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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

No pasarán

Outro dia, assisti ao lindíssimo Madres paralelas, de Pedrito Almodóvar - ou AMORdóvar, como bem o chamou uma antiga amiga de faculdade. Foi aquele gatilho do bem pra eu me lembrar como o tema da Guerra Civil Espanhola - e, na sua esteira, a luta por justiça e por direitos humanos - sempre me foi caro. Aliás, essa mesma amiga da faculdade se recordou de minhas pesquisas sobre Guerra Civil quando frequentávamos as aulas do professor Sebe, especialista no assunto. Tudo havia começado no colégio, assistindo aos filmes de Saura, lendo García Lorca, conhecendo Guernica; depois tive contato com Hemingway e, já na faculdade, com os volumes de Hugh Thomas sobre a guerra na Espanha. As Brigadas Internacionais. La Pasionaria Dolores Ibárruri. No pasarán, conclamava a revolucionária basca. 
Infelizmente, eles passaram e mantiveram uma ditadura de quarenta anos na Espanha. Como também em Portugal, sob Salazar. No Brasil, foram quase trinta anos (sem contar a de Vargas). Quase vinte no Chile. Tantos anos em tantos países, incontáveis anos roubados à liberdade do cidadão comum. Quase nunca das elites econômicas, que sempre ganham com o desastre e o horror. Como acontece hoje, no governo bolsonarista, em que, mesmo com a intensificação da iniquidade social, os ricos repetem sua ladainha desprovida de sentido de temor ao comunismo que nunca houve no país, seguida sempre do irritantemente imbecil "mas e o PT?". Porque, para eles, pouco importam os milhões voltando à miséria, os desempregados, a população de rua, os feminicídios, o massacre da população pobre e negra. 
Eu tive certeza desse completo descaso pelo outro quando me vi cercada de simpatizantes do Bozo, pró-fascistas que clamavam contra uma possível eleição de Lula - porque, no governo do PT, "nosso dinheiro era todo mandado pra fora". Pra fora onde, meu pai? Pra Venezuela? Dali a pouco, teve um que quis colocar um áudio de WhatsApp recebido sabe exu de onde pra gente "ver que". Ai, senhor Jesus, apaga a luz. Por sorte, até os outros simpatizantes do Evil protestaram porque preferiam ouvir música ao áudio de origens controversas. Só sei que, ao fim da sessão de disparates, me sobrou uma sensação ruim e um pensamento: sou obrigada a conviver com gente assim? Pessoas que se informam pelo WhatsApp? Que estão cagando pro próximo, que só se importam com seus ganhos, seu conforto? Que acreditam que há orgias nas universidades públicas, que agora há uma semvergonhice das populações antes esmagadas? É um samaritanismo que não possuo.
Só para aumentar ainda mais o tamanho do disparate, assisti no YouTube a uma récita de um casal de moradores de rua - não consegui descobrir quem são, de onde são, quem produziu o vídeo. Só sei que foi a declamação mais pungente e bela que já vi de Drummond. E eles perguntam, no máximo direito de perguntar: você marcha, José? José, para onde? A mim só resta desejar que, como José, eles sejam duros, que não morram, que não deixem que seus opressores passem mais uma vez. Quero estar junto, cerrando fileiras.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Sororidade e nossas lutas diárias

Quando fui trabalhar na TV Cultura, tive de cara um impasse: a pessoa que exercia a mesma função que eu, com quem deveria dividir algumas informações e partilhar o mesmo modus operandi, antipatizou comigo. Bastante, eu diria. Ou, pelo menos, assim pareceu. Depois percebi que duas senhoras, ex-professoras, que lá trabalhavam como consultoras e a tratavam como mascote, falavam mal de mim para ela - e não parecia que falavam: eu as ouvia falar, na minha cara. Ouvi-as comentando, por exemplo, que eu nem bem havia entrado para a equipe e já ia viajar - algo que tinha combinado com meu chefe assim que fui selecionada, porque tinha um compromisso em outro estado, com passagens compradas e tudo. As duas me tratavam com desdém, uma era irônica, a outra sequer respondia ao meu cumprimento. Nunca soube o porquê. 
A minha relação com minha colega, porém, mudou quando, no dia do seu aniversário, eu organizei uma festa surpresa, com vaquinha para o bolo e que tais. Ela foi de fato surpreendida, ficou roxa e emocionada, e daí para adiante nos tornamos muito amigas, e o somos até hoje, apesar da distância. As duas professoras não gostaram nada. Às vezes, havia tentativas de colocar a ex-mascote contra mim em questões comezinhas, mas não deu certo. 
Por que conto essa história aparentemente bobinha? Porque sempre me incomoda que as mulheres sejam desunidas por ninharias, por competições pífias, por juízos apriorísticos. Hoje, apesar do peso do termo sororidade, há tantas questões menores pululando no cotidiano que tudo é motivo para desentendimento. Não falo das questões políticas e visões de mundo, mas de questiúnculas mesmo. Outro dia, assisti a um debate acalorado nas redes sobre ser mãe de crianças e mãe de pets porque uma outra amiga disse que não tinha paciência com comparações entre o sofrimento de umas e outras. Acho que se fosse ao vivo as mães todas teriam saído no tapa. 
Enquanto brigamos entre nós, enquanto chamamos outras de "vagabundas", achamos ridículo que se vistam assim ou assado, que façam procedimentos estéticos ou que continuem gordas e "desleixadas", que queiram ou não ser mães, num julgamento sem fim das vidas alheias, milhares de mulheres diariamente são estupradas, espancadas, mortas, desrespeitadas em seu trabalho e em sua intimidade, por sua cor, por sua orientação sexual, muitas vezes só por serem mulheres. Enquanto brigamos, a sociedade classista, patriarcal, colonial se mantém soberana, sustentada por nosso trabalho e fazendo uso de nossos corpos em todos os sentidos. Enquanto brigamos, não somos sujeito, somente objeto; não formamos um corpo sólido que possa resistir e lutar, mas apenas milhões de partículas à deriva. O julgamento das duas professoras não agregou nada à nossa luta diária, não passou de fuxico desnecessário, pura futilidade. 
Por outro lado, e apesar de tudo, a forma de as mulheres verem a si mesmas tem mudado, que bom. E o modo retrógrado de olhar a si e a outras pode ficar para trás, ou muito reduzido. Assim, podemos nos solidarizar com a luta de alguém que nem conhecemos, perceber a importância de cada luta individual para as conquistas de todas. Quando soube, por exemplo, que uma querida da ECDE, de quem já comprei peças lindas e que é tão atuante na defesa dos direitos das mulheres, está enfrentando um câncer de mama, senti como se fosse uma irmã a enfrentar o problema - tenho acompanhado sua luta e sempre envio meus melhores pensamentos para ela, mesmo de tão longe e sem conhecê-la pessoalmente. Também tive a surpresa de saber que uma amiga amada teve de tirar a mama pelo mesmo motivo - foi um susto pra mim, mas ela me contou com aquela serenidade que a caracteriza tão bem, e ainda me estimulou a fazer logo meus exames. E eu fui, um ano e meio depois, refazer exames médicos, conferir nódulos aqui e ali. Eles continuam lá, mas sob controle. 
Cada vez mais me espanto com a falta de apoio de uma mulher a outra. Eu, que tive, sim, meus momentos de julgamento, mas tive o privilégio de me ligar do absurdo disso mais rapidamente que as duas senhoras de que falei. Não as vejo há muito tempo - quem sabe terão conseguido sair dessa também? Tomara que sim, porque em nossa época só cabem as questões fundamentais, se quisermos evitar a hecatombe completa. 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Oikos

Já faz um tempo que temos procurado ser mais ecológicos, evitando o desperdício de água e comida e o consumo excessivo.
Não é fácil. Tento criar um cardápio semanal para aproveitar ao máximo legumes e verduras e preparo em maior quantidade, para congelar, coisas básicas como arroz e leguminosas. Fiz cursos de aproveitamento e de congelamento de alimentos. Comprei a lava-louças que promete gastar menos água e a geladeira que consome menos energia. Consegui um desodorante em pedra que deve durar uns três anos, além de não ter aqueles químicos todos que podem ou não provocar câncer de mama. Tentei (mas não consegui) usar coletor menstrual para evitar os absorventes que demoram décadas para se desintegrar. Vamos, ou íamos, à praia de bike.
O que me frustra nessa tentativa de ser ecológico é como é algo ainda caro para a maioria, a menos que você consiga produzir muitas coisas em casa. Roupas, móveis, utensílios, alimentos. Além disso, mesmo buscando, por exemplo, uma alimentação com menos produtos processados, ingerimos muito veneno e hormônios. Continuamos à mercê dos grandes conglomerados, que ditam as regras do mercado e nos empurram uma comida pouco saudável, pouco ecológica e pouco democrática, já que muitas vezes está associada à exploração de trabalhadores no campo e na indústria, além da destruição dos espaços naturais. 
Pagamos cada vez mais caro pela energia elétrica, e o uso de painéis solares, num país tropical como o nosso, ainda é um grande luxo. A maioria dos produtos de higiene e beleza ainda está ligada a experimentos com animais, substâncias tóxicas e práticas pouco sustentáveis - embora já venhamos assistindo a uma pequena revolução nesse sentido.
Há também, por trás do discurso que estimula cada um a fazer sua parte, o interesse de governos e empresas de tirarem sua responsabilidade da reta. E é o que nos lança no desespero de ainda fazermos tão pouco para conter a catástrofe climática que se desenha diante dos nossos olhos a cada dia. Claro que há também os que afirmem que a natureza sobreviverá a nós, e se recuperará de alguma forma quando não estivermos mais aqui, mortos talvez pelo calor ou pelo frio ou por falta de comida ou de água. Também há cientistas alertando para o fato de que nem tudo que é vendido como natural é bom e que não basta o selo do produto orgânico para que algo seja sustentável.
De qualquer modo, me sinto bem de produzir menos lixo, de os restos de verduras e frutas virarem composto para as árvores do quintal, de resistir a liquidações das lojas favoritas, de ser capaz e ter condições financeiras de produzir nossas refeições. Talvez deixe de comer carne em algum momento. Ainda acredito que a ética - antes de tudo, e cada vez mais, um valor pessoal - é a melhor guia a reger nossa relação com essa grande casa que é o planeta. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Colorismo apaga ou acende a luta?

Outro dia foi que aprendi o termo "colorismo", usado por ativistas negros para salientar os graus de racismo sofridos por pessoas negras de acordo com ser mais ou menos negro. 
Acho que a esse respeito, não há dúvida: quanto mais negro for o indivíduo, mais preconceito ele sofre. Isso não quer dizer que os ditos "pardos", segundo as classificações estapafúrdias que aparecem no IBGE, não sofram também, ainda que de forma um pouco mais velada. O preconceito aí está, ferindo a todos. Por isso, do meu humilde ponto de vista de mulher não negra, fico pensando se é saudável para a luta anti-racista a divisão entre pessoas negras de qualquer matiz. Tudo isso depois de ter sabido de uma polêmica, no final do ano passado, entre a filósofa Djamila Ribeiro (que inclusive recebeu a última edição do Jabuti por seu Pequeno Manual Antirrascista) e a ativista Letícia Parks, a quem Djamila teria se referido no programa Roda Viva como "negra de pele clara" para evidenciar suas discordâncias. Antes, em maio de 2019, tinha havido outra discussão com Andreza Delgado, ativista negra de grande importância periférica, nos mesmos termos. 
O site Notícia Preta publicou, no ano passado, um artigo sobre Djamila x Andreza que expressa o meu sentimento com relação ao tema. Eu, do lado de fora dessa discussão, me incomodo com o esvaziamento de qualquer tema pelo uso de argumentos tão alheios ao debate que até lembram o que tanto criticamos nas falas machistas, homofóbicas, classistas e racistas. Só posso me entristecer ao ver como coisas menores podem minar a união tão fundamental para o fortalecimento dos movimentos sociais, sobretudo negros e feministas. 
O apego aos rótulos, e hoje talvez uma certa disputa pelos holofotes, não pode ser mais importante, me parece, que as longas lutas por direitos e igualdade na diferença. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Princesas

Ivan Martins, que adoro, publicou outro dia um texto em que dizia que não queria que sua filha fosse princesa, porque não há nada mais besta do que ser princesa, esse ser passivo que vive à espera do príncipe enquanto todos tomam decisões por ela. 
Só repostei o texto, e pronto. Já teve gente defendendo as princesas e atacando as feministas. Até quem dissesse que prefere ficar em casa cuidando do Macho Alfa e tendo direito a um cartão de crédito ilimitado. Já imaginei o Macho Alfa abandonando a princesa amadurecida por uma mais nova e levando junto o cartão, claro, talvez não sem antes dar uns sopapos na ex, lamuriante da perda de seus privilégios. 
Achei tudo muito louco, porque a distorção de ideias é gritante, a pós-verdade impera mesmo. A galera não entende que a luta feminista é por todas, pela igualdade de direitos, e não para sermos iguais aos homens. Que os direitos conquistados contemplam inclusive as que acham que não precisarão deles, mas certamente deles usufruem quando estudam, votam, circulam, escolhem seus parceiros. Que as mulheres podem inclusive, pela ótica feminista, serem princesas, se quiserem, mas não só isso. 
Até mesmo a maior fabricante de princesas do imaginário ocidental, a Disney, reviu seu conceito e passou a criar princesas bastante autônomas e fora da curva, como Moana, Valente, Tiana, Mulan. Bela, de A bela e a fera, já trazia a ideia de que a mulher podia ser inteligente além de bela para ter êxito na vida, mas suas sucessoras vieram botar fogo no parquinho. 
Talvez tenhamos que esperar passar essa onda de ultraconservadorismo para que as pessoas possam ver com clareza o que significa para uma mulher ser livre. Espero que essa liberdade chegue para todas. 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O corpo do outro

Tanta loucura nesse mundo de meodeos que é difícil organizar os pensamentos! Além da corrupção desenfreada, da pandemia sem fim, da direita ensandecida, da inflação descarrilada, tem estado em evidência ainda maior um sem fim de abusos do corpo alheio. 
Tamanho o absurdo da distopia que vivemos que, outro dia, ganhou destaque uma briga no Leblon, quando uma mulher, despeitadíssima, atirou garrafas de água contra outra que passava de biquíni num conversível; a de biquíni desceu do carro e desceu a mão na agressora e então foi covardemente atacada, desta vez, pelo namorado da outra, que lhe arrancou a parte de cima do biquíni. A agressora despeitada gravou um vídeo - está na moda agora, vídeos explicativos de agressores - justificando sua ação/agressão como defesa dos bons costumes, porque a outra estaria atentando contra o pudor ao exibir seu corpo malhado no calorão, mesmo noturno, do bairro praieiro carioca. 
Fiquei abismada com a pretensão que tem havido dos recalcados em relação ao corpo alheio. Quem deu o direito a essas pessoas de tocarem de alguma forma o corpo de uma mulher desconhecida? Ou de qualquer outra pessoa? Ou de sequer opinar sobre esse corpo?
A pergunta é retórica, claro, em se tratando de um país machista, sexista e violento, em que as ações contra as mulheres parecem ter sido completamente liberadas neste contexto de horror em que temos vivido, levando ao alarmante aumento do número de feminicídios desde a ascensão bolsonarista e ainda mais durante a pandemia, a denúncias de estupro em toda parte, o que reacende a discussão da legalidade do aborto - e novamente vemos debates absurdos sobre a autonomia que uma menina ou mulher tem sobre o próprio corpo, como no caso da garotinha capixaba que quase não conseguiu abortar após ter engravidado do parente que a estuprava há anos. 
Entre as últimas notícias bizarras sobre o assunto, temos o caso Robinho, jogador de futebol, que participou de um estupro coletivo na Itália e foi condenado pela justiça de lá, mas perigava ser contratado pelo Santos há poucos dias, até que os patrocinadores ameaçaram se retirar caso o contrato não fosse revogado. Além da defesa surreal de Robinho, que alegava não ter feito sexo (só colocado o pau na boca da moça), nem ter feito nada errado além de trair a mulher (só ter se aproveitado de uma moça alcoolizada e fora de si, como os envolvidos reconheceram em conversa grampeada pela justiça italiana), ainda há - embora menos, ainda bem - gente que argumente que há muita maria chuteira por aí querendo se dar bem. Bom, mesmo que fosse o caso, mesmo que a moça fosse prostituta, ninguém tem o direito de sair tocando o corpo dela sem que ela autorize ou esteja consciente. No final das contas, é sempre a mesma história, de como todos têm direito a fazer o que quiserem do corpo feminino, só mudando as circunstâncias. E como, por terem esse direito, os homens, principalmente, saem impunes de tantos abusos. Tudo em nome da normalidade, do costume. No caso de Robinho, praticamente em nome de Deus, que ele evocou diversas vezes nas gravações e em entrevistas, enquanto falava contra o movimento feminista e as mulheres "que nem mulheres são". 
Mas os homens também não querem ser objetificados, apesar da cultura machista do homem que está pronto para todas. Já ouvi de um companheiro que ele não estava sempre a fim, que era preciso criar um clima, e me senti um homem rejeitado naquele momento. Apesar da minha cara de tacho, foi fundamental para ter maior clareza do que é o corpo do outro, que ele não está sempre à disposição do nosso desejo - mesmo que seja um homem! Isso significa que boa parte do que vivenciamos em termos de abuso é resultado de uma cultura, ou seja, algo que pode e deve ser transformado. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Ainda o lugar de fala

Postei esses dias uma matéria ótima sobre o fato de descendentes de orientais não tolerarem mais piadas nem estereótipos associados a eles. Interessante como sempre aparece alguém para dizer que tudo é exagero, que isso acirra o ódio, enseja um debate e um confronto desnecessários, que nunca viu nada disso, que acha tudo tão natural blábláblá. Meu pai celeste, que preguiça! Mal respondi, mas uma amiga, mestiça como eu, resolveu responder, com todos os argumentos de quem não só sabe do que está falando mas também de quem sabe argumentar de fato. Uma hora ela cansou, já que o oponente, obviamente, não dava conta sequer de sustentar a discussão. Aí entrou outra pessoa para dizer que também nunca viu nada disso, blábláblá. Gente!
O mais louco dessa história é que as pessoas que criticavam o artigo e o suposto "preconceito" dos orientais entrevistados não são orientais. Contaram de suas experiências interétnicas superpositivas, como pessoas (quase) brancas, dizendo não entender tanto amargor e ressentimento, inclusive insistindo na inocuidade das piadas racistas quando ditas por "amigos", na melhor linha "se não vejo, não existe; se não é comigo, não tem importância". Logo os comentaristas supostamente brancos, já sozinhos na discussão, terminaram por elogiar um ao outro, por sua compreensão fina do problema alheio, que nem o próprio outro é capaz de entender tão bem. 
Nada disso é novidade - vemos isso o tempo todo em relação a pessoas negras, a mulheres, ao grupo LGBT, aos mais carentes. Sempre tem alguém de fora dizendo o que é certo, como devem se comportar, o que devem sentir. Até aqui em casa o que vejo ou sinto é algumas vezes colocado em dúvida - será? tem certeza? acho que você está viajando! Não há nada mais espantoso, mais pós-verdade que esses comportamentos que são fruto de uma cultura enraizada, mas não irredutível, não incontornável, graças à deusa. 
É preciso combater todo tipo de preconceito, é preciso dar voz a todos. Muitas vezes será preciso ser antipático, cortante como a espada de um orixá ou santo guerreiro, bradar contra os altissonantes donos da verdade que querem calar os demais. Mas, na maior parte das vezes, ficar em silêncio, somente ouvindo a verdade do outro, tantas vezes amesquinhado, será a melhor, mais bela e mais justa coisa a se fazer.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Iniquidade é onde falta pão

Somente ontem aprendi que iniquidade é o oposto de equidade. Eu sempre associei a palavra à injustiça e à maldade, mas não sabia realmente o significado imediato. Ontem soube, por meio da aula de "Alimentação, educação e saúde" da pós-graduação, pelos textos e vídeos que tratam dos determinantes sociais da saúde (DSS). 
Em lugar de falar em desigualdade - porque desigualdade é um termo mais amplo, que pode valer para tratar de diferenças entre gêneros, por exemplo -, usa-se o termo iniquidade para tratar da não igualdade social, da ausência de direitos para todos. De repente, fez-se um clarão, tive uma epifania quanto ao abismo social em que vivemos. Mesmo eu, que morei tantos anos na periferia, não tenho ideia do que é não ter água nem saneamento básico, falta completa de comida, de escola, de dinheiro, de emprego.
Pessoalmente, sempre tive um incômodo enorme quanto à falta de comida e à possibilidade de alguém estar desprotegido - sem casa, passando frio, à mercê da violência, o que for. Pensar nisso me horroriza. Ainda vou colocar meu talento culinário, além da palavra, à disposição dos menos favorecidos.
No Brasil, normalizamos a iniquidade. Milhões não tem pão, o mínimo do mínimo da dignidade, da sobrevivência. Convivemos com o horror diário, desde que não esteja à nossa porta.
A atual pandemia, se é que pode ter trazido algo positivo, fez escancarar as iniquidades no Brasil e no mundo. O Ensaio sobre a cegueira tornado real, a luz insuportável sobre a verdade. 

sábado, 21 de março de 2020

O que aprenderemos com o coronavírus?

Nunca pensei, de fato, que viveria para ver uma pandemia em meu país. Mas ela veio.
O coronavírus tem uma disseminação rápida como nunca se viu; por isso, apesar da baixa letalidade (a menos que você seja diabético, cardiopata, asmático etc. ou tenha mais de 60 anos), é tão importante o isolamento social, para achatar a curva de crescimento de casos e evitar ao máximo sobrecarregar a já precária rede de atendimento à saúde. Se na Itália a gripe já fez tanto estrago, imagine aqui, imagine se chegar às periferias (e vai chegar).
Para além do fato de termos um presidente louco, egocêntrico e despreparado, algo preocupante é a cultura individualista do povo brasileiro. Teremos um grande teste à frente, o de colocar em primeiro plano o bem-estar coletivo para que menos indivíduos sejam afetados. Não acabar com os estoques de comida, álcool gel e máscaras, por exemplo, pensando que outras pessoas precisam do mesmo. Evitar as aglomerações, ficar em casa (para quem pode). Ser minimamente solidário ao não alastrar a doença por aí.
E manter a sanidade, não se fixando nos pensamentos inevitáveis de catástrofe e desemprego.
Talvez aprendamos a viver com menos, a viver junto, a nos revoltar contra a injustiça.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Quando o racismo nos atinge

Nem eu mesma aguento mais falar sobre o fascismo alheio de cada dia. É um bombardeio de notícias ruins a cada momento, e parece que é só delas que falamos, ainda que uma ou outra coisa bacana, uma ação solidária ou justa aconteça aqui ou ali.
Embora sempre fique indignada com os casos de intolerância, que têm aumentado exponencialmente no contexto fascista em que vivemos, nunca pensei que era possível ficar ainda mais consternada quando acontecesse tão perto de mim. 
E aconteceu, com minha irmã caçula, que mora no Rio. Uma senhora, no metrô, começou a ofendê-la assim que a viu entrar no vagão, chamando-a de "chinesa porca" e outras baixarias. Fez comparações com os negros, que, "graças à escravidão", aprenderam a "ser limpos", ao contrário dos orientais. 
O que a tola e preconceituosa senhora não sabia é que minha irmã é extremamente inteligente, retadíssima, consciente de seus direitos, futura competente advogada e, honrando o fato de ser minha irmã, não ia deixar barato. Além de ter filmado boa parte das ofensas, ela descobriu nome e endereço da mulher e logo deu tratos à bola, ou seja, indiciou a criminosa. 
Eu me lembro de meu irmão mais velho, quando éramos adolescentes, sofrer com piadas pelo fato de ser descendente de orientais - havia só uma meia dúzia de mestiços na escola pública onde fizemos o ensino fundamental; depois eu e ele iríamos para escolas técnicas repletas de "gente como nós". Depois, durante muitos anos, esses episódios de racismo pareciam erradicados da minha vida familiar, mas não. Eles acabam de voltar, com muito mais fúria. 
É este o país em que temos vivido, com fascistas de todo tipo saltando do armário, atacando qualquer um que seja diferente deles, que tenha coragem de ser. Está liberado ser racista, homofóbico, preconceituoso, propagar o ódio. E é difícil pensar em pagar na mesma moeda, com a mesma raiva - porque não faz sentido para quem só quer viver em paz.
A atual epidemia de coronavírus que tomou uma cidade chinesa e tem se irradiado por outros países contribui para que a intolerância também se espalhe, como lama tóxica. Mais um pretexto para ações como a que minha irmã sofreu. 
Aliás, ela ter sido chamada genérica e preconceituosamente de chinesa e termos assistido há poucos dias o filme Assunto de família, sobre japoneses que vivem à margem do sistema aplicando pequenos golpes, são coisas que me fizeram pensar em como o outro é sempre um enigma, quando não uma ameaça. Mesmo para mim, descendente de orientais, é difícil pensar que existam japoneses "malandros", que vivam na pobreza, como as personagens do filme. Imagine, então, para os não descendentes e não dispostos a conhecer esse outro, que estereótipos mais podem surgir. 
Na verdade, prefiro não imaginar, para não perder a esperança e assim continuar a resistir. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Ser mulher

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Simone de Beauvoir continua causando furor com sua constatação. Talvez hoje mais que em 1949, a ponto de a francesa ser lançada à fogueira, viva fosse, por ter sido tema de questão do Enem 2015.
Sim, ser mulher é uma condição a que se chega, e me parece que pode ou não acontecer. O que mais se vê, porém, são travestis de mulher, seres do sexo feminino que vestem a fantasia imposta pela sociedade. Nossa sociedade brasileira machista, por exemplo, crê que mulher é um ser submisso, a que não se deve dar voz, a quem se pode interromper, que deve aguentar cantadas por onde passa, que deveria dar graças a Deus por ser cantada, que deve fechar os olhos a traições e maus-tratos, que merece ganhar menos que o homem, que não pode mostrar inteligência - se for inteligente, provavelmente, é sapatão, e sapatão não é mulher. No Brasil, mulher boa é "bela, recatada e do lar", como se disse da senhora Michel Temer - um modelo para todas nós. Se nos faltar uma dessas "qualidades", só nos resta lamentar ou morrer de inveja. Ou, ainda, passar a vida tentando se adequar a isso, agradecendo ao homem que nos queira. Oh, sim, todas precisamos de um homem, ou não seremos mulheres. Aliás, precisamos de um homem e também ter filhos, ou seremos simples aleijonas sociais.
Mulher que se preza no Brasil anda na corda bamba pra se sustentar, ficar linda pro seu macho, estar sempre depilada, bronzeada, hidratada, gostosa, cozinhar bem, lavar a louça, estar disponível para o sexo quando o macho quiser. Apesar de ter de ser sensual, se for estuprada, a culpa foi sua, com certeza: quem mandou usar roupas provocantes? Ah, não era ela que já tinha um filho, andava na boca do morro, era drogada? Teve o que merecia - ser violentada por mais de 30 homens. Desacordada sim, mas houve consentimento (ela não estava lá pra "isso"?) - logo, não foi estupro. Aliás, sempre que querem quebrar uma mulher, estupram-na. Porque o estupro é uma forma de demonstrar o poder do macho. Quebram sua alma, sua dignidade.
Isso que aconteceu na Zona Oeste do Rio de Janeiro, com a jovem violentada coletivamente, coroa as violências que as mulheres sofrem todo dia. Quando é constrangida pelo companheiro, pelo chefe, por colegas, quando ouve "cantadas "bizarras e teme responder, quando é interrompida por um homem no meio de uma conversa. Eu já trabalhei em ambientes muito machistas, tive companheiros abusivos em algum grau, vi alguém se masturbar na minha janela, ouvi grosserias na rua. Se ser mulher é ter de viver isso, obrigada, está muito longe do que eu quero e mereço.
Não bastasse a culpa que a mulher carrega, simplesmente por ser mulher, travesti ou não de seu gênero, ainda há a cultura de colocar uma mulher contra outra. A culpa não é do homem que deu mole, mas da vaca que deu em cima do pobrezinho, a outra. Livra-se parte das pessoas envolvidas apelando para a questão de gênero. Assim, quem carrega a culpa e as responsabilidades pelos pecados do mundo são as mulheres, não as pessoas.
Aliás, não há nada mais distante de ser uma pessoa do que ser mulher no Brasil ou em qualquer pátria (nome mais claro não há) machista.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Greve!

Hoje é o quinto dia de greve dos metroviários de São Paulo, três dias antes do início da Copa do Mundo no Brasil. O Picolé de Chuchu disse que não negocia mais e anunciou a demissão de 60 funcionários (estranho é que não havia cogitado isso antes caso os funcionários não aceitassem a oferta "generosa" de reajuste do governo). Subiu nas tamanquinhas, mesmo sem mudar a expressão facial.
Parte da população critica os grevistas. Eu não. Acho a greve justa, um direito conquistado, próprio de países civilizados. Será que não é o nosso caso, a civilização? O problema é que o trabalhador brasileiro se habitua tão facilmente à exploração que não percebe que ele também tem direito de sair às ruas, protestar, exigir. Vi com enorme esperança as manifestações do ano passado, achava que elas evoluiriam de um ato "espontâneo" para algo pautado, pensado, organizado, amplo e justo. O que aconteceu é que acabaram se diluindo, e agora, quando os grevistas saem às ruas, são chamados de oportunistas, acusados de atrapalhar a vida dos outros trabalhadores.
De fato, é horrível ver na TV diaristas que demoram 4 horas para chegar ao trabalho ou à sua casa (por que será que são sempre elas as escolhidas para as entrevistas?). Mas uma greve precisa de ruído para ter efeito, ou então se torna alvo de chacota, como os movimentos do professorado brasileiro. Quem se importa com a educação? A quem afeta a paralisação dos professores? Claro que nós sabemos - mas é um problema para o "futuro", e nenhuma criança vai ser demitida pelos pais se faltar às aulas.
Os metroviários hoje quase alcançam o mesmo repúdio ao PT no que diz respeito ao males da sociedade. Ninguém pensa que o dinheiro desviado nas obras do metrô poderia muito bem pagar o que os grevistas pedem de reajuste. Ops, parece que houve uma amnésia quase generalizada!
Há poucos dias, tivemos outra greve, dos motoristas e cobradores de ônibus. Essa sim, pura bandalheira. Não foi organizada como a dos metroviários, que inclusive deixaram de fazer a sua para não lançar São Paulo num caos ainda maior. A paralisação dos ônibus, promovida por uma facção do sindicato correspondente, me fez lembrar os ataques do PCC em 2006. Algo do tipo: "vamos mostrar quem é que manda".
Tive a oportunidade de presenciar as famosas manifes francesas quando estive em Paris. Fiquei emocionada. Claro que pode haver confusão, pessoas deixam de ter acesso aos serviços etc. Mas o que mais me chamou a atenção foi a compreensão da maioria das pessoas com relação ao fato da reivindicação por um direito. Isso é democracia.
Enquanto cada brasileiro pensar somente no seu quadrado (que muitas vezes nem é um quadrado "próprio"), o gigante vai continuar deitado em berço cada vez menos esplêndido, pilhado que é pelos verdadeiros oportunistas de tocaia.