porque fulano É assim. Por isso tem que apanhar, ser preso, morrer. Por isso está ferrado, está sendo castigado, é demonizado. Não posso com isso.
No caso da aplicação da justiça contra crimes de fato, também vale a discriminação - depende muito do partido, da cara do criminoso, de suas alianças, se ele será julgado ou não. Mensalão só serve para alguns, roubar em grandes obras e não ser investigado é para poucos. Vai ver, com a internet, redes sociais e que tais, as pessoas comuns resolveram agir como os juízes de plantão - como vale o non sense, a falta de argumentos ou simplesmente não enxergar a razão, é que temos visto tantas manifestações racistas, preconceituosas, anacrônicas, horrorosas e inaceitáveis em toda parte.
Sim, essa parcela da humanidade (?), infelizmente cada vez maior, me dá preguiça de existir aqui, agora, com ela.
O problema é que se trata de gente (?) preocupada com a intimidade dos outros, com o que os outros são - gays, artistas, esquisitos, criativos, mulheres, negros. E até no caso de condições obviamente não naturais, nem escolhidas: pobres. Para tudo há um horrível juízo de valor: é porque fulano É assim. Por isso tem que apanhar, ser preso, morrer. Por isso está ferrado, está sendo castigado, é demonizado. Não posso com isso.
No caso da aplicação da justiça contra crimes de fato, também vale a discriminação - depende muito do partido, da cara do criminoso, de suas alianças, se ele será julgado ou não. Mensalão só serve para alguns, roubar em grandes obras e não ser investigado é para poucos. Vai ver, com a internet, redes sociais e que tais, as pessoas comuns resolveram agir como os juízes de plantão - como vale o non sense, a falta de argumentos ou simplesmente não enxergar a razão, é que temos visto tantas manifestações racistas, preconceituosas, anacrônicas, horrorosas e inaceitáveis em toda parte.
Sim, essa parcela da humanidade (?), infelizmente cada vez maior, me dá preguiça de existir aqui, agora, com ela.
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
A difícil arte da aceitação
É mais fácil aceitar o (supostamente) igual. É difícil que nos aceitem exatamente como somos. São princípios da existência humana.
Não faz muito tempo, descobri a farsa da alteridade. Eu acreditava muito nela, como educadora. De que era possível se colocar no lugar do outro. Não é. Há muito dificuldade em aceitar que o outro é diferente, outro planeta totalmente diverso de nós, e que mesmo assim é possível (se assim se desejar) exercer a tolerância, a aceitação. Uma arte dificílima, que pouca gente está a fim (se souber do que se trata) de praticar.
Já falei aqui do pretinho básico, de como tentamos nos adaptar a várias situações. Acho a adaptação outra arte, fundamental, inclusive parte do currículo da convivência. Mas não vale a pena quando temos de deixar de ser quem somos, de dizer o que pensamos, só para agradar os outros. E são coisas que fazemos tão pouco a pouco, tão devagarzinho, tão naturalmente, que nem percebemos quando não estamos mais felizes, quando não nos reconhecemos no espelho. Eu já ouvi muita gente dizendo que queria me ver bêbada ou que eu devia fumar unzinho. Enchi a cara uma ou outra vez, mais por acompanhar o outro do que por qualquer outro motivo, e sempre me senti mal depois - acredito, aliás, que os excessos impedem que saboreemos qualquer coisa, pois nos fazem perder o paladar e, consequentemente, o prazer. Não vou ficar tentando adivinhar o que pretendiam as pessoas que me desejavam isso, mas uma coisa é certa: queriam que eu fosse diferente, mesmo por alguns momentos, do que sou. A tal dificuldade, mesmo eventual, de aceitação.
E quanta energia é gasta querendo mudar alguém! Pois isso significa não seguir o fluxo natural das coisas, não "deixar rolar". E deixar rolar não significa deixar de cultivar os relacionamentos, como flores que são. Afinal, se o sentimento da "diferenciação" deve ser natural, o convívio com o diferente exige esforço. E sem o convívio morremos, de todas as formas. Nesses desafios é que reside (ou deveria residir) a beleza de sermos humanos.
Não faz muito tempo, descobri a farsa da alteridade. Eu acreditava muito nela, como educadora. De que era possível se colocar no lugar do outro. Não é. Há muito dificuldade em aceitar que o outro é diferente, outro planeta totalmente diverso de nós, e que mesmo assim é possível (se assim se desejar) exercer a tolerância, a aceitação. Uma arte dificílima, que pouca gente está a fim (se souber do que se trata) de praticar.
Já falei aqui do pretinho básico, de como tentamos nos adaptar a várias situações. Acho a adaptação outra arte, fundamental, inclusive parte do currículo da convivência. Mas não vale a pena quando temos de deixar de ser quem somos, de dizer o que pensamos, só para agradar os outros. E são coisas que fazemos tão pouco a pouco, tão devagarzinho, tão naturalmente, que nem percebemos quando não estamos mais felizes, quando não nos reconhecemos no espelho. Eu já ouvi muita gente dizendo que queria me ver bêbada ou que eu devia fumar unzinho. Enchi a cara uma ou outra vez, mais por acompanhar o outro do que por qualquer outro motivo, e sempre me senti mal depois - acredito, aliás, que os excessos impedem que saboreemos qualquer coisa, pois nos fazem perder o paladar e, consequentemente, o prazer. Não vou ficar tentando adivinhar o que pretendiam as pessoas que me desejavam isso, mas uma coisa é certa: queriam que eu fosse diferente, mesmo por alguns momentos, do que sou. A tal dificuldade, mesmo eventual, de aceitação.
E quanta energia é gasta querendo mudar alguém! Pois isso significa não seguir o fluxo natural das coisas, não "deixar rolar". E deixar rolar não significa deixar de cultivar os relacionamentos, como flores que são. Afinal, se o sentimento da "diferenciação" deve ser natural, o convívio com o diferente exige esforço. E sem o convívio morremos, de todas as formas. Nesses desafios é que reside (ou deveria residir) a beleza de sermos humanos.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Ouvindo coisas
I don't see dead people. Nem ouço, ainda bem!
Mas tem acontecido de ouvir uma vozinha estridente me dizendo para fazer isso ou aquilo. A voz se confunde com vontade incontrolável, na maioria das vezes. Assim aconteceu com a urgência de cortar os cabelos, assim acontece quando tenho de parar 5 minutos de trabalhar e fazer um desenho, ou quando um haikai fica martelando na minha cabeça. Eu, que nunca fiz haikai, que nunca sequer fui da turma da poesia! Mas essas coisas buzinam na minha cabeça até que eu dê vazão a elas. Aí ficam sossegadas um tempinho, e logo recomeça o buchicho.
Será isso a criatividade? Sempre me achei uma pessoa criativa, mas acho que agora a torneirinha quebrou. E saibam: não pretendo consertá-la nunca.
Mas tem acontecido de ouvir uma vozinha estridente me dizendo para fazer isso ou aquilo. A voz se confunde com vontade incontrolável, na maioria das vezes. Assim aconteceu com a urgência de cortar os cabelos, assim acontece quando tenho de parar 5 minutos de trabalhar e fazer um desenho, ou quando um haikai fica martelando na minha cabeça. Eu, que nunca fiz haikai, que nunca sequer fui da turma da poesia! Mas essas coisas buzinam na minha cabeça até que eu dê vazão a elas. Aí ficam sossegadas um tempinho, e logo recomeça o buchicho.
Será isso a criatividade? Sempre me achei uma pessoa criativa, mas acho que agora a torneirinha quebrou. E saibam: não pretendo consertá-la nunca.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Um balanço
Como encontrei vários amigos nos últimos meses, inclusive alguns que não via há anos, soube de novidades ótimas na vida deles. Nascimentos, pós-graduação, novos trabalhos, projetos muito legais. E fiquei muito emocionada e contente com isso, porque são pessoas bacanas e merecedoras dessas vitórias.
Fiquei pensando, então, no que tenho feito, em quais foram minhas vitórias. Neste ano saturnino, foram principalmente vitórias internas, que apenas tiveram início. Respirar, perguntar somente a mim o que quero, ouvir a voz da intuição, calar os demônios interiores. Dar asas à imaginação, à criatividade, ao feminino. Ou seja, fazer a faxina interna para poder olhar com clareza aquilo que é de fato importante. Me revestindo de coragem para mudar um comportamento aos 40 anos de idade. Daí ter que aprender a respirar, pois será preciso muito fôlego!
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