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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Se viver, não case

Ou, pelo menos, não se case para ingressar em uma vida doméstica, de puro trabalho reprodutivo. A menos que seja exatamente isso que você queira, e sim, estou me dirigindo às mulheres.
Quando pensei em juntar meus trapinhos pela primeira vez, ouvi do companheiro que ele tinha medo de que a rotina destruísse o relacionamento. Normalmente, é ela a culpada, a rotina, sempre foi o que ouvi dizer. Não nós, não o que fazemos do relacionamento, mas ELA.
Um dos efeitos da pandemia tem sido o número de brigas e separações provocadas pelo exacerbamento do convívio e de uma intimidade sem nenhum sex appeal. Em princípio, a rotina cinzenta vem retirar o glamour da paixão dos primeiros tempos. Eu até me inclinei a acreditar em parte disso, mas sempre pensei: não pode ser só isso. Por que há casais que conseguem sobreviver ao casamento? Eles sabem driblar a rotina melhor que os outros? A pandemia tornou ainda mais cinzenta a rotina? Quem resiste aos pijamas 24 horas? A não ter tempo de sentir falta do outro?
O que algumas pesquisas têm mostrado, porém, é que as separações durante a pandemia estão quase sempre relacionadas ao desacordo quanto ao trabalho doméstico, com quem faz o quê, uma discussão que muitas vezes não tinha tanta importância, pois as camadas médias, ao menos no Brasil, se valem da terceirização do trabalho reprodutivo e também, com o trabalho fora de casa, mal tinham tempo de pensar no peso que esse trabalho doméstico de fato tem. 
Não faz muito tempo que se popularizou o conceito de sobrecarga mental feminina - junto com a jornada dupla de tantas mulheres, ainda há a ocupação mental com os afazeres domésticos, com os cuidados com a família, o que só aumenta o desgaste. De repente temos nos dado conta de que os homens não se ocupam disso porque sempre há uma mulher que o faça por eles. 
Também temos nos dado conta de que, no final das contas, a culpa pela falência dos casamentos, de ontem e de hoje, não é da rotina. A pandemia iluminadora mostrou que o problema é o papel a que a mulher sempre tem sido relegada, trabalhe ela fora ou não. A rotina doméstica sempre sobra para ela, com exceção de alguns parceiros iluminados, machistas em desconstrução, como dizemos hoje. Ou seja, a pandemia veio como uma cereja de chumbo sobre o bolo dos relacionamentos a dois, um shot concentrado de desigualdades na vida cotidiana de homens e mulheres. E muitas de repente tomaram consciência de qual era o problema - não, não era a rotina pura e simples, mas uma rotina desigual e massacrante para elas, para nós. Eu mesma, quando tive essa epifania, me senti tão liberta por saber que não era a união que me incomodava, mas a atribuição de papéis que não me cabem. 
Porque a ideia de se juntar a outra pessoa para compartilhar a vida, agregar, somar forças, multiplicar o que é bom e dividir o que não é aquela cocada toda, é ótima. Por isso tantas pessoas se unem, por isso é estranho que a simples rotina seja capaz de separá-las. Claro que há muitos casos de diferenças inconciliáveis, visões de mundo díspares - para isso não há muito jeito, e também não é culpa da rotina. Mas a exploração de uma pessoa por outra, ainda que inconsciente, isso sim, é capaz de acabar com qualquer amor, qualquer tesão, qualquer casamento.  
Por isso, reafirmo: se casar, case-se para o compartilhamento de afeto, ideias e experiências, mas não para se escravizar a um costume caduco. Case-se pelo que acredita, e não pelo que foi determinado por outrem. Se sequer suspeitar da armadilha, viva, não case. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Juntos, para o que for

Tenho procurado não me afligir com o resultado da eleição, no próximo domingo. Difícil. Fico dividida entre esperar o milagre da vitória democrática e fortalecer o espírito diante de tempos sombrios. Penso nos amigos, na família, em tanta gente que ficaria em perigo no caso de um avanço fascista. Me dá vontade de estar perto de todos, de abraçar todos, de unir forças e energias e ações e projetos. Não estar no centro dos acontecimentos tem disso, essa distância da ação fundamental. 
Em casa, me preocupo ainda mais com nossa alimentação, nosso bem-estar. Penso que precisamos estar fortes fisicamente também, para o que for. Fortaleço core e coração, mente, corpo e espírito. 
Eliane Brum, em mais um texto belíssimo, fala da importância, em tempos de horror, de não renunciar a nossa subjetividade, de resistir nas pequenas coisas do cotidiano ("no amor, na amizade, no sexo, no prazer de ver um filme ou ouvir uma música, num café bem coado"), do estar junto. Do estar junto com os que refutam a violência, a intolerância, a repressão - reforçar a rede de proteção contra possíveis golpes, que, num caso de instauração do fascismo, certamente virão. Já vieram, quando soubemos aqui e ali de pessoas queridas (poucas, ainda bem) que apoiam o horror; já têm vindo, no terrorismo contra quem ousa se pronunciar publicamente ou simplesmente ser o que é. 
Os violentos que haviam se camuflado nesses poucos anos de governos democráticos agora mostram garras e dentes afiados, fazem chacota da liberdade, repetem frases loucas como autômatos. É muito chocante tanta ignorância altiva, mas não podemos deixar que esse choque inicial nos paralise. Menos ainda o medo. Já vencemos o medo uma vez, unindo forças. De novo, será necessária toda força, toda união. O coração da liberdade, das liberdades batendo junto e muito alto. Para o que for. 

quarta-feira, 28 de março de 2018

A dor e a delícia

Não é fácil ser quem se é, bato nessa tecla várias vezes. Os padrões, as pessoas, o sistema, tudo quer nos engessar para maior controle e "harmonia" num mundo de desigualdades de todo tipo.
Por exemplo: uma moça está esperando um filho daquele que é seu companheiro há duas décadas. O bebê deve nascer a qualquer momento, ela está no final da gestação. Ela, que protelou muito uma gravidez, resolveu gestar uma criança.
Desde o início, houve a cobrança de uma gestação coletiva, com toda a família do marido. Deveria haver a presença constante dos avós paternos, a futura mãe deveria pedir e ouvir conselhos, aceitar a participação de toda a família em sua gestação. Mas ela, já conhecida por seu pouco apreço à sociabilidade, seguiu fazendo e cumprindo suas regras, estudando sobre o assunto, tomando somente para si o desenvolvimento do bebê. Por sorte, é uma mulher independente, que sempre trabalhou e batalhou muito e já colheu alguns frutos desse modo de ser.
Os familiares do futuro pai ficaram inconformados. De lamentosos passaram a irônicos e, num dado momento, agressivos com a futura mãe, que se fechou ainda mais em copas. Somente ela e o bebê, sem precisar de ninguém. O pai se alia aos familiares, impõe à mãe que ela precisa mudar para que continuem juntos. A mãe reage a isso também, dizendo que ele precisará reconquistá-la. Um impasse, no sentido do francês original, de "rua sem saída".
Na verdade, essa moça continua sendo quem sempre foi. Alguém com temperamento forte, pouco sociável, pouco ligada a padrões familiares. A gravidez deixou-a mais sensível e ensimesmada. Sentindo-se invadida, protegeu-se ainda mais. Porque espera um bebê, os circunstantes acreditaram que mudaria para satisfazê-los. Pior: todas as expectativas foram depositadas no pobre bebê, novo messias transformador da realidade.
Mas a vida real não é assim. O bebê até vai mudar a realidade, mas não do jeito que se espera. As pessoas ao redor mudarão em algum sentido, mas não no que se espera. Talvez o casal permaneça unido, talvez seja melhor não, se o que se espera dele é que satisfaça pessoas fora da relação. Talvez o bebê mostre, na verdade, outros caminhos possíveis para a felicidade, como o do respeito à individualidade, o do direito ao silêncio e à calma. Que família não são todos juntos o tempo todo, mesmo se detestando, mas pessoas que, não tendo "direito a troca", deveriam aprender a se respeitar e assim aprender a se amar (até porque o amor de geração espontânea é raro e não sobrevive sozinho).
Ser quem se é pode ser libertador, mas também é doloroso algumas vezes. O preço é alto, mas vale cada centavo.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

As solidões

Minha amiga Eliane postou no FB uma entrevista dada pela escritora britânica Olivia Laing ao El País. Eu não conhecia Laing, mas gostei da temática sobre a qual ela tem escrito, a solidão. Fui atrás do livro outro dia (A cidade solitária: aventuras na arte de estar sozinho, da Anfiteatro, um selo da Rocco), e realmente é uma delícia a forma como ela articula a discussão sobre a solidão como fenômeno urbano com a obra de alguns artistas da literatura e das artes plásticas.
Mais que isso, Olivia Laing fala sobre as diversas solidões, o sentimento de se sentir sozinho mesmo em meio a muitas pessoas, o viver sozinho e não se sentir solitário, a solitude urbana.
Uma vez, conversando com Eliane sobre um novo relacionamento, ela comentou sobre o que lhe parecia ser minha solidão contínua, que naquele momento poderia ter fim. Aquilo soou um pouco estranho aos meus ouvidos, porque eu não me sentia solitária, mas logo entendi: ela aludia ao fato de eu ter vivido sozinha (mesmo estando em eventuais relacionamentos) por muitos anos, o que não significava, para mim, sofrer com a solidão. Na verdade, temo menos a solidão que a invasão.
Eu me senti sozinha algumas vezes, principalmente em momentos mais difíceis. Mas nunca me vi como uma pessoa solitária. Aprendi a gostar da minha companhia, gosto da liberdade que estar sozinha proporciona (embora, sendo eu mulher, ela tenha seus senões) e sempre cultivei as amizades. Posso dizer que experimentei quase todas essas solidões a que Olivia Laing se refere, umas mais, outras menos. Não me lembro, por exemplo, de alguma vez ter me sentido oprimida no meio da multidão, mas me fez falta conhecer meus vizinhos quando, certa ocasião, um ladrão invadiu o prédio onde eu morava - o terror que senti certamente seria aplacado se eu não estivesse sozinha. A união nos torna fortes, disso não há nenhuma dúvida. Ao fim de alguns relacionamentos, tive a sensação mais de abandono que de solidão, que realmente senti quando fui morar sozinha; foi quando veio aquela consciência súbita, agora sim, estou só, aqui, deitada no sofá-cama no meio desta sala ainda sem cortinas. Mas lidei com isso melhor do que esperava, claro que contando com o apoio de amigos, que logo vieram povoar qualquer vazio.
Via de regra, porém, aprecio os momentos de estar só comigo mesma. Indagar-me se está tudo bem, se o caminho que está sendo seguido é do meu agrado, se falta algo. Só para mim mesma posso admitir, perguntar e responder certas coisas. Posso simplesmente ficar em silêncio - o maior sinal de intimidade que há, no final das contas.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Como é belo e nada fácil ouvir!

Assistimos, outro dia, ao filme Os Meyerowitz: família não se escolhe, produção Netflix com Dustin Hoffman, Ben Stiller, Adam Sandler e Emma Thompson. O início nos deixa tontos, com as falas desencontradas das personagens, que ainda por cima falam de arte como se todo mundo entendesse do assunto - mas logo entramos no ritmo já que isso é tão somente a maneira como as pessoas se comunicam hoje: desencontradamente, aos borbotões, aos solilóquios, sem preocupação nenhuma com quem recebe as rajadas falatórias.
Eu sempre falei muito. Gosto de falar, acho que falo bem, curto um palquinho. Mas também gostava de convencer, de discutir, ou achava que gostava. No fundo, isso me tirava a energia. Meus irmãos mais novos sofreram com essa minha falação convencedora, que não dá espaço para o que o outro tem a dizer, por mais estapafúrdio que nos pareça. Um dia, tive um clique e parei para ouvir mais. É um exercício de concentração também, de estar presente para o outro. Não necessariamente concordo com o que ouço, simplesmente ouço. E vejo como isso é cada vez mais raro, alguém que ouça, que permaneça ali.
No dia a dia, fico cansada só de testemunhar as tentativas de convencimento mútuo, normalmente sem qualquer momento de "audição". As pessoas falam cada vez mais alto com o intuito de calar seu "oponente" (não mais um interlocutor). Dali a pouco, a conversa vira discussão, uma coisa tão sem pé nem cabeça que os falantes nem se lembram mais o que defendem/atacam. É muito chato. Imagino quanta gente já sofreu comigo (embora eu não me lembre de chegar aos gritos numa conversa).
A forma mais simples de encerrar uma discussão ou nem começá-la (pensando em discussão como essa conversa aos brados, e não como debate e troca de ideias) é justamente o silêncio. Ouvir. Porque, embora pareça uma atitude submissa, é uma ação muito pontual, agraciadora para quem a recebe. Quem é ouvido sente-se grato, e nem sabe por quê.
Até mesmo para os casos críticos de faladores bizarros, que pregam a intolerância em suas vertentes diversas, creio que o melhor também seja o silêncio, neste caso usado como arma política, ignorando o que dizem para que suas palavras doentias não ressoem ainda mais, mas agindo para que aquilo que pregam não ganhe força.
Por gentileza ou por protesto, o silêncio é mesmo uma dádiva em dias tão ruidosos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Estrangeira

Filha e neta de nordestinos que sou, sempre me incomodei com as "brincadeiras" voltadas aos nordestinos, especialmente aos baianos - o que não quer dizer que eu não as tenha feito, quando criança, seguindo a onda dos amiguinhos, embora com um remorso lá no fundo.
Em São Paulo, o estado com maior número de baianos fora da Bahia e maior número de nordestinos do país, isso é e sempre foi corriqueiro. Baiano é sinônimo de nordestino, baianada é sinônimo de burrice, de barbeiragem. Por extensão, todo nordestino seria afeito a barbeiragens. Não bastasse o horror, a indecência de se dizer isso de toda e qualquer pessoa, seja quem for e de onde for, ainda por cima é uma afirmação injusta com quem trabalha muito, muitas vezes de sol a sol, muitas vezes em condições precárias e exploratórias. Como todo e qualquer preconceito, não faz nenhum sentido. Ou melhor, é, em si, como todo e qualquer preconceito, um exemplo de barbeiragem, de falta de destreza e inteligência.
Aí eu me mudei para a Bahia. De cara, houve duas reações à minha chegada: a gozação por eu ser paulista (sinônimo de ser caipira, não descolado, ou fresco, metido, de só viver para o trabalho ou sempre reclamando de tudo) e uma autocrítica baiana antecipada (antes que a paulista metida criticasse os costumes locais, os próprios baianos faziam isso). Ambas as reações, nada agradáveis. A primeira foi se tornando menos comum, mas a segunda persiste, o que me entristece.
Pela primeira vez, estive do lado de quem é julgado por sua suposta cultura, claro que sem o mesmo peso dos nordestinos fora de seus estados. Porque, de qualquer modo, embora "paulista", eu sou branca (um pouco amarela, é verdade) numa terra de maioria negra e parda. Aqui as divisões étnico-econômicas são muito evidentes. Quem "serve" é normalmente negro ou pardo. Também não vejo muita diversidade nas relações - lembro como me surpreendi ao conhecer os amigos do marido: todos brancos, altos, bonitos, hetero e bem nutridos. Eu, que venho de uma cidade caótica e multicultural, que tenho amigos de toda cor, credo, formação, classe social, orientação sexual, fiquei um pouco espantada. Nunca tinha estado em um grupo tão homogêneo, a nata da sociedade soteropolitana.
Aqui e ali, vejo que agradaria às pessoas que eu me tornasse mais baiana, como uma aceitação plena do novo locus. Mas aceitar o novo locus e me encantar com ele não significa deixar de ser quem sou - brasileira, filha de nordestino e nissei, paulista.
O fato fatídico é que sou estrangeira, talvez sempre seja, apesar da minha facilidade de adequação às situações. Não acho isso nada ruim - por sê-lo é que posso perceber as nuances das relações, da cultura local, e me enternecer com situações como a de ir à Avenida Sete comprar coisas para casa e as vendedoras se despedirem de mim assim: "Tchau, meu amor. Vai com Deus". Coisa mais linda não há, e eu vejo, e sei, porque, vinda de fora, estou dentro.

sábado, 26 de novembro de 2016

Os deméritos da meritocracia

Uma vez, ouvi de uma moça que só encontrei uma vez que "para saber onde se quer chegar, é preciso não esquecer de onde se vem". Me identifiquei muito com aquilo. Afinal, todo dia me lembro o quanto batalhei para ser quem sou - muito embora essa batalha tenha sempre parecido muito natural. Eu sabia, desde muito nova, que ficar esperando não me traria nada. Sempre fui atrás do que queria, sobretudo do conhecimento, que foi o que me levou mais longe sempre. Não teria feito nada diferente.
No entanto, tenho consciência de que teria sido mais difícil se eu não tivesse sido criada entre livros, se não tivesse tido apoio dos meus avós, se minha mãe não empregasse seus esforços na nossa educação. Se, além de pobre, eu fosse negra, com certeza tudo teria sido mais árduo. Quer dizer: não bastaria minha vontade para eu "merecer" minhas vitórias.
Não faz muito tempo que conheci o significado da palavra meritocracia. Para os incautos, seria o termo mais adequado para descrever minha trajetória. (Alguém pode objetar, e lembrar que não me tornei nenhuma milionária, nem ganhei prêmios no exterior por alguma descoberta científica relevante. Mas acho que minha trajetória é vitoriosa - poderia ter me contentado a cursar qualquer coisa só para conseguir um trabalho, e então viver de pagar contas e ambicionar coisas caras; acabei optando por ter um conhecimento de qualidade, que não cessa de crescer, para ficar só na esfera das "riquezas".)
Eu quase acreditei por um momento que a meritocracia era um bom verbete, que daria conta de tratar da superação, do autoconhecimento etc. Aí percebi que era uma falácia, uma forma de os poderosos afirmarem que o problema não é a desigualdade social, mas a preguiça da maioria em sacudir a poeira e partir pra conquista dos seus sonhos, como se isso em si bastasse, como se não fosse necessário dar oportunidades iguais a todos. Desse modo, o problema é transferido para os indivíduos, para sua incompetência, retirando do Estado a responsabilidade de garantir o bem-estar social a todas as pessoas. Somente alguns poucos não privilegiados conquistam algo melhor porque são poucos os que de fato correm atrás, que "merecem" chegar lá.
Trata-se de uma armadilha pérfida do neoliberalismo. Já vi muita gente boa acreditando nisso, que basta a iniciativa individual para alguém ascender socialmente. Sem condições equânimes de estudo e trabalho (para não mencionar o bem-estar familiar, a alimentação saudável etc.), é quase um milagre o sujeito pobre, negro, nordestino, mulher, homossexual se destacar. Também acaba sendo uma forma de se encerrarem os desagradáveis debates sobre a desigualdade. Quem não conseguiu, é porque se esforçou pouco, ora essa!
E assim alimenta-se uma sociedade ainda mais rancorosa, desigual, improdutiva. Quem falhou, não cobra do Estado melhores condições de vida - limita-se a invejar quem as possui. Quem as possui, olha com arrogância para os desvalidos. Aumenta a violência, cresce a necessidade de consumo de todo lado, para quem quer continuar sendo cidadão "diferenciado" e para quem quer se tornar "cidadão" aos olhos do outro.
Com o domínio da meritocracia no imaginário geral, cada vez mais vemos a democracia se distanciar.

domingo, 10 de maio de 2015

Maternidade

A essas alturas da vida, já sei: não serei mãe. E tudo bem. Não me considero uma aleijada. Acho que se foi o tempo em que era obrigatória a maternidade para uma mulher ser considerada completa.
Quer dizer, acho que esse tempo se foi, ou deveria ter ido (mesmo já havendo um termo para definir as mulheres que não querem ter filhos, a geração NoMo, quantos ataques as mulheres independentes ainda sofrem). Cansei de ouvir, já aos 15 anos, que precisava me casar e ter filhos. Depois, os familiares desistiram - viram que eu era "meio diferente", e alguns até apostavam, normalmente em silêncio, que eu era lésbica.
Eram duas coisas que não faziam muito sentido para mim: casar e ter filhos. Não como coisas que me causassem repulsa, mas como padrões que eu não me sentia obrigada a seguir - se rolassem, que ótimo. Mas eu nunca iria me sentir obrigada a uma e outra só porque "todo mundo faz assim".
E não que eu não desejasse um companheiro com quem dividir as aventuras da vida. Ou não gostasse de crianças, ou não tivesse um apurado senso maternal. Tanto é que adotei Chico e Zen, por essa necessidade de dar amor, de cuidar. Antes cheguei a pensar em adotar uma criança, mas a crise me fez colocar pé na realidade. Seja como for, só não me sinto presa às ideias alheias, pelo menos a essas duas (sobre convenções, já falei no Nem guerê nem pipoca).
Quando ouço aquelas frases feitas "mãe é mãe", "mãe é só uma" etc., imagino como isso facilita a vida das pessoas, que, desse modo, não precisam pensar sobre as tão complicadas relações familiares. Minha mãe, por exemplo, fez tudo o que podia por nós, mas não é possível colocá-la no mesmo balaio de todas as mães. Aquela história da "comida da mamãe" nunca rolou muito em casa, porque minha mãe trabalhava fora. Como ela fosse muito reservada, talvez até pudica, não me deu os primeiros toques sobre namorados, sexualidade ou até mesmo carreira a seguir. Fui percebendo isso na conversa de outras mães, com as filhas que eram minhas amigas.
Para minha mãe, o aprendizado materno deve ter sido difícil. Imagino que ela sonhasse com o príncipe encantado, no caso meu pai, que logo mostrou ter pouco de realeza. E ali estava ela, com três filhos para criar, sob a égide dos sogros. Apesar do amor que com certeza sentia, tinha dificuldade em demonstrar afeto - reflexo do que vivera na casa dos pais, com tantos irmãos - e por isso deve ter parecido ausente para meus irmãos. Eu mesma, muitas vezes, vi minha mãe mais como minha filha que outra coisa. Ela não se encaixa no modelão das propagandas de TV ou das mães dos meus amigos. Acho que ser mãe não é puramente fisiológico; embora a natureza tenha um papel importante, há o aprendizado que cada mulher absorve de um jeito. Amar também se aprende, e não há nada mais distante de regras sociais que isso.
Minha mãe tornou-se uma ótima avó, naquele sentido de permitir tudo aos netos, de expressar seu afeto com maior gratuidade. Eu virei mãe de dois gatos e sou mãe das minhas criações, dos meus projetos, que acalento cuidadosamente.
Tá tudo certo. Tá tudo ótimo. E feliz dia, mãe, não pelo que pregam as convenções, não pelo que você "representa", mas por quem você é.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O dono e o autor

O que seria da vida se não tivéssemos insights de vez em quando? OK, deve haver muita gente que não dá ouvidos a esses pensamentos que fazem cócega no espírito, parecendo ter origem na mente, mas certamente irradiados do coração (num sentido mais amplo que o de órgão muscular bombeador de sangue).
Eu tenho cada vez mais valorizado os meus. E um dos últimos foi justamente acerca da vida, de tanto ouvir projetos alheios a respeito dela. Muitas pessoas querem ser donas de sua vida, como se isso não estivesse pressuposto. O problema é o que fazemos dessa "propriedade" de viver enquanto vivemos. Difícil é fugir dos sistemas opressores, das culturas impostas, dos traumas pessoais. Construímos muros e grades ao nosso redor, acreditamos que não temos direito à nossa existência, agimos como autômatos porque acreditamos no que nos dizem, e não na nossa voz interior. Para ser feliz é preciso percorrer um longo caminho de conquistas materiais; ser feliz é lá longe, não cá dentro. Confusão típica de um mundo que valoriza o ter no lugar do ser.
Para fugir a essas armadilhas, portanto, não basta apenas o ser dono da própria vida, realidade da qual nos esquecemos/afastamos, mas dar um passo além: o ser autor da própria vida.
A autoria, por sua vez, pressupõe um impulso criador, e isso já nos basta para evitar a mesmice, a normose e a consequente frustração. Para criar, é preciso entrar em contato com nosso eu mais profundo, que nos define como pessoas únicas, com sonhos e talentos intransferíveis. Talvez esse eu profundo seja o que eu chamei de coração há pouco. Alguns vão chamá-lo Deus (também aqui abarcando todos os nomes que Ele tem nas diversas religiões). E como ser infeliz quando se atende ao que há de mais sagrado em nós?
Por isso eu prefiro ser autora a apenas dona da minha vida. Prefiro bordar meus caminhos, poder mudar de ideia e de rumo quando meu coração assim pedir. Criar saídas onde não houver uma. Fluir com a vida, ver minha chama brilhar até que chegue o dia em que ela naturalmente se apague.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Um contínuo fazer-se a si

"O senhor sabe... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão."
Sempre achei tão lindas essas palavras roseanas, e hoje sei que não são só literatura. Estamos mudando constantemente, embora haja algo de essencial no fundo que pouco se altera.
Agora acredito que seja assim, mas já fiquei muito confusa a esse respeito. Quando fui fazer terapia, entendi que devia ser quem era, e entrei em parafuso ao pensar que não conseguiria chegar a essa conclusão jamais, pois estava mudando sempre, o tempo todo deitando certezas fora. Parte dessa confusão talvez se devesse à minha necessidade de me agarrar a coisas concretas após experiências familiares brumosas. Mas como dar concretude ao cambiante ser humano? Tinha sempre a sensação de estar errada, de ter assumido uma persona em vez de viver minha verdadeira essência. Hoje penso que eu sou tudo isso ao mesmo tempo e que o melhor a fazer é relaxar diante de uma realidade tão líquida, de uma quase completa falta de controle.
Se não me fez fixar um modo de ser (o que provavelmente seria impossível), a terapia ao menos me levou a descobrir outras camadas, outros possíveis dentro de mim. Ajudava muito quando meu terapeuta dizia para eu ouvir meu coração - que, afinal, pode bater por coisas diferentes a cada dia. E tudo certo, pois seguir essa cadência é saber que se vive. E viver é essa transformação diária do humano de que fala Riobaldo em sua sabença sertaneja.
Poder fazer-se a si continuamente, e não ter que descobrir uma única verdade, isso é realmente tranquilizador.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Os perigos do viver

Viver está cada vez mais perigoso. Além da intolerância, violência, desastres climáticos, há os riscos comezinhos, como os malefícios do glúten, dos agrotóxicos, do café e do ovo (nem vou citar as gorduras e o açúcar, vilões há muito mais tempo). Até comprar roupa é perigoso, porque corremos o risco de alimentar a indústria do trabalho escravo. Pode ser que sempre tenha sido assim, mas agora as coisas têm sido escancaradas sob uma luz insuportavelmente clara.
De repente, nos damos conta de que não temos controle sobre nada, que no fundo tudo é produto de um grande acaso. Para Nietzsche, isso tinha a ver com ficar cara a cara com o trágico e, de preferência, sobreviver a ele. Dito de maneira mais simples, ter um choque de realidade. Descobrir que não há garantia de nada, mesmo que recebamos todas as garantias. Que, a bem da verdade, não é possível colocar a mão no fogo por ninguém, nem por nós mesmos. Porque tudo muda sempre, porque essa é a natureza da vida/realidade/mundo. Que a única coisa real é agora, que amanhã e a depender da memória dos envolvidos não será mais.
Mesmo assim, vivemos. Topamos o desafio. Alguns, nem consciência têm disso - sequer têm consciência, como Riobaldo, de que viver é naturalmente muito perigoso. Os que o sabem continuam caminhando até a beira do precipício, esperando a chegada do novo ano ainda que desconfiem de que ele será apenas continuação do que supostamente termina - sem possibilidade de previsão. Ainda assim, fazem planos e promessas, mesmo que desconfiem que nem sempre realizarão uns e outras. Se são corajosos ou se mentem, sabem que é assim que se faz.
Porque, como nada é previsível, a beira do precipício pode ser não um salto para a inevitável morte, mas uma bela plataforma de voo para o desconhecido que é viver.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Brigas que valem a pena

Até os meus 16 anos, ou talvez um pouco mais, eu tinha disposição para discutir com as pessoas sobre política. Ficava inconformada com os argumentos pífios daqueles que se preocupavam apenas com seus imperiais umbigos, querendo que o país e a humanidade explodissem, desde que eles e seus privilégios saíssem ilesos.
Depois percebi que esse era um direito deles. Que eu não precisava, e nem conseguiria, convencê-los. Que, na verdade, tinha que fazer da minha luta uma briga pessoal que valesse a pena. Fazer o meu melhor para tornar melhor o mundo em que vivo, melhorar a minha relação com as pessoas, ajudar quem de fato precisa. E já é muito. 
Ontem, Dilma foi reeleita. No primeiro turno, preferi votar em Luciana Genro, mesmo sabendo que ela não ganharia. Em nenhum momento, apesar das decepções com o PT, me passou pela cabeça votar em Aécio Neves como forma de "protesto". Que protesto seria esse, de retroceder, colocar no poder um governo com forte tendência à direita? Então, ontem, no segundo turno, votei em Dilma, apesar de tudo, porque, bem ou mal, ainda é um governo mais voltado para a maioria. 
Aliás, há coisas simples que muita gente não entende. O que é direita e o que é esquerda? Trata-se de uma divisão entre quem olha apenas para o umbigo e quem sabe que o melhor para a maioria também favorece a si. Simplésimo. Claro que hoje, com os conchavos todos, os limites ficam mais tênues. Mas para isso existem as estatísticas e resultados: quem investe mais em educação, quem favorece os mais pobres? Em que governo a possibilidade de viajar mais, ter acesso à cultura, inclusive para os reclamões de plantão, ficou maior? Em que governo os denunciados por corrupção passaram a ser punidos? 
Se cada um votasse em que de fato o representa, entendendo o que é democracia, muito mimimi seria evitado. 
Mas, diante da incompreensão de coisas tão claras, emergem os ódios de quem não tem argumento. Inclusive pessoas de quem gosto, colegas antigos. Optei, portanto, por não me posicionar no Facebook, porque quem me conhece já sabe de que lado voto, e porque não queria entrar em brigas que não valem a pena e só teriam como resultado mais ódio e separação. Achei admiráveis os amigos que deram a cara a tapa e tiveram de ler coisas bizarras em suas linhas do tempo. 
É claro que se alguém que conheço pregar o ódio aos nordestinos, aos negros, aos pobres, aos gays, o separatismo no Brasil, serei obrigada a excluir a pessoa das minhas relações. Talvez alguns me excluam também, ao ver que páginas eu curto. Mas será uma faxina saudável e silenciosa, para que sobre mais energia para as brigas que realmente valem a pena, como cobrar do governo eleito as promessas feitas. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Saber envelhecer é perder o medo da morte

Outro dia, em um café com amigos, falamos sobre envelhecer. Tudo porque comentávamos nossa pouca tolerância a algumas coisas (barulho, multidão), coisas que há alguns anos nem percebíamos, ou talvez não fossem tão extremas como hoje. Aí o Wagninho lançou o diagnóstico: estamos ficando velhos!
Eu nunca me preocupei com idade e nunca ocultei a minha. Sempre pareci mais velha quando jovem, e agora me atribuem alguns anos a menos, o que acaba sendo lisonjeiro, mas não faz assim grande diferença.
Pouco antes de eu fazer 40 anos, estava achando essa história de idade uma bobagem também no que se refere aos efeitos sobre o corpo. Dois ou três anos depois, vejo como isso sim, faz diferença. De repente, a fragilidade latente fica patente. A cada dia, a proximidade com a morte dá um pouco mais as caras. Primeiro, nas pessoas próximas, nos parentes mais velhos, nos pais de amigos. Depois, é com a gente mesmo. E quantos ficam desesperados em rejuvenescer. Pior: ficam desesperados com não ter feito da vida tudo o que queriam. Pior ainda: gostariam de voltar ao que já passou.
Ultimamente, junto com a experiência terapêutica e com a necessidade de respirar mais e ter mais foco, tenho pensado em como as duas coisas estão intrinsecamente ligadas, em como envelhecer bem tem a ver com a aceitação da nossa finitude, leia-se, nossa morte. Muitos dos grandes problemas humanos de hoje têm a ver com essa não aceitação, com a ilusão de que somos eternos. A ciência nos garante parte dessa ilusão, a sociedade de consumo, outro tanto. Mas a culpa não é delas.
Quando eu era bem jovem, tinha pavor de pensar na morte da minha avó. Por isso, vivia cada instante com ela - cantávamos, dançávamos, conversávamos. Ia com ela ao médico. Contava sobre minhas viagens. Quando ela morreu, eu estava pronta para sua partida, embora me doesse bastante - chorei sobre seu corpo enquanto a vestia para o enterro. Mas não houve culpa, porque vivemos o que tivemos de viver juntas.
No final das contas, vai ver que eu sempre soube que era simples assim. É que a gente se deixa carregar pelas torrentes alheias, pelas necessidades alheias, por aquilo que a mídia nos impõe. Acaba se esquecendo de que a vida é um ciclo naturalíssimo - se é assim com os outros bichos, por que conosco seria diferente? A diferença é que temos uma consciência que entra em curto de vez em quando; quando tudo está funcionando bem, compreendemos essa finitude, presentificamos nossas atitudes e relações. Do contrário, cuidar da alimentação e fazer ginástica acabam sendo preocupações superficiais, ditadas pelos outros, pelas aparências.
Quando a gente perde o medo da morte (pelo menos o pavor e o evitar falar sobre, como se não existisse), porém, cuidar de si e fazer o que se gosta tornam-se coisas simplesmente boas e prazerosas. Como deve ser a vida. Aliás, aquela bronca "vá cuidar da sua vida" é de uma sabedoria gritante e mais pertinente se torna no início do entardecer de cada um.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quando dizer não é dizer sim

Meu cabeleireiro um dia me falou de algum conhecido seu que, com uma comparação simples, explicava por que ele preferia ficar feliz a deixar o outro feliz, se tivesse que escolher entre uma coisa e outra. Tinha alguma coisa a ver com esse conhecido aceitar ou não um cheque e explicar o porquê.
Outro dia, conversando com um amigo historiador, falamos do homem cordial de Sérgio Buarque, em como ele faz parte da nossa cultura nacional. Daí vêm os convites para tomar café que nunca se realizarão e as propostas meramente retóricas que tanta gente faz. Para agradar o outro, mas principalmente para criar uma imagem/persona agradável.
Outro dia, ainda, uma amiga comentou como ela está aprendendo a dizer não sem ter que dar maiores explicações. Ou seja, como está se desvencilhando da mera cordialidade, que acontece quando, querendo dizer não, dizemos sim para agradar/parecer agradável. 
O conhecido do meu cabeleireiro é um senhor japonês, portanto tem menos dificuldade com simplesmente dizer não, embora ainda careça dar explicações em nome do bom convívio. Eu, embora tenha parte das minhas raízes no distante solo nipônico, tenho dificuldade com dizer não imediatamente. Sempre disse muito sim, e só agora percebo que se, de um lado, isso possibilita um fluxo mais aberto às coisas da vida (ser a tal "pessoa positiva"), por outro lado, algumas vezes se torna uma agressão a mim mesma. Como disse em outro post, sou da turma das pessoas-cães, que necessitam de aprovação, e tem hora que quero só gritar não e me ouço dizendo sim (também já falei disso no post sobre o pretinho básico).
Tenho vivido nos últimos tempos a situação de dizer sim a diferentes pessoas e depois perceber que tinha de dizer não. Ao não, costumam se seguir os queixumes. Vem o frio na barriga, em escalas variadas a depender dos envolvidos, diante da possibilidade de retaliações. Ultimamente tenho mudado a perspectiva para avaliar a situação - olho para o outro dando a ele a importância que me dá. E isso facilita horrores a tomada de decisão: em vez de simplesmente lhe dizer não, escolho dizer sim para mim. É difícil. Muitas vezes, é imensamente mais trabalhoso do que dizer não para o outro.
Por uma questão de coerência interna, resolvi continuar dizendo sim, mas sobretudo para a pessoa mais importante da minha vida: eu.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Como fazer o navio afundar

O mercado está cada vez mais repleto de livros e manuais sobre relacionamentos. Todo mundo tem a receita do que fazer para que deem certo.
Por que ninguém pensa no que fazer para dar errado? Não seria mais fácil? Sabendo o que muita gente faz para isso, é só fazer o contrário, se se pretende ter êxito num relacionamento.
Pensando nas minhas experiências e nas de pessoas próximas, elenquei alguns tópicos (porque esses manuais são normalmente organizados em tópicos):

1. Não ouça. Quando seu parceiro ou parceira começar a contar alguma história, já ouvida ou não, ou tentar desabafar acerca do dia difícil que teve, mude de assunto ou faça cara de desinteresse, ou os dois ao mesmo tempo.
2. Deixe seu parceiro ou parceira sempre em dúvida acerca de vocês.
3. Trate seu parceiro ou parceira como objeto, dispondo dele ou dela na hora em que precisar.
4. Não inclua seu parceiro ou parceira em nenhum de seus planos, a menos que seja algo que lhe interesse.
5. Não estimule seu parceiro ou parceira a alçar voos mais altos, nem a ter atividades criativas. Aliás, faça aquela cara de "quanta bobagem!". Aliás, só estimule seu parceiro ou parceira a fazer coisas que lhe interessem diretamente.
6. Critique seu parceiro ou parceira (pode ser uma crítica pequena, mas claramente uma crítica) na frente dos outros. Quando estiverem a sós também, para que não haja nenhuma dúvida.
7. Constranja seu parceiro ou parceira de alguma forma.
8. Nunca peça desculpas a seu parceiro ou parceira, mesmo que você esteja muito errado.
9. Sempre peça desculpas, mesmo que não tenha culpa.
10. Ridicularize alguma coisa que seja importante para ele ou ela - comportamentos, gostos, medos etc.
11. Não dê nenhuma satisfação sobre a sua vida para o parceiro ou parceira.
12. Conte tudo o que acontece na sua vida.
13. Controle cada passo de seu parceiro ou parceira para que ninguém se aproxime dele ou dela (não significa ouvir histórias tristes ou reclamações, só saber onde ele ou ela esteve).
14. Faça-se de vítima sempre que necessário quando perceber o desinteresse dele ou dela.
15. Ceda a chantagens.
16. Reclame ao receber mais um presente, embora goste de ganhar presentes.
17. Faça de tudo para agradar.
18. Fale de antigos relacionamentos sempre que tiver oportunidade. Se possível, faça comparações.
19. Prefira sempre estar em grupo do que a sós.
20. Tenha sempre outras prioridades - pode ser trabalho, hobby, outras pessoas.
21. Faça do seu parceiro ou parceira sua prioridade, mais importante que outras áreas da sua vida.
22. Quando tiverem algum problema, deixe claro que a culpa é dele ou dela.
23. Deixe claro que aquilo que ele ou ela tem para lhe oferecer nunca será suficiente - você já teve ou ainda terá muito mais.
24. Flerte com amigos ou amigas dele ou dela, ou com outras pessoas, de preferência na cara dele ou dela.
25. Deixe claro que não tem planos de viver com ele ou com ela, que você sonha com outra realidade e com uma pessoa que pertença a essa realidade (desdobramento do item 4).
26. Complemento ao item 1: só fale de você, assegure-se de que ele ou ela está ouvindo com atenção e brigue se não estiver.
27. Não invista, só receba.
28. Faça cara feia para conselhos (desdobramento do item 1).
29. Trate seu parceiro ou parceira como filho ou filha.
30. Trate seu parceiro ou parceira como pai ou mãe.
31. Só doe, não cobre nada.
32. Cobre tudo, o tempo todo.
33. Mesmo querendo explodir, não diga que há um problema.
34. Vá levando.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Da autoimagem

A maneira como vemos a nós mesmos faz toda diferença. A tal da "atitude". Mas às vezes assusta como as pessoas nos veem.
Um dia desses, um ex-namorado, que tinha já me assuntado no Facebook, resolveu voltar à carga com a história de nos encontrarmos pra tomar uma cerveja. Para não ser grosseira, disse que estava sem tempo, que quem sabe "algum dia" tomávamos um café. Não tenho vontade de encontrar a pessoa, não imagino que assunto possamos ter, nem me vejo mais como a mulher que um dia sentiu algum interesse por aquele homem. Ou seja, não vejo resquício nenhum de passado e nem vislumbre de futuro que possam me ligar ao sujeito.
Então, ele perguntou: "e se eu radicalizar o convite?". Medo! Que quer dizer isso? Tive que responder, para evitar muito lengalenga, que era "melhor não". Pronto.
O que me espantou foi não só a autoimagem do dito, mas ele ainda me ver como alguém potencialmente interessada nele. Achei pretensioso além da conta. De todo jeito, até que eu gostaria de aprender a ter um décimo dessa imagem tão positiva de si.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Inferno e descanso

Embora eu ande numa fase mais umbilical, não posso deixar de reconhecer como tenho sido coberta de carinho por alguns amigos em meio a uma torrente de mudanças, por isso mesmo difícil. Do mesmo modo que o outro pode ser um paraíso que se torna um inferno, ou que um ou outro venha nos puxar o tapete, há quem com seus cuidados traga o alento, o repouso necessário. Ou seja, embora eu saiba que preciso cada vez mais me importar menos com o que é do outro, sei também que não conseguiria viver sem me relacionar minimamente com os outros. Mesmo que algumas decepções façam parte do pacote.
Não sei o quanto o outro é o espelho de mim mesma, como afirmava Lacan. Que é parte desse espelho, não tenho dúvida. Mas é sempre surpreendente perceber, nesse processo de acolhimento que tenho vivido, como os outros me veem.
A Simone, que já havia me mandado o texto lindo sobre o amor e outros bichos, andou escrevendo, sempre lindamente, sobre como me percebe, e eu fiquei realmente espantada. Suave. Serena. Equilibrada. De outra amiga, Cláudia, ouvi que sou sistemática. De um amigo de décadas, Carlos, ouvi que sou corajosa.
Eu acho que sou maluca e um pouco inconsequente, choro por tudo, não sou organizada, quero fazer tudo ao mesmo tempo (alguma megalomania), vou no vai da valsa. Se pareço serena, pouco passional quando escrevo, é porque, à semelhança das vacas, sou um ser ruminante. Então, quando escrevo, muito já foi deglutido, elaborado. Talvez falte, como indica a terapia, a experienciação. Ou seja, botar a boca no trombone, me atrever mais, mesmo normalmente sendo alguém que dá as costas àquilo que "já não deu". Queria ser mais fogo que água. Talvez seja cultural - o meu lado nipônico me contém na hora em que devia explodir. Talvez seja trauma familiar. Talvez me acometa às vezes um cansaço de existir, como diria Pessoa.
O fato é que é difícil não se contagiar do outro, para bem e para mal. É difícil o sangue não errar de veia e se perder. Por ora, tenho aproveitado o momento bom do outro-que-traz-descanso. Porque sei que logo virão outros de todo tipo, inclusive trazendo uma escadinha pro inferno, a primeira coisa que tenho feito ao acordar é ME olhar no espelho, para não esquecer quem sou, que o outro é bem-vindo, mas que a casa/vida/alma é minha...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Peripateticamente

Que eu me lembre, desde criança sempre fui do agito. Minha avó dizia que eu não andava, corria. Cheguei a perder alguns dentes de leite correndo e me estabacando. Para não falar de algumas cicatrizes que vieram com as quedas.
A idade faz a gente tentar se conter, falar mais devagar, pensar com mais calma, calar mais vezes. O que é ótimo, porque nos torna mais consequentes e conscientes de nossas ações e escolhas.
Mas eu continuo precisando do movimento para viver. Pra facilitar, meus principais signos astrológicos (Sol, ascendente, Lua) são cardinais, os que precipitam a ação. Sei que tem gente que precisa ficar quietinha num canto pensando sobre o que fazer, qual o próximo passo a dar (e juro, estou aprendendo a respeitar esse outro ritmo). Eu fico algum tempo assim, quieta, penso, choro, rumino, reflito, mas logo percebo que tenho de colocar algo em movimento. Antes eu achava que era apenas a mim mesma que eu movimentava; agora percebo que é a vida. Porque vi que na minha vida as coisas assim se dão: mais faço, mais acontece; nada faço, nada acontece. Ação e reação.
Claro que hoje tento não "agir por agir", fugindo assim à reflexão essencial que as crises trazem. No entanto, mesmo quando estou arrastando os pés presos a bolas-de-ferro-de-tristeza, procuro prosseguir com aquilo que me faz bem, além de redobrar o foco no trabalho. E percebo como a tristeza, mas não a reflexão, vai se esvaindo aos poucos. E de repente coisas alegres surgem na minha frente, possibilidades mil, a chance - imediatamente agarrada - de realizar antigos sonhos. As questões da vida repentinamente se iluminam de sol. A tristeza pode estar ali, mas faz tanto, tanto sol que ela se encolhe num cantinho, com seus óculos escuros de viúva triste.
Um dia desses, li um texto sobre faxina emocional, tema que tem me interessado em particular. E de novo, lá estava essa imagem do movimento necessário - o processo psicanalítico era comparado a caminhar pelo inferno (como também me lembra meu terapeuta): de preferência não apenas em círculos, sem sair do lugar, embora, como o autor bem lembrou, a imagem infernal tradicional seja circular (e viva Dante por seus insights). 
Pensar nisso tudo (porque a mente também não para) me fez lembrar de Aristóteles, o discípulo de Platão. Com todo respeito que tenho pela alegoria da caverna, pelo mundo ideal e coisa e tal, acho que, tivesse eu vivido na Grécia antiga e o contexto não fosse de total misoginia, seria da turma dos peripatéticos. Sairia com eles caminhando e aprendendo à medida que caminhava, com as acaloradas e ricas discussões entre nós. Contudo, acho que em pouco tempo arrumaria minha malinha e sairia andando, aprendendo/apreendendo outras paragens, além-Grécia, além de mim.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Benesses da amnésia

"Não lembro". Duas vezes essa frase no mesmo dia, e um horrível déjà vu, uma outra cena também ligada a um estado alterado de consciência (mas daquela vez com imprecações em público - terá sido por isso o retorno misterioso do ex? uma indubitável sincronicidade?).
O que alegar quando não se lembra de algo? A amnésia garante inimputabilidade?
Da pessoa que eu julgava minha amiga, li isso: "Não lembro, estava tão bêbada que perdi a consciência. Se fiz algo, peço desculpas". Simples assim.
Interessante que mesmo com a falta de memória eu não tenha ouvido/lido nada do tipo "Imagine! Impossível!". A resposta veio prontamente: "não lembro".
Neste exato momento bem que eu gostaria de ser abençoada por toda essa amnésia.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Pretinho básico, ou Olha como sou legal!

Com essa história de terapia, vou tendo vários insights, alguns tardios, mas fazer o quê? Antes tarde, não é isso? Antes aos 40 do que nunca.
Um desses insights foi sobre o pretinho básico, aquele vestido que toda mulher TEM que ter. De fato, é muito prático ter um no guarda-roupa. Eu me rendi a isso bem recentemente, pois sempre tive muita dificuldade em resistir aos vestidos cheios de cores e estampas. Afinal de contas, um pretinho básico nos deixa adequadas a qualquer ocasião. Basta acrescentar o acessório certo, o sapato correto, et voilà, as portas se abrem (ou, pelo menos, não se fecham).
Mas o fato é que os pretinhos básicos uma hora se vão, de tão usados em todas as ocasiões que pedem atitudes discretas e adequadas. E quando saio para comprar outro, acabo voltando com um... pouco básico. Pode até ser preto (cor que, aliás, adoro), mas sempre terá um detalhe que não o deixará combinar com tudo.
E cadê o tal insight? Ah, sim: um dia desses, estava arrumando o guarda-roupa, verificando se havia algum vestido que deveria doar. Então me dei conta de que não tinha nenhum pretinho básico, que todos os subsistentes eram mais ou menos coloridos. Cheguei a cogitar que precisava de um novo vestido preto, bem "normal", mesmo que a ideia não me parecesse tão animadora. E pensei em seguida como muitas vezes nos forçamos a encarar algo que não nos apetece para nos sentirmos apropriadas, aceitas.
Quantas vezes nos transformamos num modelo básico de comportamento para agradar à maioria das pessoas? Acabamos nos tornando nós mesmas um pretinho básico que se adorna com o acessório correto para cada ocasião - para não fazer feio, não escandalizar, não provocar comentários. Em suma: para passar batido. Não incomodar.
Embora eu prefira as estampas e cores, já me peguei muitas vezes me adaptando demais a situações e pessoas. Aceitando/engolindo falas e condições absurdas de parceiros, fazendo coisas para agradar ao mesmo tempo que rangia os dentes. Como se estivesse dentro de um vestido que me constrangesse (como as roupas que às vezes herdava dos irmãos mais velhos, oh God!), ou com sapatos muito apertados. O mais maluco é como essa situação incomoda e como é difícil nos livrarmos dela. É angustiante saber o que se deve fazer e se sentir impotente para fazer. A alma está sendo torturada, e a mente (ou o ego, ou o animus, ou a persona, ou as convenções, sabe-se lá) diz: aguente firme. Será que TEMOS que aguentar? E não estou nem pensando em mim, nos meus sapatos apertados, quando escrevo isso, mas em amigas que estão neste momento sendo esmagadas por uma situação, que sentem os ossos quebrando, mas ainda não conseguiram sair de baixo dos escombros. Tenho certeza de que conseguirão, que vão soltar um grito (exatamente como uma amicíssima fez) de basta, no meio da noite, para todo mundo (principalmente elas mesmas) ouvir.
Não por acaso, depois de um café com duas outras grandes amigas (já se vê que este post é para minhas amigas, e para as mulheres em geral), falando de tudo um pouco, mas principalmente sobre nossa condição feminina, uma delas compartilhou o pdf do livro Mulheres que correm com lobos (minha amiga que uivou pelo fim de sua situação já tinha falado dele há alguns anos, mas não me animei na época com o título piegas) da junguiana Clarice Pinkola Estes. Bom, o livro é mesmo um pouco piegas, e seu tom de autoajuda (muitas repetições, um certo didatismo, muitas metáforas) às vezes cansa um pouquinho. De qualquer modo, é MUITO pertinente a toda essa história de se ajustar para agradar, vestir uma pele que não é nossa, ou perder a pele até ficar ressequida, à mercê das intempéries e maus-tratos (como a história de uma mulher-foca contada pela autora).
Depois de alguns insights como esse, tenho me olhado com mais atenção no espelho (= alma) para ver o que me serve ou não. O que reflete o que sou, e não o contrário, para que não aconteça o que sucedeu à personagem Jacobina, de Machado de Assis. Provavelmente terei um pretinho pouco básico no guarda-roupa, provavelmente me acharão menos "legal" por não seguir as regras de comportamento. Mas certamente estarei mais feliz.