quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quando dizer não é dizer sim

Meu cabeleireiro um dia me falou de algum conhecido seu que, com uma comparação simples, explicava por que ele preferia ficar feliz a deixar o outro feliz, se tivesse que escolher entre uma coisa e outra. Tinha alguma coisa a ver com esse conhecido aceitar ou não um cheque e explicar o porquê.
Outro dia, conversando com um amigo historiador, falamos do homem cordial de Sérgio Buarque, em como ele faz parte da nossa cultura nacional. Daí vêm os convites para tomar café que nunca se realizarão e as propostas meramente retóricas que tanta gente faz. Para agradar o outro, mas principalmente para criar uma imagem/persona agradável.
Outro dia, ainda, uma amiga comentou como ela está aprendendo a dizer não sem ter que dar maiores explicações. Ou seja, como está se desvencilhando da mera cordialidade, que acontece quando, querendo dizer não, dizemos sim para agradar/parecer agradável. 
O conhecido do meu cabeleireiro é um senhor japonês, portanto tem menos dificuldade com simplesmente dizer não, embora ainda careça dar explicações em nome do bom convívio. Eu, embora tenha parte das minhas raízes no distante solo nipônico, tenho dificuldade com dizer não imediatamente. Sempre disse muito sim, e só agora percebo que se, de um lado, isso possibilita um fluxo mais aberto às coisas da vida (ser a tal "pessoa positiva"), por outro lado, algumas vezes se torna uma agressão a mim mesma. Como disse em outro post, sou da turma das pessoas-cães, que necessitam de aprovação, e tem hora que quero só gritar não e me ouço dizendo sim (também já falei disso no post sobre o pretinho básico).
Tenho vivido nos últimos tempos a situação de dizer sim a diferentes pessoas e depois perceber que tinha de dizer não. Ao não, costumam se seguir os queixumes. Vem o frio na barriga, em escalas variadas a depender dos envolvidos, diante da possibilidade de retaliações. Ultimamente tenho mudado a perspectiva para avaliar a situação - olho para o outro dando a ele a importância que me dá. E isso facilita horrores a tomada de decisão: em vez de simplesmente lhe dizer não, escolho dizer sim para mim. É difícil. Muitas vezes, é imensamente mais trabalhoso do que dizer não para o outro.
Por uma questão de coerência interna, resolvi continuar dizendo sim, mas sobretudo para a pessoa mais importante da minha vida: eu.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Como fazer o navio afundar

O mercado está cada vez mais repleto de livros e manuais sobre relacionamentos. Todo mundo tem a receita do que fazer para que deem certo.
Por que ninguém pensa no que fazer para dar errado? Não seria mais fácil? Sabendo o que muita gente faz para isso, é só fazer o contrário, se se pretende ter êxito num relacionamento.
Pensando nas minhas experiências e nas de pessoas próximas, elenquei alguns tópicos (porque esses manuais são normalmente organizados em tópicos):

1. Não ouça. Quando seu parceiro ou parceira começar a contar alguma história, já ouvida ou não, ou tentar desabafar acerca do dia difícil que teve, mude de assunto ou faça cara de desinteresse, ou os dois ao mesmo tempo.
2. Deixe seu parceiro ou parceira sempre em dúvida acerca de vocês.
3. Trate seu parceiro ou parceira como objeto, dispondo dele ou dela na hora em que precisar.
4. Não inclua seu parceiro ou parceira em nenhum de seus planos, a menos que seja algo que lhe interesse.
5. Não estimule seu parceiro ou parceira a alçar voos mais altos, nem a ter atividades criativas. Aliás, faça aquela cara de "quanta bobagem!". Aliás, só estimule seu parceiro ou parceira a fazer coisas que lhe interessem diretamente.
6. Critique seu parceiro ou parceira (pode ser uma crítica pequena, mas claramente uma crítica) na frente dos outros. Quando estiverem a sós também, para que não haja nenhuma dúvida.
7. Constranja seu parceiro ou parceira de alguma forma.
8. Nunca peça desculpas a seu parceiro ou parceira, mesmo que você esteja muito errado.
9. Sempre peça desculpas, mesmo que não tenha culpa.
10. Ridicularize alguma coisa que seja importante para ele ou ela - comportamentos, gostos, medos etc.
11. Não dê nenhuma satisfação sobre a sua vida para o parceiro ou parceira.
12. Conte tudo o que acontece na sua vida.
13. Controle cada passo de seu parceiro ou parceira para que ninguém se aproxime dele ou dela (não significa ouvir histórias tristes ou reclamações, só saber onde ele ou ela esteve).
14. Faça-se de vítima sempre que necessário quando perceber o desinteresse dele ou dela.
15. Ceda a chantagens.
16. Reclame ao receber mais um presente, embora goste de ganhar presentes.
17. Faça de tudo para agradar.
18. Fale de antigos relacionamentos sempre que tiver oportunidade. Se possível, faça comparações.
19. Prefira sempre estar em grupo do que a sós.
20. Tenha sempre outras prioridades - pode ser trabalho, hobby, outras pessoas.
21. Faça do seu parceiro ou parceira sua prioridade, mais importante que outras áreas da sua vida.
22. Quando tiverem algum problema, deixe claro que a culpa é dele ou dela.
23. Deixe claro que aquilo que ele ou ela tem para lhe oferecer nunca será suficiente - você já teve ou ainda terá muito mais.
24. Flerte com amigos ou amigas dele ou dela, ou com outras pessoas, de preferência na cara dele ou dela.
25. Deixe claro que não tem planos de viver com ele ou com ela, que você sonha com outra realidade e com uma pessoa que pertença a essa realidade (desdobramento do item 4).
26. Complemento ao item 1: só fale de você, assegure-se de que ele ou ela está ouvindo com atenção e brigue se não estiver.
27. Não invista, só receba.
28. Faça cara feia para conselhos (desdobramento do item 1).
29. Trate seu parceiro ou parceira como filho ou filha.
30. Trate seu parceiro ou parceira como pai ou mãe.
31. Só doe, não cobre nada.
32. Cobre tudo, o tempo todo.
33. Mesmo querendo explodir, não diga que há um problema.
34. Vá levando.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Greve!

Hoje é o quinto dia de greve dos metroviários de São Paulo, três dias antes do início da Copa do Mundo no Brasil. O Picolé de Chuchu disse que não negocia mais e anunciou a demissão de 60 funcionários (estranho é que não havia cogitado isso antes caso os funcionários não aceitassem a oferta "generosa" de reajuste do governo). Subiu nas tamanquinhas, mesmo sem mudar a expressão facial.
Parte da população critica os grevistas. Eu não. Acho a greve justa, um direito conquistado, próprio de países civilizados. Será que não é o nosso caso, a civilização? O problema é que o trabalhador brasileiro se habitua tão facilmente à exploração que não percebe que ele também tem direito de sair às ruas, protestar, exigir. Vi com enorme esperança as manifestações do ano passado, achava que elas evoluiriam de um ato "espontâneo" para algo pautado, pensado, organizado, amplo e justo. O que aconteceu é que acabaram se diluindo, e agora, quando os grevistas saem às ruas, são chamados de oportunistas, acusados de atrapalhar a vida dos outros trabalhadores.
De fato, é horrível ver na TV diaristas que demoram 4 horas para chegar ao trabalho ou à sua casa (por que será que são sempre elas as escolhidas para as entrevistas?). Mas uma greve precisa de ruído para ter efeito, ou então se torna alvo de chacota, como os movimentos do professorado brasileiro. Quem se importa com a educação? A quem afeta a paralisação dos professores? Claro que nós sabemos - mas é um problema para o "futuro", e nenhuma criança vai ser demitida pelos pais se faltar às aulas.
Os metroviários hoje quase alcançam o mesmo repúdio ao PT no que diz respeito ao males da sociedade. Ninguém pensa que o dinheiro desviado nas obras do metrô poderia muito bem pagar o que os grevistas pedem de reajuste. Ops, parece que houve uma amnésia quase generalizada!
Há poucos dias, tivemos outra greve, dos motoristas e cobradores de ônibus. Essa sim, pura bandalheira. Não foi organizada como a dos metroviários, que inclusive deixaram de fazer a sua para não lançar São Paulo num caos ainda maior. A paralisação dos ônibus, promovida por uma facção do sindicato correspondente, me fez lembrar os ataques do PCC em 2006. Algo do tipo: "vamos mostrar quem é que manda".
Tive a oportunidade de presenciar as famosas manifes francesas quando estive em Paris. Fiquei emocionada. Claro que pode haver confusão, pessoas deixam de ter acesso aos serviços etc. Mas o que mais me chamou a atenção foi a compreensão da maioria das pessoas com relação ao fato da reivindicação por um direito. Isso é democracia.
Enquanto cada brasileiro pensar somente no seu quadrado (que muitas vezes nem é um quadrado "próprio"), o gigante vai continuar deitado em berço cada vez menos esplêndido, pilhado que é pelos verdadeiros oportunistas de tocaia.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Da autoimagem

A maneira como vemos a nós mesmos faz toda diferença. A tal da "atitude". Mas às vezes assusta como as pessoas nos veem.
Um dia desses, um ex-namorado, que tinha já me assuntado no Facebook, resolveu voltar à carga com a história de nos encontrarmos pra tomar uma cerveja. Para não ser grosseira, disse que estava sem tempo, que quem sabe "algum dia" tomávamos um café. Não tenho vontade de encontrar a pessoa, não imagino que assunto possamos ter, nem me vejo mais como a mulher que um dia sentiu algum interesse por aquele homem. Ou seja, não vejo resquício nenhum de passado e nem vislumbre de futuro que possam me ligar ao sujeito.
Então, ele perguntou: "e se eu radicalizar o convite?". Medo! Que quer dizer isso? Tive que responder, para evitar muito lengalenga, que era "melhor não". Pronto.
O que me espantou foi não só a autoimagem do dito, mas ele ainda me ver como alguém potencialmente interessada nele. Achei pretensioso além da conta. De todo jeito, até que eu gostaria de aprender a ter um décimo dessa imagem tão positiva de si.

terça-feira, 18 de março de 2014

Os opiniudos

Como já cantava Chico Buarque, estamos em pleno sanatório geral - do mal, no caso.
As redes sociais trouxeram mudanças incríveis e úteis, mas também uma tendência geral ao opinionismo - todo mundo se sente obrigado a dizer algo, mesmo que com isso não diga nada. As opiniões sobre determinada notícia são normalmente rasas - quem tem tempo de ler um texto até o fim com tanta coisa interessante rolando, rodopiando ao nosso redor virtual?
Confesso que não tenho opinião formada sobre muita coisa, e por essa razão procuro ser cuidadosa com o que vou dizer - antes me informo do que se trata, para dizer o mínimo. E, para ser bem sincera, nem tenho muita vontade de me manifestar no Facebook, por exemplo - já vi amigos com ideias interessantes gastando um tempo enorme respondendo a ignorantões de tudo, uma coisa chatíssima. Especialmente agora, nesta época de neorreacionarismo, com tanta gente de argumentos vazios defendendo a volta da ditadura militar, uma aberração.
Da mesma forma que muita gente precisa mostrar aos outros que é feliz, hipster, antenado, solicitado etc., tirando mil selfies ou fotografando tudo o que come, sem outro motivo que não seja mostrar o que comeu no almoço (exceções, claro, a quem tece algum tipo de comentário gastronômico mais profundo), há esse verdadeiro tsunami de opiniões (se é que se pode chamá-las assim) descabidas, desencontradas, levianas e até mesmo contraditórias. Uma atmosfera retrógrada, apesar de tanta tecnologia, pesa sobre nós.
É uma pena que o acesso a tanta informação (inclusive suspeita, de má qualidade, ou seja, desinformação) seja subestimado diante dessa nova necessidade de papaguear em troca de um curtir e dois minutos de atenção coletiva. Com tamanha balbúrdia, a reflexão (que, no mais, pede alguma calma) torna-se praticamente impossível.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Preguiça

Ai, que preguiça que tenho dos reacionários, das pessoas que cuidam mais da vida alheia que da sua própria! Se ainda fossem pessoas críticas, indignadas com atos verdadeiramente nocivos realizados pelos outros (quantos exemplos na política, na religião, na economia, na vida cotidiana de maus-tratos a pessoas indefesas e animais?), isso seria útil para fazer do mundo um lugar melhor.
O problema é que se trata de gente (?) preocupada com a intimidade dos outros, com o que os outros são - gays, artistas, esquisitos, criativos, mulheres, negros. E até no caso de condições obviamente não naturais, nem escolhidas: pobres. Para tudo há um horrível juízo de valor: é porque fulano É assim. Por isso tem que apanhar, ser preso, morrer. Por isso está ferrado, está sendo castigado, é demonizado. Não posso com isso.
No caso da aplicação da justiça contra crimes de fato, também vale a discriminação - depende muito do partido, da cara do criminoso, de suas alianças, se ele será julgado ou não. Mensalão só serve para alguns, roubar em grandes obras e não ser investigado é para poucos. Vai ver, com a internet, redes sociais e que tais, as pessoas comuns resolveram agir como os juízes de plantão - como vale o non sense, a falta de argumentos ou simplesmente não enxergar a razão, é que temos visto tantas manifestações racistas, preconceituosas, anacrônicas, horrorosas e inaceitáveis em toda parte.
Sim, essa parcela da humanidade (?), infelizmente cada vez maior, me dá preguiça de existir aqui, agora, com ela.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A difícil arte da aceitação

É mais fácil aceitar o (supostamente) igual. É difícil que nos aceitem exatamente como somos. São princípios da existência humana.
Não faz muito tempo, descobri a farsa da alteridade. Eu acreditava muito nela, como educadora. De que era possível se colocar no lugar do outro. Não é. Há muito dificuldade em aceitar que o outro é diferente, outro planeta totalmente diverso de nós, e que mesmo assim é possível (se assim se desejar) exercer a tolerância, a aceitação. Uma arte dificílima, que pouca gente está a fim (se souber do que se trata) de praticar.
Já falei aqui do pretinho básico, de como tentamos nos adaptar a várias situações. Acho a adaptação outra arte, fundamental, inclusive parte do currículo da convivência. Mas não vale a pena quando temos de deixar de ser quem somos, de dizer o que pensamos, só para agradar os outros. E são coisas que fazemos tão pouco a pouco, tão devagarzinho, tão naturalmente, que nem percebemos quando não estamos mais felizes, quando não nos reconhecemos no espelho. Eu já ouvi muita gente dizendo que queria me ver bêbada ou que eu devia fumar unzinho. Enchi a cara uma ou outra vez, mais por acompanhar o outro do que por qualquer outro motivo, e sempre me senti mal depois - acredito, aliás, que os excessos impedem que saboreemos qualquer coisa, pois nos fazem perder o paladar e, consequentemente, o prazer. Não vou ficar tentando adivinhar o que pretendiam as pessoas que me desejavam isso, mas uma coisa é certa: queriam que eu fosse diferente, mesmo por alguns momentos, do que sou. A tal dificuldade, mesmo eventual, de aceitação.
E quanta energia é gasta querendo mudar alguém! Pois isso significa não seguir o fluxo natural das coisas, não "deixar rolar". E deixar rolar não significa deixar de cultivar os relacionamentos, como flores que são. Afinal, se o sentimento da "diferenciação" deve ser natural, o convívio com o diferente exige esforço. E sem o convívio morremos, de todas as formas. Nesses desafios é que reside (ou deveria residir) a beleza de sermos humanos.