Um dia desses, não me perguntem como, cismei em bordar. Talvez tenha visto em algum lugar alguém bordando, sei lá. A verdade é que nunca bordei. A pergunta clássica a seguir seria "por que isso agora?" Nada a ver com o suave e sofisticado sumiê com que andei flertando. Mas, para mim, de algum modo, tudo a ver com a narrativa. Pensei em bordar para contar histórias, imprimindo-as, tatuando-as na pele que se insinua no tecido.
A narrativa sempre me encantou, antes mesmo de aprender a ler. Não por acaso na época do ginásio (atual Ensino Fundamental II) vivi o papel de um caipira contador de histórias, com sotaque e chapéu, o mais perto que cheguei da arte dramática. Não à toa gosto de quando em vez rever e reouvir Forrest Gump e Peixe Grande. Gosto dos narradores viajantes, que costumam ter muito o que contar, seja verdade ou não.
O maior de todos os narradores, porém, não é um viajante (aquilo que conta, portanto, deve vir da imaginação, e não da memória). Ainda por cima, é mulher: Sherazade. Mesmo com esses "senões", tinha uma história na ponta da língua para cada noite passada com o sultão. Rubem Alves, em uma de suas crônicas, diz a respeito dessa narradora: "quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer
através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer."
Imagino Sherazade contando suas histórias como quem tece um bordado - um ponto de cada vez, cada um contribuindo para formar uma imagem, como uma palavra sucede outra na narrativa e faz sonhar o ouvinte com aquilo que vê somente por artes da imaginação. O sultão sendo lentamente enredado na trama tecida pela narradora. A palavra que garantia a sobrevivência de Sherazade é a mesma que faz o amor viver, reviver, reinventar-se, avançando um passo a cada dia no complexo desenho criado pelos amantes.
E assim, por obra do bordado, como não me lembrar de outra personagem feminina, Penélope, que tece, desfaz e refaz à espera do marido Ulisses?
Certamente, Ulisses, um viajante nato (herói, pois não?), teria muito mais o que contar que sua pacata e bela esposa. Ela só tece. Mas é como se, na urdidura feita e refeita para ganhar tempo e recusar outros pretendentes, Penélope ousasse começar do zero para reafirmar seu amor. Diferentemente de Sherazade, que retoma a história do ponto mesmo em que parou ("prossigamos", parece dizer diante de um deserto infinito ou das montanhas insondáveis da Pérsia). Para nós pode parecer uma tremenda perda de tempo, fazer e desfazer um trabalho (um retrabalho, não é assim que diríamos?), quase um "Dia da Marmota" (como no filme Feitiço do tempo, com Bill Murray) entre teares. Além disso, Penélope, embora rainha de Ítaca, é como uma das "Mulheres de Atenas" cantadas por Chico: submissa, leal, à espera de seu marido-amante-guerreiro. No fundo, porém, como Sherazade, ela combate a morte bravamente a cada dia. Não prossegue até que Ulisses retorne, como se pudesse congelar o tempo ao desfazer à noite o trabalho de um dia inteiro. Como Sherazade, Penélope não permite que o amor morra.
E o que fica desse enredamento de ideias e personagens? Que para bordar, narrar e amar, igualmente, há que ter talento, paciência e coragem para retomadas e recomeços diários. Não perder o fio, entendem? Não perder o fio.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Sozinhos e solitários
No dicionário, as duas palavras volta e meia aparecem como sinônimas. Para mim, elas têm diferenças sutis, talvez apenas uma sensação provocada por suas respectivas sonoridades. SO-zinho parece terminar num suspiro breve, quase como se não quisesse se fazer notar. Soli-T-Á-R-I-O me dá a impressão de estar com as quatro patas fincadas no chão - daqui não saio, daqui ninguém me tira. É um som metálico, de um pingo caindo de quando em vez numa bacia de ferro, numa sala vazia, monocordicamente, por tempo indefinido.
Na minha modesta percepção, uma pessoa pode ser sozinha e não ser solitária. Ou seja, pode escolher viver só, mas não apartada dos demais, ou pelo menos das pessoas a quem quer bem. É preciso, aliás, ficar sozinho algum (bom) tempo para aprender a gostar da própria companhia. Mas é preciso também se ver nos olhos do outro para enxergar melhor a si mesmo.
De outro lado, é possível ser solitário em meio à multidão. Pois a escolha do sujeito está associada ao isolamento - busca-se uma ilha aonde ninguém mais pode chegar. Como descobrir a si mesmo sem uma outra referência? Aquilo que gira sobre si costuma não sair do lugar, como um disco arranhado (lembram dos discos tocados por agulha? são da minha época! eu tive e ainda tenho! mas hoje é algo vintage). Parece-me necessária, caso não se deseje a interação, ao menos a observação do outro - o que já é um baita exercício de deixar de olhar só para si e assim perceber um mundo, tão vasto mundo para além da porta de casa.
Acaba sendo uma questão de engenharia, além de fonético-semântica - escolher fazer muros, barragens ou pontes, sabem como é? Não há, no fundo, nenhum pecado nisso (e eu já vivi as duas situações), desde que as escolhas sejam conscientes e não pesem (ou até mesmo desabem) sobre mais ninguém.
Na minha modesta percepção, uma pessoa pode ser sozinha e não ser solitária. Ou seja, pode escolher viver só, mas não apartada dos demais, ou pelo menos das pessoas a quem quer bem. É preciso, aliás, ficar sozinho algum (bom) tempo para aprender a gostar da própria companhia. Mas é preciso também se ver nos olhos do outro para enxergar melhor a si mesmo.
De outro lado, é possível ser solitário em meio à multidão. Pois a escolha do sujeito está associada ao isolamento - busca-se uma ilha aonde ninguém mais pode chegar. Como descobrir a si mesmo sem uma outra referência? Aquilo que gira sobre si costuma não sair do lugar, como um disco arranhado (lembram dos discos tocados por agulha? são da minha época! eu tive e ainda tenho! mas hoje é algo vintage). Parece-me necessária, caso não se deseje a interação, ao menos a observação do outro - o que já é um baita exercício de deixar de olhar só para si e assim perceber um mundo, tão vasto mundo para além da porta de casa.
Acaba sendo uma questão de engenharia, além de fonético-semântica - escolher fazer muros, barragens ou pontes, sabem como é? Não há, no fundo, nenhum pecado nisso (e eu já vivi as duas situações), desde que as escolhas sejam conscientes e não pesem (ou até mesmo desabem) sobre mais ninguém.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Vida, morte e vida
Na última semana, soube da morte do tio de uma amiga-irmã.
Embora não se tratasse de uma pessoa próxima, foi alguém com quem convivi algumas vezes durante a adolescência, quando ia com minha amiga à sua casa ou quando ele vinha com sua família às festas de aniversário da minha amiga.
Diante da morte, é inevitável questionar: por que ele, por que agora? Ele não era jovem, mas sempre foi um homem saudável. A razão diz que foi melhor agora, antes que sobreviesse uma fase mais dolorosa da doença - mas é impossível não sofrer a dor da perda.
Minha amiga postou, em meio à dor, fotos do tio com os irmãos, quando eram garotos. Em preto e branco, com roupas daquela outra época. Uma época cheia de vida e risos, companheirismo e despreocupação com a morte, que estava tão distante. Assim ela eternizou o tio, insuflou juventude à sua memória. No final, passado o luto, é desse modo que ele será lembrado, como se o roteiro fosse invertido, e à morte se seguisse a vida, mais uma vez.
Embora não se tratasse de uma pessoa próxima, foi alguém com quem convivi algumas vezes durante a adolescência, quando ia com minha amiga à sua casa ou quando ele vinha com sua família às festas de aniversário da minha amiga.
Diante da morte, é inevitável questionar: por que ele, por que agora? Ele não era jovem, mas sempre foi um homem saudável. A razão diz que foi melhor agora, antes que sobreviesse uma fase mais dolorosa da doença - mas é impossível não sofrer a dor da perda.
Minha amiga postou, em meio à dor, fotos do tio com os irmãos, quando eram garotos. Em preto e branco, com roupas daquela outra época. Uma época cheia de vida e risos, companheirismo e despreocupação com a morte, que estava tão distante. Assim ela eternizou o tio, insuflou juventude à sua memória. No final, passado o luto, é desse modo que ele será lembrado, como se o roteiro fosse invertido, e à morte se seguisse a vida, mais uma vez.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Rien que la liberté
Para Lu Salgado, um post-conversa que estava devendo
Tive um namorado que precisava alardear o tempo todo sua liberdade, como se eu vivesse atrás dele ameaçando-o todo o tempo com uma bola de ferro e uma corrente. Talvez ele tivesse essa necessidade porque foi preso político, quem sabe? O fato é que, de tanto ele falar nisso, um dia eu declarei sua alforria. Assim, com essas palavras. E ele ficou em choque - talvez ainda esteja.
O grande engano desse meu namorado, tão vivido mas tão imaturo emocionalmente, era não perceber que as pessoas não dependem de sua relação com as outras para serem livres. Ou melhor, sua relação com outras pessoas não afeta em nada sua liberdade, percebida ou não. Porque as pessoas, em princípio, se juntam a outras porque querem, e não porque são obrigadas, diferentemente do que acontecia em outras épocas. Exatamente como fazemos ao eleger nossos amigos - livremente, por afinidade, por afeto.
Ser livre, portanto, é uma decisão individual (salvo em casos de escravidão, cárcere privado, uso da força por outrem), um estado de espírito. O mais livre dos maridos pode se sentir aprisionado sem o ser, pela simples percepção que tem de si. O mesmo vale para as mulheres, é claro (embora no caso delas ainda haja, mesmo em número decrescente, as que dependem financeiramente dos parceiros e por isso se sentem aprisionadas). [Difícil não me lembrar dos autorretratos de Francis Bacon...]
Contraditoriamente, apenas as pessoas que se sabem livres são capazes de se comprometer com algo ou com alguém. Porque não se sentem ameaçadas, assumem um compromisso porque querem. Porque não se sentem obrigadas, porque fizeram uma opção, costumam ser mais respeitosas com as verdades alheias. Talvez nem toda pessoa livre seja tolerante, mas todo aquele que é tolerante tem uma mente liberta. Ética e liberdade, portanto, têm tudo a ver.
Claro que não estou dizendo que as pessoas mentalmente livres, porque fazem escolhas conscientes, estão isentas das questões comezinhas - elas não podem escolher não pagar contas (a menos que queiram ter dor de cabeça), trabalhar, estudar, aguentar chefes chatos, tudo como todos. Também estou aqui levando em conta somente pessoas normais, que não tenham desvios de personalidade - um psicopata pode se sentir livre para fazer o que quiser, porque as consequências do que faz não têm efeito moral ou emocional sobre ele.
Aqui cabe uma outra qualidade de ser livre: não significa fazer o que der na telha ou dizer o que der na veneta. Ou, pelo menos, não se pode fazer qualquer das duas coisas sem levar em conta as consequências de ambas. Quer dizer que ser livre implica respeitar o quadrado do colega, os sentimentos do colega. Sincericidas de língua solta acham que são libérrimos por dizer tudo que pensam - não são.
E quanto à liberdade de ir e vir? Ela pode ser limitada por muitos fatores, mas dificilmente uma pessoa livre fica onde não cabe sua alma (diferentemente dos siricotiqueiros de plantão). Liberdade é uma qualidade solar, que não favorece cantos escuros onde se esconder. Quer dizer, então, que exige certa coragem, estar exposto a críticas e tiros e continuar caminhando (lembram da consciência tranquila = estado de felicidade?). E também leveza - o que não significa falta de seriedade ou de profundidade -, para que se possa ir cada vez mais longe.
Dá trabalho, não? Mas como é bom deitar a cabeça no travesseiro e imaginar que o dia de amanhã será do jeito que sonhamos e decidimos hoje, merecidamente com as flores (imagino sempre-vivas, pequenas e duradouras como vitórias diárias) que semeamos.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Reflexão de botequim - Essa tal felicidade
Tem uma música do Tim Maia com esse título, da sua última fase, mais pop, lembram? Tristíssima! E a ideia é tão popular quanto a canção: todo mundo se pergunta sobre a tal felicidade, onde está, o que a garante. Isso tem resposta? Tem sim, e cada um tem a sua, se souber procurar no fundo de si.
Porque a felicidade responde a cada um de um jeito, mais fácil é dizer onde ela não está - no outro, ou num lugar fora de nós mesmos. Ou em um objeto ou trabalho ou no curso que se escolher fazer na faculdade. Nananinanão: ser feliz só depende da gente, do que temos a NOS oferecer.
Não precisa ser muito. Mas quem disse que é fácil? Começa pela complexa tarefa de se aceitar, de se conhecer, tendo coragem de ficar sozinho consigo. Às vezes é dolorido olhar no espelho, não é? Muito mais fácil sairmos de nós mesmo, vestirmos uma personagem para agradar os circunstantes, não precisar pensar em nada.
Para dificultar mais um pouco, não é um estado perene. Então, como fazer sua "manutenção"? Cada um tem sua fórmula. Talvez o melhor seja não achar que se trata de algo a perseguir, muito concreto, palpável. Tenho cá pra mim que felicidade se aproxima muito de paz de espírito e consciência tranquila - porque, pela minha experiência, são o que possibilita ser livre, e isso (de novo) para mim é sinônimo de felicidade (nem vou entrar no mérito de dizer o que considero ser livre, que isso é assunto para outro post). Se faço por onde ter essa paz e essa consciência tranquila, manter-me feliz por mais tempo, ou mais vezes, não me parece tão difícil.
Às vezes observo os sabotadores da própria felicidade (claro que não estou falando de depressivos reais, embora a depressão possa ser resultado da autossabotagem). Mas eles nem sabem que o são. Simplesmente vivem como vítimas e apostam que só serão felizes quando tiverem dinheiro, um carro, quando estiverem em tal lugar, com tais pessoas. A procrastinação é talvez a maior inimiga do "ser feliz", porque lança tudo para o indefinido e afasta da possibilidade. Já perceberam que nada é possível para a pessoa infeliz? Normalmente espera que milagres aconteçam, mas não acredita verdadeiramente em milagres. Só acredita que é merecedora, mesmo sem mérito, de alguma "bênção". Por quê? Porque ela é infeliz, uma vítima, e precisa mais que os outros. Como, porém, costuma procrastinar tudo, tende à inação. E assim nada acontece em sua vida. Resultado: mais infelicidade, mais autopiedade. E um tantinho de idealização de um suposto "passado feliz". Em vez de a energia circular, as reclamações e lamentos é que viram uma espécie de mantra - e a tristeza se sente com todo direito de se instalar, pois foi devidamente evocada por essas pessoas.
Isso não quer dizer que as pessoas que alcançam tudo que desejam, correndo de lá pra cá, sejam necessariamente felizes. Também conheço gente eternamente insatisfeita com o que tem, porque provavelmente projetou na casa, no carro, no tablet a sua felicidade. De tanto correr para alcançar essas coisas, nunca teve tempo de olhar para dentro, de aprender a confrontar seus fantasmas e de gostar da própria companhia, com qualidades e defeitos, dores e delícias que isso traz. Há quem simplesmente ignore o ruído de dobradiças e de portas batendo e carregue uma casa mal-assombrada inteira dentro de si.
Não estou dizendo, com isso, que as pessoas têm que ser bobas alegres. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O luto é necessário muitas vezes, como também a melancolia trazida pela reflexão, a tristeza que cria poesia e sabença.
Se ser triste de quando em vez é natural, por que será, então, que ser feliz de vez em quando parece tão difícil? Meu palpite (feliz ou não) é que a questão é mais difícil porque é anterior: muita gente não sabe simplesmente ser. Ninguém pode nos tirar o que somos, a menos que queiramos. Só deixamos de ser quando deixamos de existir - mesmo com uma existência pálida, ainda assim somos alguém. Mas se nossa satisfação depende de ter alguma coisa, é mais fácil nos frustrarmos - se para ser preciso ter, e não tenho, deixo de ser, deixo de existir. Ou pior, parasito minha própria existência - soy infeliz (antes fosse tema de Almodóvar!), es así que soy.
Para deixar os procrastinadores mais tristes - ou para libertá-los de vez de sua prisão - termino minha reflexão de botequim lembrando uma outra música, que fala sobre o melhor lugar do mundo. O doce Gil concordaria comigo que a felicidade, como o melhor lugar, é "aqui, fora de perigo, agora, dentro de instantes". Não amanhã, nem depois, não nos confins. Aqui. Agora.
Porque a felicidade responde a cada um de um jeito, mais fácil é dizer onde ela não está - no outro, ou num lugar fora de nós mesmos. Ou em um objeto ou trabalho ou no curso que se escolher fazer na faculdade. Nananinanão: ser feliz só depende da gente, do que temos a NOS oferecer.
Não precisa ser muito. Mas quem disse que é fácil? Começa pela complexa tarefa de se aceitar, de se conhecer, tendo coragem de ficar sozinho consigo. Às vezes é dolorido olhar no espelho, não é? Muito mais fácil sairmos de nós mesmo, vestirmos uma personagem para agradar os circunstantes, não precisar pensar em nada.
Para dificultar mais um pouco, não é um estado perene. Então, como fazer sua "manutenção"? Cada um tem sua fórmula. Talvez o melhor seja não achar que se trata de algo a perseguir, muito concreto, palpável. Tenho cá pra mim que felicidade se aproxima muito de paz de espírito e consciência tranquila - porque, pela minha experiência, são o que possibilita ser livre, e isso (de novo) para mim é sinônimo de felicidade (nem vou entrar no mérito de dizer o que considero ser livre, que isso é assunto para outro post). Se faço por onde ter essa paz e essa consciência tranquila, manter-me feliz por mais tempo, ou mais vezes, não me parece tão difícil.
Às vezes observo os sabotadores da própria felicidade (claro que não estou falando de depressivos reais, embora a depressão possa ser resultado da autossabotagem). Mas eles nem sabem que o são. Simplesmente vivem como vítimas e apostam que só serão felizes quando tiverem dinheiro, um carro, quando estiverem em tal lugar, com tais pessoas. A procrastinação é talvez a maior inimiga do "ser feliz", porque lança tudo para o indefinido e afasta da possibilidade. Já perceberam que nada é possível para a pessoa infeliz? Normalmente espera que milagres aconteçam, mas não acredita verdadeiramente em milagres. Só acredita que é merecedora, mesmo sem mérito, de alguma "bênção". Por quê? Porque ela é infeliz, uma vítima, e precisa mais que os outros. Como, porém, costuma procrastinar tudo, tende à inação. E assim nada acontece em sua vida. Resultado: mais infelicidade, mais autopiedade. E um tantinho de idealização de um suposto "passado feliz". Em vez de a energia circular, as reclamações e lamentos é que viram uma espécie de mantra - e a tristeza se sente com todo direito de se instalar, pois foi devidamente evocada por essas pessoas.
Isso não quer dizer que as pessoas que alcançam tudo que desejam, correndo de lá pra cá, sejam necessariamente felizes. Também conheço gente eternamente insatisfeita com o que tem, porque provavelmente projetou na casa, no carro, no tablet a sua felicidade. De tanto correr para alcançar essas coisas, nunca teve tempo de olhar para dentro, de aprender a confrontar seus fantasmas e de gostar da própria companhia, com qualidades e defeitos, dores e delícias que isso traz. Há quem simplesmente ignore o ruído de dobradiças e de portas batendo e carregue uma casa mal-assombrada inteira dentro de si.
Não estou dizendo, com isso, que as pessoas têm que ser bobas alegres. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O luto é necessário muitas vezes, como também a melancolia trazida pela reflexão, a tristeza que cria poesia e sabença.
Se ser triste de quando em vez é natural, por que será, então, que ser feliz de vez em quando parece tão difícil? Meu palpite (feliz ou não) é que a questão é mais difícil porque é anterior: muita gente não sabe simplesmente ser. Ninguém pode nos tirar o que somos, a menos que queiramos. Só deixamos de ser quando deixamos de existir - mesmo com uma existência pálida, ainda assim somos alguém. Mas se nossa satisfação depende de ter alguma coisa, é mais fácil nos frustrarmos - se para ser preciso ter, e não tenho, deixo de ser, deixo de existir. Ou pior, parasito minha própria existência - soy infeliz (antes fosse tema de Almodóvar!), es así que soy.
Para deixar os procrastinadores mais tristes - ou para libertá-los de vez de sua prisão - termino minha reflexão de botequim lembrando uma outra música, que fala sobre o melhor lugar do mundo. O doce Gil concordaria comigo que a felicidade, como o melhor lugar, é "aqui, fora de perigo, agora, dentro de instantes". Não amanhã, nem depois, não nos confins. Aqui. Agora.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Como é bom voltar
Sempre digo que a vida ideal seria ter casas espalhadas pelo mundo e um porto seguro para o qual regressar. Ou uma atividade que permitisse conhecer muitos portos, por algum tempo, e depois poder voltar ao tal porto mais seguro. Que hoje seria minha casa com uma microparede (um nicho apenas) pintada de Blue Bright Violet (o nome dado pela Coral não é esse, que peguei emprestado para sempre de uma caixa de lápis da Berol), fotos preto e branco, muitos livros. Mas que poderia ser outra, com uma grande mesa de madeira, cozinha ampla que permitisse invenções e muita conversa jogada fora, aquecida antes por um cafezinho. É muito bom viajar, mas é ainda melhor ter para onde voltar, ter o que contar, pessoas para ouvir o que se conta. E suas paredes, seu próprio chão, o som dos seus passos reconhecido.
Porém, há outro tipo de regresso que, podem acreditar, é ainda melhor. Voltar para si mesmo. Já tiveram a experiência? Eu acabo de ter.
Mesmo não tendo conseguido dizer tudo o que pensava, o que estava ensaiado (e daí talvez a dor de garganta de dois dias, diriam os antroposofistas e o meu acupunturista Dr. Magical Carlos), verbalizei enfim meu desejo de abandonar uma situação que se arrastava por um ano. Ainda vai exigir de mim um último fôlego, mas minha alma se sente novamente leve, eu me sinto novamente fiel a mim mesma. Como se, na volta de uma longa viagem, encontrasse uma casa empoeirada, com alguma desordem - mas minha. Entendem? Minha casa. Eu. O porto. Que saudade!
Porém, há outro tipo de regresso que, podem acreditar, é ainda melhor. Voltar para si mesmo. Já tiveram a experiência? Eu acabo de ter.
Mesmo não tendo conseguido dizer tudo o que pensava, o que estava ensaiado (e daí talvez a dor de garganta de dois dias, diriam os antroposofistas e o meu acupunturista Dr. Magical Carlos), verbalizei enfim meu desejo de abandonar uma situação que se arrastava por um ano. Ainda vai exigir de mim um último fôlego, mas minha alma se sente novamente leve, eu me sinto novamente fiel a mim mesma. Como se, na volta de uma longa viagem, encontrasse uma casa empoeirada, com alguma desordem - mas minha. Entendem? Minha casa. Eu. O porto. Que saudade!
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Todo mundo em pânico já!
Lembrei-me um dia desses de uma crítica que recebi de uma chefe, há alguns anos: eu era muito tranquila, tinha que "entrar mais em pânico". Como não tenho essa tendência (fico brava sim, cresço dois metros quando necessário, minhas narinas dilatam, então é melhor sair da frente - mas é improvável entrar num estado de estresse, pavor, autocomiseração constantes), adquiri uma máscara "do Pânico" nas lojas Americanas (oferta imperdível de Carnaval) e deixei-a na gaveta para situações de emergência. (Para ilustrar, coloquei umas fotinhos da época no Nem guerê nem pipoca.)
A mesma chefe tinha comentado uma vez sobre meu "jeito baiano de ser" (e é uma pessoa da área de educação, podem crer nisso?), ainda sobre minha irritante tranquilidade quando as coisas ao redor eram muito estressantes. Acho que ela se irritava mais com o fato de eu ser diferente dela, de agir de modo diferente e mesmo assim conseguir ótimos resultados no trabalho.
Só que eu achava que isso era um caso único, uma pessoa que acredita no pânico como sinal de eficiência (ou pelo menos aparência de). Que, para denotar envolvimento, precisamos mostrar que estamos muito, muito preocupados, quase histéricos. Reclamar, colocar a culpa em mais alguém, se vitimizar um tanto. Aí descobri que tem bem mais gente que segue essa linha de La vie en peur e se horroriza com quem não só propõe soluções diferentes mas também procura ter uma vida normal para além do trabalho, com outros interesses, cultivando as relações humanas. Se eu consigo tempo para outras coisas, como posso fazer um bom trabalho? Simplesmente posso.
Ufa, ainda bem que guardei minha máscara!
A mesma chefe tinha comentado uma vez sobre meu "jeito baiano de ser" (e é uma pessoa da área de educação, podem crer nisso?), ainda sobre minha irritante tranquilidade quando as coisas ao redor eram muito estressantes. Acho que ela se irritava mais com o fato de eu ser diferente dela, de agir de modo diferente e mesmo assim conseguir ótimos resultados no trabalho.
Só que eu achava que isso era um caso único, uma pessoa que acredita no pânico como sinal de eficiência (ou pelo menos aparência de). Que, para denotar envolvimento, precisamos mostrar que estamos muito, muito preocupados, quase histéricos. Reclamar, colocar a culpa em mais alguém, se vitimizar um tanto. Aí descobri que tem bem mais gente que segue essa linha de La vie en peur e se horroriza com quem não só propõe soluções diferentes mas também procura ter uma vida normal para além do trabalho, com outros interesses, cultivando as relações humanas. Se eu consigo tempo para outras coisas, como posso fazer um bom trabalho? Simplesmente posso.
Ufa, ainda bem que guardei minha máscara!
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